Conto, Contos Fluminenses, 1870

Contos Fluminenses

Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis, vol. II,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

Publicado originalmente pela
Editora Garnier, Rio de Janeiro, em 1870.

NDICE

MISS DOLLAR

LUS
SOARES

A MULHER DE
PRETO

O
SEGREDO DE AUGUSTA

CONFISSES DE UMA VIVA MOA

LINHA
RETA E LINHA CURVA

FREI
SIMO

MISS
DOLLAR

NDICE

Captulo Primeiro

Captulo II

Captulo iii

Captulo iv

Captulo v

Captulo vI

Captulo vII

CAPTULO VIII

CAPTULO PRIMEIRO

Era conveniente ao romance que o leitor
ficasse muito tempo sem saber quem era Miss Dollar. Mas por outro lado,
sem a apresentao de Miss Dollar, seria o autor obrigado a longas
digresses, que encheriam o papel sem adiantar a ao. No h hesitao
possvel: vou apresentar-lhes Miss Dollar.

Se o leitor  rapaz e dado ao gnio
melanclico, imagina que Miss Dollar  uma inglesa plida e delgada,
escassa de carnes e de sangue, abrindo  flor do rosto dois grandes olhos azuis
e sacudindo ao vento umas longas tranas loiras. A moa em questo deve ser
vaporosa e ideal como uma criao de Shakespeare; deve ser o contraste do roastbeef
britnico, com que se alimenta a liberdade do Reino Unido. Uma tal Miss
Dollar deve ter o poeta Tennyson de cor e ler Lamartine no original; se
souber o portugus deve deliciar-se com a leitura dos sonetos de Cames ou os Cantos
de Gonalves Dias. O ch e o leite devem ser a alimentao de semelhante
criatura, adicionando-se-lhe alguns confeitos e biscoitos para acudir s
urgncias do estmago. A sua fala deve ser um murmrio de harpa elia; o seu
amor um desmaio, a sua vida uma contemplao, a sua morte um suspiro.

A figura  potica, mas no  a da
herona do romance.

Suponhamos que o leitor no  dado a
estes devaneios e melancolias; nesse caso imagina uma Miss Dollar totalmente
diferente da outra. Desta vez ser uma robusta americana, vertendo sangue pelas
faces, formas arredondadas, olhos vivos e ardentes, mulher feita, refeita e
perfeita. Amiga da boa mesa e do bom copo, esta Miss Dollar preferir um
quarto de carneiro a uma pgina de Longfellow, coisa naturalssima quando o
estmago reclama, e nunca chegar a compreender a poesia do pr-do-sol. Ser
uma boa me de famlia segundo a doutrina de alguns padres-mestres da
civilizao, isto , fecunda e ignorante.

J no ser do mesmo sentir o leitor que
tiver passado a segunda mocidade e vir diante de si uma velhice sem recurso.
Para esse, a Miss Dollar verdadeiramente digna de ser contada em algumas
pginas, seria uma boa inglesa de cinqenta anos, dotada com algumas mil libras
esterlinas, e que, aportando ao Brasil em procura de assunto para escrever um romance,
realizasse um romance verdadeiro, casando com o leitor aludido. Uma tal Miss
Dollar seria incompleta se no tivesse culos verdes e um grande cacho de
cabelo grisalho em cada fonte. Luvas de renda branca e chapu de linho em forma
de cuia, seriam a ltima demo deste magnfico tipo de ultramar.

Mais esperto que os outros, acode um
leitor dizendo que a herona do romance no  nem foi inglesa, mas brasileira
dos quatro costados, e que o nome de Miss Dollar quer dizer simplesmente
que a rapariga  rica.

A descoberta seria excelente, se fosse
exata; infelizmente nem esta nem as outras so exatas. A Miss Dollar do
romance no  a menina romntica, nem a mulher robusta, nem a velha literata,
nem a brasileira rica. Falha desta vez a proverbial perspiccia dos leitores; Miss
Dollar  uma cadelinha galga.

Para algumas pessoas a qualidade da
herona far perder o interesse do romance. Erro manifesto. Miss Dollar,
apesar de no ser mais que uma cadelinha galga, teve as honras de ver o seu
nome nos papis pblicos, antes de entrar para este livro. O Jornal do
Comrcio e o Correio Mercantil publicaram nas colunas dos anncios
as seguintes linhas reverberantes de promessa:

Desencaminhou-se uma cadelinha galga, na
noite de ontem, 30. Acode ao nome de Miss Dollar. Quem a achou e quiser
levar  Rua de Mata-cavalos no..., receber duzentos mil-ris de
recompensa. Miss Dollar tem uma coleira ao pescoo fechada por um
cadeado em que se lem as seguintes palavras: De tout mon coeur.

Todas as pessoas que sentiam necessidade
urgente de duzentos mil-ris, e tiveram a felicidade de ler aquele anncio,
andaram nesse dia com extremo cuidado nas ruas do Rio de Janeiro, a ver se
davam com a fugitiva Miss Dollar. Galgo que aparecesse ao longe era
perseguido com tenacidade at verificar-se que no era o animal procurado. Mas
toda esta caada dos duzentos mil-ris era completamente intil, visto que, no
dia em que apareceu o anncio, j Miss Dollar estava aboletada na casa
de um sujeito morador nos Cajueiros que fazia coleo de ces.

CAPTULO II

Quais as razes que induziram o Dr.
Mendona a fazer coleo de ces,  coisa que ningum podia dizer; uns queriam
que fosse simplesmente paixo por esse smbolo da fidelidade ou do servilismo;
outros pensavam antes que, cheio de profundo desgosto pelos homens, Mendona
achou que era de boa guerra adorar os ces.

Fossem quais fossem as razes, o certo 
que ningum possua mais bonita e variada coleo do que ele. Tinha-os de todas
as raas, tamanhos e cores. Cuidava deles como se fossem seus filhos; se algum
lhe morria ficava melanclico. Quase se pode dizer que, no esprito de
Mendona, o co pesava tanto como o amor, segundo uma expresso clebre: tirai
do mundo o co, e o mundo ser um ermo.

O leitor superficial conclui daqui que o
nosso Mendona era um homem excntrico. No era. Mendona era um homem como os
outros; gostava de ces como outros gostam de flores. Os ces eram as suas
rosas e violetas; cultivava-os com o mesmssimo esmero. De flores gostava
tambm; mas gostava delas nas plantas em que nasciam: cortar um jasmim ou
prender um canrio parecia-lhe idntico atentado.

Era o Dr. Mendona homem de seus trinta e
quatro anos, bem apessoado, maneiras francas e distintas. Tinha-se formado em
medicina e tratou algum tempo de doentes; a clnica estava j adiantada quando
sobreveio uma epidemia na capital; o Dr. Mendona inventou um elixir contra a
doena; e to excelente era o elixir, que o autor ganhou um bom par de contos
de ris. Agora exercia a medicina como amador. Tinha quanto bastava para si e a
famlia. A famlia compunha-se dos animais citados acima.

Na memorvel noite em que se
desencaminhou Miss Dollar, voltava Mendona para casa quando teve a
ventura de encontrar a fugitiva no Rocio. A cadelinha entrou a acompanh-lo, e
ele, notando que era animal sem dono visvel, levou-a consigo para os
Cajueiros.

Apenas entrou em casa examinou
cuidadosamente a cadelinha, Miss Dollar era realmente um mimo; tinha as
formas delgadas e graciosas da sua fidalga raa; os olhos castanhos e
aveludados pareciam exprimir a mais completa felicidade deste mundo, to
alegres e serenos eram. Mendona contemplou-a e examinou minuciosamente. Leu o
dstico do cadeado que fechava a coleira, e convenceu-se finalmente de que a
cadelinha era animal de grande estimao da parte de quem quer que fosse dono
dela.

 Se no aparecer o dono, fica comigo,
disse ele entregando Miss Dollar ao moleque encarregado dos ces.

Tratou o moleque de dar comida a Miss
Dollar, enquanto Mendona planeava um bom futuro  nova hspede, cuja
famlia devia perpetuar-se na casa.

O plano de Mendona durou o que duram os
sonhos: o espao de uma noite. No dia seguinte, lendo os jornais, viu o anncio
transcrito acima, prometendo duzentos mil-ris a quem entregasse a cadelinha
fugitiva. A sua paixo pelos ces deu-lhe a medida da dor que devia sofrer o
dono ou dona de Miss Dollar, visto que chegava a oferecer duzentos
mil-ris de gratificao a quem apresentasse a galga. Conseqentemente resolveu
restitu-la, com bastante mgoa do corao. Chegou a hesitar por alguns
instantes; mas afinal venceram os sentimentos de probidade e compaixo, que
eram o apangio daquela alma. E, como se lhe custasse despedir-se do animal,
ainda recente na casa, disps-se a lev-lo ele mesmo, e para esse fim
preparou-se. Almoou, e depois de averiguar bem se Miss Dollar havia
feito a mesma operao, saram ambos de casa com direo a Mata-cavalos.

Naquele tempo ainda o Baro do Amazonas
no tinha salvo a independncia das repblicas platinas mediante a vitria de
Riachuelo, nome com que depois a Cmara Municipal crismou a Rua de
Mata-cavalos. Vigorava, portanto, o nome tradicional da rua, que no queria
dizer coisa nenhuma de jeito.

A casa que tinha o nmero indicado no
anncio era de bonita aparncia e indicava certa abastana nos haveres de quem
l morasse. Antes mesmo que Mendona batesse palmas no corredor, j Miss
Dollar, reconhecendo os ptrios lares, comeava a pular de contente e a
soltar uns sons alegres e guturais que, se houvesse entre os ces literatura,
deviam ser um hino de ao de graas.

Veio um moleque saber quem estava;
Mendona disse que vinha restituir a galga fugitiva. Expanso do rosto do
moleque, que correu a anunciar a boa nova. Miss Dollar, aproveitando uma
fresta, precipitou-se pelas escadas acima. Dispunha-se Mendona a descer, pois
estava cumprida a sua tarefa, quando o moleque voltou dizendo-lhe que subisse e
entrasse para a sala.

Na sala no havia ningum. Algumas
pessoas, que tm salas elegantemente dispostas, costumam deixar tempo de serem
estas admiradas pelas visitas, antes de as virem cumprimentar.  possvel que
esse fosse o costume dos donos daquela casa, mas desta vez no se cuidou em
semelhante coisa, porque mal o mdico entrou pela porta do corredor surgiu de
outra interior uma velha com Miss Dollar nos braos e a alegria no
rosto.

 Queira ter a bondade de sentar-se,
disse ela designando uma cadeira  Mendona.

 A minha demora  pequena, disse o
mdico sentando-se. Vim trazer-lhe a cadelinha que est comigo desde ontem...

 No imagina que desassossego causou c
em casa a ausncia de Miss Dollar...

 Imagino, minha senhora; eu tambm sou
apreciador de ces, e se me faltasse um sentiria profundamente. A sua Miss
Dollar...

 Perdo! interrompeu a velha; minha no;
Miss Dollar no  minha,  de minha sobrinha.

 Ah!...

 Ela a vem.

Mendona levantou-se justamente quando
entrava na sala a sobrinha em questo. Era uma moa que representava vinte e
oito anos, no pleno desenvolvimento da sua beleza, uma dessas mulheres que
anunciam velhice tardia e imponente. O vestido de seda escura dava singular
realce  cor imensamente branca da sua pele. Era roagante o vestido, o que lhe
aumentava a majestade do porte e da estatura. O corpinho do vestido cobria-lhe
todo o colo; mas adivinhava-se por baixo da seda um belo tronco de mrmore
modelado por escultor divino. Os cabelos castanhos e naturalmente ondeados estavam
penteados com essa simplicidade caseira, que  a melhor de todas as modas
conhecidas; ornavam-lhe graciosamente a fronte como uma coroa doada pela
natureza. A extrema brancura da pele no tinha o menor tom cor-de-rosa que lhe
fizesse harmonia e contraste. A boca era pequena, e tinha uma certa expresso
imperiosa. Mas a grande distino daquele rosto, aquilo que mais prendia os
olhos, eram os olhos; imaginem duas esmeraldas nadando em leite.

Mendona nunca vira olhos verdes em toda
a sua vida; disseram-lhe que existiam olhos verdes, ele sabia de cor uns versos
clebres de Gonalves Dias; mas at ento os olhos verdes eram para ele a mesma
coisa que a fnix dos antigos. Um dia, conversando com uns amigos a propsito
disto, afirmava que se alguma vez encontrasse um par de olhos verdes fugiria
deles com terror.

 Por qu? perguntou-lhe um dos
circunstantes admirado.

 A cor verde  a cor do mar, respondeu
Mendona; evito as tempestades de um; evitarei as tempestades dos outros.

Eu deixo ao critrio do leitor esta
singularidade de Mendona, que de mais a mais  preciosa, no sentido de
Molire.

CAPTULO III

Mendona cumprimentou respeitosamente a
recm-chegada, e esta, com um gesto, convidou-o a sentar-se outra vez.

 Agradeo-lhe infinitamente o ter-me
restitudo este pobre animal, que me merece grande estima, disse Margarida
sentando-se.

 E eu dou graas a Deus por t-lo
achado; podia ter cado em mos que o no restitussem.

Margarida fez um gesto a Miss Dollar,
e a cadelinha, saltando do regao da velha, foi ter com Margarida; levantou as
patas dianteiras e ps-lhas sobre os joelhos; Margarida e Miss Dollar
trocaram um longo olhar de afeto. Durante esse tempo uma das mos da moa
brincava com uma das orelhas da galga, e dava assim lugar a que Mendona
admirasse os seus belssimos dedos armados com unhas agudssimas.

Mas, conquanto Mendona tivesse sumo
prazer em estar ali, reparou que era esquisita e humilhante a sua demora.
Pareceria estar esperando a gratificao. Para escapar a essa interpretao
desairosa, sacrificou o prazer da conversa e a contemplao da moa;
levantou-se dizendo:

 A minha misso est cumprida...

 Mas... interrompeu a velha.

Mendona compreendeu a ameaa da
interrupo da velha.

 A alegria, disse ele, que restitu a
esta casa  a maior recompensa que eu podia ambicionar. Agora peo-lhes
licena...

As duas senhoras compreenderam a inteno
de Mendona; a moa pagou-lhe a cortesia com um sorriso; e a velha, reunindo no
pulso quantas foras ainda lhe restavam pelo corpo todo, apertou com amizade
a mo do rapaz.

Mendona saiu impressionado pela
interessante Margarida. Notava-lhe principalmente, alm da beleza, que era de
primeira gua, certa severidade triste no olhar e nos modos. Se aquilo era
carter da moa, dava-se bem com a ndole de mdico; se era resultado de algum
episdio da vida, era uma pgina do romance que devia ser decifrada por olhos
hbeis. A falar verdade, o nico defeito que Mendona lhe achou foi a cor dos olhos,
no porque a cor fosse feia, mas porque ele tinha preveno contra os olhos
verdes. A preveno, cumpre diz-lo, era mais literria que outra coisa;
Mendona apegava-se  frase que uma vez proferira, e foi acima citada, e a
frase  que lhe produziu a preveno. No mo acusem de chofre; Mendona era
homem inteligente, instrudo e dotado de bom senso; tinha, alm disso, grande
tendncia para as afeies romnticas; mas apesar disso l tinha calcanhar o
nosso Aquiles. Era homem como os outros, outros Aquiles andam por a que so da
cabea aos ps um imenso calcanhar. O ponto vulnervel de Mendona era esse; o
amor de uma frase era capaz de violentar-lhe afetos; sacrificava uma situao a
um perodo arredondado.

Referindo a um amigo o episdio da galga
e a entrevista com Margarida, Mendona disse que poderia vir a gostar dela se
no tivesse olhos verdes. O amigo riu com certo ar de sarcasmo.

 Mas, doutor, disse-lhe ele, no
compreendo essa preveno; eu ouo at dizer que os olhos verdes so de
ordinrio nncios de boa alma. Alm de que, a cor dos olhos no vale nada, a
questo  a expresso deles. Podem ser azuis como o cu e prfidos como o mar.

A observao deste amigo annimo tinha a
vantagem de ser to potica como a de Mendona. Por isso abalou profundamente o
nimo do mdico. No ficou este como o asno de Buridan entre a selha dgua e a
quarta de cevada; o asno hesitaria, Mendona no hesitou. Acudiu-lhe de pronto
a lio do casusta Snchez, e das duas opinies tomou a que lhe pareceu provvel.

Algum leitor grave achar pueril esta
circunstncia dos olhos verdes e esta controvrsia sobre a qualidade provvel
deles. Provar com isso que tem pouca prtica do mundo. Os almanaques
pitorescos citam at  saciedade mil excentricidades e senes dos grandes
vares que a humanidade admira, j por instrudos nas letras, j por valentes
nas armas; e nem por isso deixamos de admirar esses mesmos vares. No queira o
leitor abrir uma exceo s para encaixar nela o nosso doutor. Aceitemo-lo com
os seus ridculos; quem os no tem? O ridculo  uma espcie de lastro da alma
quando ela entra no mar da vida; algumas fazem toda a navegao sem outra
espcie de carregamento.

Para compensar essas fraquezas, j disse
que Mendona tinha qualidades no vulgares. Adotando a opinio que lhe pareceu
mais provvel, que foi a do amigo, Mendona disse consigo que nas mos de
Margarida estava talvez a chave do seu futuro. Ideou nesse sentido um plano de
felicidade; uma casa num ermo, olhando para o mar ao lado do ocidente, a fim de
poder assistir ao espetculo do pr-do-sol. Margarida e ele, unidos pelo amor e
pela Igreja, beberiam ali, gota a gota, a taa inteira da celeste felicidade. O
sonho de Mendona continha outras particularidades que seria ocioso mencionar
aqui. Mendona pensou nisto alguns dias; chegou a passar algumas vezes por
Mata-cavalos; mas to infeliz que nunca viu Margarida nem a tia; afinal
desistiu da empresa e voltou aos ces.

A coleo de ces era uma verdadeira
galeria de homens ilustres. O mais estimado deles chamava-se Digenes;
havia um galgo que acudia ao nome de Csar; um co dgua que se chamava
Nelson; Cornlia chamava-se uma cadelinha rateira, e Calgula
um enorme co de fila, vera-efgie do grande monstro que a sociedade romana
produziu. Quando se achava entre toda essa gente, ilustre por diferentes
ttulos, dizia Mendona que entrava na histria; era assim que se esquecia do
resto do mundo.

CAPTULO IV

Achava-se Mendona uma vez  porta do
Carceller, onde acabava de tomar sorvete em companhia de um indivduo, amigo
dele, quando viu passar um carro, e dentro do carro duas senhoras que lhe
pareceram as senhoras de Mata-cavalos. Mendona fez um movimento de espanto que
no escapou ao amigo.

 Que foi? perguntou-lhe este.

 Nada; pareceu-me conhecer aquelas
senhoras. Viste-as, Andrade?

 No.

O carro entrara na Rua do Ouvidor; os
dois subiram pela mesma rua. Logo acima da Rua da Quitanda, parara o carro 
porta de uma loja, e as senhoras apearam-se e entraram. Mendona no as viu
sair; mas viu o carro e suspeitou que fosse o mesmo. Apressou o passo sem dizer
nada a Andrade, que fez o mesmo, movido por essa natural curiosidade que sente
um homem quando percebe algum segredo oculto.

Poucos instantes depois estavam  porta
da loja; Mendona verificou que eram as duas senhoras de Mata-cavalos. Entrou
afoito, com ar de quem ia comprar alguma coisa, e aproximou-se das senhoras. A
primeira que o conheceu foi a tia. Mendona cumprimentou-as respeitosamente.
Elas receberam o cumprimento com afabilidade. Ao p de Margarida estava Miss
Dollar, que, por esse admirvel faro que a natureza concedeu aos ces e aos
cortesos da fortuna, deu dois saltos de alegria apenas viu Mendona, chegando
a tocar-lhe o estmago com as patas dianteiras.

 Parece que Miss Dollar ficou com
boas recordaes suas, disse D. Antnia (assim se chamava a tia de Margarida).

 Creio que sim, respondeu Mendona
brincando com a galga e olhando para Margarida.

Justamente nesse momento entrou Andrade.

 S agora as reconheci, disse ele
dirigindo-se s senhoras.

Andrade apertou a mo das duas senhoras,
ou antes apertou a mo de Antnia e os dedos de Margarida.

Mendona no contava com este incidente,
e alegrou-se com ele por ter  mo o meio de tornar ntimas as relaes
superficiais que tinha com a famlia.

 Seria bom, disse ele a Andrade, que me
apresentasses a estas senhoras.

 Pois no as conheces? perguntou Andrade
estupefato.

 Conhece-nos sem nos conhecer, respondeu
sorrindo a velha tia; por ora quem o apresentou foi Miss Dollar.

Antnia referiu a Andrade a perda e o
achado da cadelinha.

 Pois, nesse caso, respondeu Andrade,
apresento-o j.

Feita a apresentao oficial, o caixeiro trouxe
a Margarida os objetos que ela havia comprado, e as duas senhoras despediram-se
dos rapazes pedindo-lhes que as fossem ver.

No citei nenhuma palavra de Margarida no
dilogo acima transcrito, porque, a falar verdade, a moa s proferiu duas
palavras a cada um dos rapazes.

 Passe bem, disse-lhes ela dando as
pontas dos dedos e saindo para entrar no carro.

Ficando ss, saram tambm os dois
rapazes e seguiram pela Rua do Ouvidor acima, ambos calados. Mendona pensava
em Margarida; Andrade pensava nos meios de entrar na confidncia de Mendona. A
vaidade tem mil formas de manifestar-se como o fabuloso Proteu. A vaidade de
Andrade era ser confidente dos outros; parecia-lhe assim obter da confiana
aquilo que s alcanava da indiscrio. No lhe foi difcil apanhar o segredo
de Mendona; antes de chegar  esquina da Rua dos Ourives j Andrade sabia de
tudo.

 Compreendes agora, disse Mendona, que
eu preciso ir  casa dela; tenho necessidade de v-la; quero ver se consigo...

Mendona estacou.

 Acaba! disse Andrade; se consegues ser
amado. Por que no? Mas desde j te digo que no ser fcil.

 Por qu?

 Margarida tem rejeitado cinco
casamentos.

 Naturalmente no amava os pretendentes,
disse Mendona com o ar de um gemetra que acha uma soluo.

 Amava apaixonadamente o primeiro,
respondeu Andrade, e no era indiferente ao ltimo.

 Houve naturalmente intriga.

 Tambm no. Admiras-te?  o que me
acontece.  uma rapariga esquisita. Se te achas com fora de ser o Colombo
daquele mundo, lana-te ao mar com a armada; mas toma cuidado com a revolta das
paixes, que so os ferozes marujos destas navegaes de descoberta.

Entusiasmado com esta aluso, histrica
debaixo da forma de alegoria, Andrade olhou para Mendona, que, desta vez
entregue ao pensamento da moa, no atendeu  frase do amigo. Andrade
contentou-se com o seu prprio sufrgio, e sorriu com o mesmo ar de satisfao
que deve ter um poeta quando escreve o ltimo verso de um poema.

CAPTULO V

Dias depois, Andrade e Mendona foram 
casa de Margarida, e l passaram meia hora em conversa cerimoniosa. As visitas
repetiram-se; eram porm mais freqentes da parte de Mendona que de Andrade.
D. Antnia mostrou-se mais familiar que Margarida; s depois de algum tempo
Margarida desceu do Olimpo do silncio em que habitualmente se encerrara.

Era difcil deixar de o fazer. Mendona,
conquanto no fosse dado  convivncia das salas, era um cavalheiro prprio
para entreter duas senhoras que pareciam mortalmente aborrecidas. O mdico
sabia piano e tocava agradavelmente; a sua conversa era animada; sabia esses
mil nadas que entretm geralmente as senhoras quando elas no gostam ou no
podem entrar no terreno elevado da arte, da histria e da filosofia. No foi
difcil ao rapaz estabelecer intimidade com a famlia.

Posteriormente s primeiras visitas,
soube Mendona, por via de Andrade, que Margarida era viva. Mendona no
reprimiu o gesto de espanto.

 Mas tu falaste de um modo que parecias
tratar de uma solteira, disse ele ao amigo.

  verdade que no me expliquei bem; os
casamentos recusados foram todos propostos depois da viuvez.

 H que tempo est viva?

 H trs anos.

 Tudo se explica, disse Mendona depois
de algum silncio; quer ficar fiel  sepultura;  uma Artemisa do sculo.

Andrade era ctico a respeito de
Artemisas; sorriu  observao do amigo, e, como este insistisse, replicou:

 Mas se eu j te disse que ela amava
apaixonadamente o primeiro pretendente e no era indiferente ao ltimo.

 Ento, no compreendo.

 Nem eu.

Mendona desde esse momento tratou de
cortejar assiduamente a viva; Margarida recebeu os primeiros olhares de
Mendona com um ar de to supremo desdm, que o rapaz esteve quase a abandonar
a empresa; mas, a viva, ao mesmo tempo que parecia recusar amor, no lhe
recusava estima, e tratava-o com a maior meiguice deste mundo sempre que ele a
olhava como toda a gente.

Amor repelido  amor multiplicado. Cada
repulsa de Margarida aumentava a paixo de Mendona. Nem j lhe mereciam
ateno o feroz Calgula, nem o elegante Jlio Csar. Os dois
escravos de Mendona comearam a notar a profunda diferena que havia entre os
hbitos de hoje e os de outro tempo. Supuseram logo que alguma coisa o
preocupava. Convenceram-se disso quando Mendona, entrando uma vez em casa, deu
com a ponta do botim no focinho de Cornlia, na ocasio em que esta
interessante cadelinha, me de dois Gracos rateiros, festejava a chegada
do doutor.

Andrade no foi insensvel aos
sofrimentos do amigo e procurou consol-lo. Toda a consolao nestes casos 
to desejada quanto intil; Mendona ouvia as palavras de Andrade e
confiava-lhe todas as suas penas. Andrade lembrou a Mendona um excelente meio
de fazer cessar a paixo: era ausentar-se da casa. A isto respondeu Mendona
citando La Rochefoucauld:

'A ausncia diminui as paixes
medocres e aumenta as grandes, como o vento apaga as velas e atia as
fogueiras.'

A citao teve o mrito de tapar a boca
de Andrade, que acreditava tanto na constncia como nas Artemisas, mas que no
queria contrariar a autoridade do moralista, nem a resoluo de Mendona.

CAPTULO VI

Correram assim trs meses. A corte de Mendona
no adiantava um passo; mas a viva nunca deixou de ser amvel com ele. Era
isto o que principalmente retinha o mdico aos ps da insensvel viva; no o
abandonava a esperana de venc-la.

Algum leitor conspcuo desejaria antes
que Mendona no fosse to assduo na casa de uma senhora exposta s calnias
do mundo. Pensou nisso o mdico e consolou a conscincia com a presena de um
indivduo, at aqui no nomeado por motivo de sua nulidade, e que era nada
menos que o filho da Sra. D. Antnia e a menina dos seus olhos. Chamava-se
Jorge esse rapaz, que gastava duzentos mil-ris por ms, sem os ganhar, graas
 longanimidade da me. Freqentava as casas dos cabeleireiros, onde gastava
mais tempo que uma romana da decadncia s mos das suas servas latinas. No
perdia representao de importncia no Alcazar; montava bons cavalos, e
enriquecia com despesas extraordinrias as algibeiras de algumas damas clebres
e de vrios parasitas obscuros. Calava luvas da letra E e botas n 36, duas
qualidades que lanava  cara de todos os seus amigos que no desciam do n 40
e da letra H. A presena deste gentil pimpolho, achava Mendona que salvava a
situao. Mendona queria dar esta satisfao ao mundo, isto ,  opinio dos
ociosos da cidade. Mas bastaria isso para tapar a boca aos ociosos?

Margarida parecia indiferente s
interpretaes do mundo como  assiduidade do rapaz. Seria ela to indiferente
a tudo mais neste mundo? No; amava a me, tinha um capricho por Miss Dollar,
gostava da boa msica, e lia romances. Vestia-se bem, sem ser rigorista em
matria de moda; no valsava; quando muito danava alguma quadrilha nos saraus
a que era convidada. No falava muito, mas exprimia-se bem. Tinha o gesto
gracioso e animado, mas sem pretenso nem faceirice.

Quando Mendona aparecia l, Margarida
recebia-o com visvel contentamento. O mdico iludia-se sempre, apesar de j
acostumado a essas manifestaes. Com efeito, Margarida gostava imenso da
presena do rapaz, mas no parecia dar-lhe uma importncia que lisonjeasse o
corao dele. Gostava de o ver como se gosta de ver um dia bonito, sem morrer
de amores pelo sol.

No era possvel sofrer por muito tempo a
posio em que se achava o mdico. Uma noite, por um esforo de que antes disso
se no julgaria capaz, Mendona dirigiu a Margarida esta pergunta indiscreta:

 Foi feliz com seu marido?

Margarida franziu a testa com espanto e
cravou os olhos nos do mdico, que pareciam continuar mudamente a pergunta.

 Fui, disse ela no fim de alguns
instantes.

Mendona no disse palavra; no contava
com aquela resposta. Confiava demais na intimidade que reinava entre ambos; e
queria descobrir por algum modo a causa da insensibilidade da viva. Falhou o
clculo; Margarida tornou-se sria durante algum tempo; a chegada de D. Antnia
salvou uma situao esquerda para Mendona. Pouco depois Margarida voltava s
boas, e a conversa tornou-se animada e ntima como sempre. A chegada de Jorge
levou a animao da conversa a propores maiores; D. Antnia, com olhos e ouvidos
de me, achava que o filho era o rapaz mais engraado deste mundo; mas a
verdade  que no havia em toda a cristandade esprito mais frvolo. A me
ria-se de tudo quanto o filho dizia; o filho enchia, s ele, a conversa,
referindo anedotas e reproduzindo ditos e sestros do Alcazar. Mendona via
todas essas feies do rapaz, e aturava-o com resignao evanglica.

A entrada de Jorge, animando a conversa,
acelerou as horas; s dez retirou-se o mdico, acompanhado pelo filho de D.
Antnia, que ia cear. Mendona recusou o convite que Jorge lhe fez, e
despediu-se dele na Rua do Conde, esquina da do Lavradio.

Nessa mesma noite resolveu Mendona dar
um golpe decisivo; resolveu escrever uma carta a Margarida. Era temerrio para
quem conhecesse o carter da viva; mas, com os precedentes j mencionados, era
loucura. Entretanto, no hesitou o mdico em empregar a carta, confiando que no
papel diria as coisas de muito melhor maneira que de boca. A carta foi escrita
com febril impacincia; no dia seguinte, logo depois de almoar, Mendona meteu
a carta dentro de um volume de George Sand, mandou-o pelo moleque a Margarida.

A viva rompeu a capa de papel que
embrulhava o volume, e ps o livro sobre a mesa da sala; meia hora depois
voltou e pegou no livro para ler. Apenas o abriu, caiu-lhe a carta aos ps.
Abriu-a e leu o seguinte:

Qualquer que seja a causa da sua
esquivana, respeito-a, no me insurjo contra ela. Mas, se no me  dado
insurgir-me, no me ser lcito queixar-me? H de ter compreendido o meu amor,
do mesmo modo que tenho compreendido a sua indiferena; mas, por maior que seja
essa indiferena est longe de ombrear com o amor profundo e imperioso que se
apossou de meu corao quando eu mais longe me cuidava destas paixes dos
primeiros anos. No lhe contarei as insnias e as lgrimas, as esperanas e os
desencantos, pginas tristes deste livro que o destino pe nas mos do homem
para que duas almas o leiam. -lhe indiferente isso.

No ouso interrog-la sobre a esquivana
que tem mostrado em relao a mim; mas por que motivo se estende essa
esquivana a tantos mais? Na idade das paixes frvidas, ornada pelo cu com
uma beleza rara, por que motivo quer esconder-se ao mundo e defraudar a
natureza e o corao de seus incontestveis direitos? Perdoe-me a audcia da
pergunta; acho-me diante de um enigma que o meu corao desejaria decifrar.
Penso s vezes que alguma grande dor a atormenta, e quisera ser o mdico do seu
corao; ambicionava, confesso, restaurar-lhe alguma iluso perdida. Parece que
no h ofensa nesta ambio.

Se, porm, essa esquivana denota
simplesmente um sentimento de orgulho legtimo, perdoe-me se ousei escrever-lhe
quando seus olhos expressamente mo proibiram. Rasgue a carta que no pode
valer-lhe uma recordao, nem representar uma arma.

A carta era toda de reflexo; a frase
fria e medida no exprimia o fogo do sentimento. No ter, porm, escapado ao
leitor a sinceridade e a simplicidade com que Mendona pedia uma explicao que
Margarida provavelmente no podia dar.

Quando Mendona disse a Andrade haver
escrito a Margarida, o amigo do mdico entrou a rir despregadamente.

 Fiz mal? perguntou Mendona.

 Estragaste tudo. Os outros pretendentes
comearam tambm por carta; foi justamente a certido de bito do amor.

 Pacincia, se acontecer o mesmo, disse
Mendona levantando os ombros com aparente indiferena; mas eu desejava que no
estivesses sempre a falar nos pretendentes; eu no sou pretendente no sentido
desses.

 No querias casar com ela?

 Sem dvida, se fosse possvel,
respondeu Mendona.

 Pois era justamente o que os outros
queriam; casar-te-ias e entrarias na mansa posse dos bens que lhe couberam em
partilha e que sobem a muito mais de cem contos. Meu rico, se falo em
pretendentes no  por te ofender, porque um dos quatro pretendentes despedidos
fui eu.

 Tu?

  verdade; mas descansa, no fui o
primeiro, nem ao menos o ltimo.

 Escreveste?

 Como os outros; como eles, no obtive
resposta; isto , obtive uma: devolveu-me a carta. Portanto, j que lhe
escreveste, espera o resto; vers se o que te digo  ou no exato. Ests
perdido, Mendona; fizeste muito mal.

Andrade tinha esta feio caracterstica
de no omitir nenhuma das cores sombrias de uma situao, com o pretexto de que
aos amigos se deve a verdade. Desenhado o quadro, despediu-se de Mendona, e
foi adiante.

Mendona foi para casa, onde passou a
noite em claro.

CAPTULO VII

Enganara-se Andrade; a viva respondeu  carta
do mdico. A carta dela limitou-se a isto:

Perdo-lhe tudo; no lhe perdoarei se me
escrever outra vez. A minha esquivana no tem nenhuma causa;  questo de
temperamento.

O sentido da carta era ainda mais
lacnico do que a expresso. Mendona leu-a muitas vezes, a ver se a
completava; mas foi trabalho perdido. Uma coisa concluiu ele logo; era que
havia coisa oculta que arredava Margarida do casamento; depois concluiu outra,
era que Margarida ainda lhe perdoaria segunda carta se lha escrevesse.

A primeira vez que Mendona foi a
Mata-cavalos achou-se embaraado sobre a maneira por que falaria a Margarida; a
viva tirou-o do embarao, tratando-o como se nada houvesse entre ambos.
Mendona no teve ocasio de aludir s cartas por causa da presena de D.
Antnia, mas estimou isso mesmo, porque no sabia o que lhe diria caso viessem
a ficar ss os dois.

Dias depois, Mendona escreveu segunda
carta  viva e mandou-lha pelo mesmo canal da outra. A carta foi-lhe devolvida
sem resposta. Mendona arrependeu-se de ter abusado da ordem da moa, e
resolveu, de uma vez por todas, no voltar  casa de Mata-cavalos. Nem tinha
nimo de l aparecer, nem julgava conveniente estar junto de uma pessoa a quem
amava sem esperana.

Ao cabo de um ms no tinha perdido uma
partcula sequer do sentimento que nutria pela viva. Amava-a com o mesmssimo
ardor. A ausncia, como ele pensara, aumentou-lhe o amor, como o vento ateia um
incndio. Debalde lia ou buscava distrair-se na vida agitada do Rio de Janeiro;
entrou a escrever um estudo sobre a teoria do ouvido, mas a pena
escapava-se-lhe para o corao, e saiu o escrito com uma mistura de nervos e
sentimentos. Estava ento na sua maior nomeada o romance de Renan sobre
a vida de Jesus; Mendona encheu o gabinete com todos os folhetos publicados de
parte a parte, e entrou a estudar profundamente o misterioso drama da Judia.
Fez quanto pde para absorver o esprito e esquecer a esquiva Margarida;
era-lhe impossvel.

Um dia de manh apareceu-lhe em casa o
filho de D. Antnia; traziam-no dois motivos: perguntar-lhe por que no ia a
Mata-cavalos, e mostrar-lhe umas calas novas. Mendona aprovou as calas, e
desculpou como pde a ausncia, dizendo que andava atarefado. Jorge no era
alma que compreendesse a verdade escondida por baixo de uma palavra
indiferente; vendo Mendona mergulhado no meio de uma chusma de livros e
folhetos, perguntou-lhe se estava estudando para ser deputado. Jorge cuidava
que se estudava para ser deputado!

 No, respondeu Mendona.

  verdade que a prima tambm l anda
com livros, e no creio que pretenda ir  cmara.

 Ah! sua prima?

 No imagina; no faz outra coisa.
Fecha-se no quarto, e passa os dias inteiros a ler.

Informado por Jorge, Mendona sups que
Margarida era nada menos que uma mulher de letras, alguma modesta poetisa, que
esquecia o amor dos homens nos braos das musas. A suposio era gratuita e
filha mesmo de um esprito cego pelo amor como o de Mendona. H vrias razes
para ler muito sem ter comrcio com as musas.

 Note que a prima nunca leu tanto; agora
 que lhe deu para isso, disse Jorge tirando da charuteira um magnfico havana
do valor de trs tostes, e oferecendo outro a Mendona. Fume isto, continuou
ele, fume e diga-me se h ningum como o Bernardo para ter charutos bons.

Gastos os charutos, Jorge despediu-se do
mdico, levando a promessa de que este iria  casa de D. Antnia o mais cedo
que pudesse.

No fim de quinze dias Mendona voltou a
Mata-cavalos.

Encontrou na sala Andrade e D. Antnia,
que o receberam com aleluias. Mendona parecia com efeito ressurgir de um
tmulo; tinha emagrecido e empalidecido. A melancolia dava-lhe ao rosto maior
expresso de abatimento. Alegou trabalhos extraordinrios, e entrou a conversar
alegremente como dantes. Mas essa alegria, como se compreende, era toda
forada. No fim de um quarto de hora a tristeza apossou-se-lhe outra vez do
rosto. Durante esse tempo, Margarida no apareceu na sala; Mendona, que at
ento no perguntara por ela, no sei por que razo, vendo que ela no
aparecia, perguntou se estava doente. D. Antnia respondeu-lhe que Margarida
estava um pouco incomodada.

O incmodo de Margarida durou uns trs
dias; era uma simples dor de cabea, que o primo atribuiu  aturada leitura.

No fim de alguns dias mais, D. Antnia
foi surpreendida com uma lembrana de Margarida; a viva queria ir viver na
roa algum tempo.

 Aborrece-te a cidade? perguntou a boa
velha.

 Alguma coisa, respondeu Margarida; queria
ir viver uns dois meses na roa.

D. Antnia no podia recusar nada 
sobrinha; concordou em ir para a roa; e comearam os preparativos. Mendona
soube da mudana no Rocio, andando a passear de noite; disse-lho Jorge na
ocasio de ir para o Alcazar. Para o rapaz era uma fortuna aquela mudana,
porque suprimia-lhe a nica obrigao que ainda tinha neste mundo, que era a de
ir jantar com a me.

No achou Mendona nada que admirar na
resoluo; as resolues de Margarida comeavam a parecer-lhe simplicidades.

Quando voltou para casa encontrou um
bilhete de D. Antnia concebido nestes termos:

Temos de ir para fora alguns meses;
espero que no nos deixe sem despedir-se de ns. A partida  sbado; e eu quero
incumbi-lo de uma coisa.

Mendona tomou ch, e disps-se a dormir.
No pde. Quis ler; estava incapaz disso. Era cedo; saiu. Insensivelmente
dirigiu os passos para Mata-cavalos. A casa de D. Antnia estava fechada e
silenciosa; evidentemente estavam j dormindo. Mendona passou adiante, e parou
junto da grade do jardim adjacente  casa. De fora podia ver a janela do quarto
de Margarida, pouco elevada, e dando para o jardim. Havia luz dentro;
naturalmente Margarida estava acordada. Mendona deu mais alguns passos; a
porta do jardim estava aberta. Mendona sentiu pulsar-lhe o corao com fora
desconhecida. Surgiu-lhe no esprito uma suspeita. No h corao confiante que
no tenha desfalecimentos destes; alm de que, seria errada a suspeita?
Mendona, entretanto, no tinha nenhum direito  viva; fora repelido
categoricamente. Se havia algum dever da parte dele era a retirada e o
silncio.

Mendona quis conservar-se no limite que
lhe estava marcado; a porta aberta do jardim podia ser esquecimento da parte
dos fmulos. O mdico refletiu bem que aquilo tudo era fortuito, e fazendo um
esforo afastou-se do lugar. Adiante parou e refletiu; havia um demnio que o
impelia por aquela porta dentro. Mendona voltou, e entrou com precauo.

Apenas dera alguns passos surgiu-lhe em
frente Miss Dollar latindo; parece que a galga sara de casa sem ser
pressentida; Mendona amimou-a e a cadelinha parece que reconheceu o mdico,
porque trocou os latidos em festas. Na parede do quarto de Margarida
desenhou-se uma sombra de mulher; era a viva que chegava  janela para ver a
causa do rudo. Mendona coseu-se como pde com uns arbustos que ficavam junto
da grade; no vendo ningum, Margarida voltou para dentro.

Passados alguns minutos, Mendona saiu do
lugar em que se achava e dirigiu-se para o lado da janela da viva.
Acompanhava-o Miss Dollar. Do jardim no podia olhar, ainda que fosse
mais alto, para o aposento da moa. A cadelinha apenas chegou quele ponto,
subiu ligeira uma escada de pedra que comunicava o jardim com a casa; a porta
do quarto de Margarida ficava justamente no corredor que se seguia  escada; a
porta estava aberta. O rapaz imitou a cadelinha; subiu os seis degraus de pedra
vagarosamente; quando ps o p no ltimo ouviu Miss Dollar pulando no
quarto e vindo latir  porta, como que avisando a Margarida de que se
aproximava um estranho.

Mendona deu mais um passo. Mas nesse
momento atravessou o jardim um escravo que acudia ao latido da cadelinha; o
escravo examinou o jardim, e no vendo ningum retirou-se. Margarida foi 
janela e perguntou o que era; o escravo explicou-lho e tranqilizou-a dizendo
que no havia ningum.

Justamente quando ela saa da janela
aparecia  porta a figura de Mendona. Margarida estremeceu por um abalo
nervoso; ficou mais plida do que era; depois, concentrando nos olhos toda a
soma de indignao que pode conter um corao, perguntou-lhe com voz trmula:

 Que quer aqui?

Foi nesse momento, e s ento, que
Mendona reconheceu toda a baixeza do seu procedimento, ou para falar mais
acertadamente, toda a alucinao do seu esprito. Pareceu-lhe ver em Margarida
a figura da sua conscincia, a exprobrar-lhe tamanha indignidade. O pobre rapaz
no procurou desculpar-se; a sua resposta foi singela e verdadeira.

 Sei que cometi um ato infame, disse
ele; no tinha razo para isso; estava louco; agora conheo a extenso do mal.
No lhe peo que me desculpe, D. Margarida; no mereo perdo; mereo desprezo;
adeus!

 Compreendo, senhor, disse Margarida;
quer obrigar-me pela fora do descrdito quando me no pode obrigar pelo
corao. No  de cavalheiro.

 Oh! isso... juro-lhe que no foi tal o
meu pensamento...

Margarida caiu numa cadeira parecendo
chorar. Mendona deu um passo para entrar, visto que at ento no sara da
porta; Margarida levantou os olhos cobertos de lgrimas, e com um gesto
imperioso mostrou-lhe que sasse.

Mendona obedeceu; nem um nem outro
dormiram nessa noite. Ambos curvavam-se ao peso da vergonha: mas, por honra de
Mendona, a dele era maior que a dela; e a dor de uma no ombreava com o
remorso de outro.

CAPTULO
VIII

No dia seguinte estava Mendona em casa
fumando charutos sobre charutos, recurso das grandes ocasies, quando parou 
porta dele um carro, apeando-se pouco depois a me de Jorge. A visita pareceu
de mau agouro ao mdico. Mas apenas a velha entrou, dissipou-lhe o receio.

 Creio, disse D. Antnia, que a minha
idade permite visitar um homem solteiro.

Mendona procurou sorrir ouvindo este
gracejo; mas no pde. Convidou a boa senhora a sentar-se, e sentou-se ele
tambm esperando que ela lhe explicasse a causa da visita.

 Escrevi-lhe ontem, disse ela, para que
fosse ver-me hoje; preferi vir c, receando que por qualquer motivo no fosse a
Mata-cavalos.

 Queria ento incumbir-me?

 De coisa nenhuma, respondeu a velha
sorrindo; incumbir disse-lhe eu, como diria qualquer outra coisa indiferente;
quero inform-lo.

 Ah! de qu?

 Sabe quem ficou hoje de cama?

 D. Margarida?

  verdade; amanheceu um pouco doente;
diz que passou a noite mal. Eu creio que sei a razo, acrescentou D. Antnia
rindo maliciosamente para Mendona.

 Qual ser ento a razo? perguntou o
mdico.

 Pois no percebe?

 No.

 Margarida ama-o.

Mendona levantou-se da cadeira como por
uma mola. A declarao da tia da viva era to inesperada que o rapaz cuidou
estar sonhando.

 Ama-o, repetiu D. Antnia.

 No creio, respondeu Mendona depois de
algum silncio; h de ser engano seu.

 Engano! disse a velha.

D. Antnia contou a Mendona que, curiosa
por saber a causa das viglias de Margarida, descobrira no quarto dela um dirio
de impresses, escrito por ela,  imitao de no sei quantas heronas de
romances; a lera a verdade que lhe acabava de dizer.

 Mas se me ama, observou Mendona
sentindo entrar-lhe nalma um mundo de esperanas, se me ama, por que recusa o
meu corao?

 O dirio explica isso mesmo; eu
lhe digo. Margarida foi infeliz no casamento; o marido teve unicamente em vista
gozar da riqueza dela; Margarida adquiriu a certeza de que nunca ser amada por
si, mas pelos cabedais que possui; atribui o seu amor  cobia. Est
convencido?

Mendona comeou a protestar.

  intil, disse D. Antnia, eu creio na
sinceridade do seu afeto; j de h muito percebi isso mesmo; mas como convencer
um corao desconfiado?

 No sei.

 Nem eu, disse a velha, mas para isso 
que eu vim c; peo-lhe que veja se pode fazer com que a minha Margarida torne
a ser feliz, se lhe influi a crena no amor que lhe tem.

 Acho que  impossvel...

Mendona lembrou-se de contar a D.
Antnia a cena da vspera; mas arrependeu-se a tempo.

D. Antnia saiu pouco depois.

A situao de Mendona, ao passo que se
tornara mais clara, estava mais difcil que dantes. Era possvel tentar alguma
coisa antes da cena do quarto; mas depois, achava Mendona impossvel conseguir
nada.

A doena de Margarida durou dois dias, no
fim dos quais levantou-se a viva um pouco abatida, e a primeira coisa que fez
foi escrever a Mendona pedindo-lhe que fosse l  casa.

Mendona admirou-se bastante do convite,
e obedeceu de pronto.

 Depois do que se deu h trs dias,
disse-lhe Margarida, compreende o senhor que eu no posso ficar debaixo da ao
da maledicncia... Diz que me ama; pois bem, o nosso casamento  inevitvel.

Inevitvel! amargou esta
palavra ao mdico, que alis no podia recusar uma reparao. Lembrava-se ao
mesmo tempo que era amado; e conquanto a idia lhe sorrisse ao esprito, outra
vinha dissipar esse instantneo prazer, e era a suspeita que Margarida nutria a
seu respeito.

 Estou s suas ordens, respondeu ele.

Admirou-se D. Antnia da presteza do
casamento quando Margarida lho anunciou nesse mesmo dia. Sups que fosse
milagre do rapaz. Pelo tempo adiante reparou que os noivos tinham cara mais de
enterro que de casamento. Interrogou a sobrinha a esse respeito; obteve uma
resposta evasiva.

Foi modesta e reservada a cerimnia do
casamento. Andrade serviu de padrinho, D. Antnia de madrinha; Jorge falou no
Alcazar a um padre, seu amigo, para celebrar o ato.

D. Antnia quis que os noivos ficassem
residindo em casa com ela. Quando Mendona se achou a ss com Margarida,
disse-lhe:

 Casei-me para salvar-lhe a reputao;
no quero obrigar pela fatalidade das coisas um corao que me no pertence.
Ter-me- por seu amigo; at amanh.

Saiu Mendona depois deste speech,
deixando Margarida suspensa entre o conceito que fazia dele e a impresso das
suas palavras agora.

No havia posio mais singular do que a
destes noivos separados por uma quimera. O mais belo dia da vida tornava-se
para eles um dia de desgraa e de solido; a formalidade do casamento foi
simplesmente o preldio do mais completo divrcio. Menos ceticismo da parte de
Margarida, mais cavalheirismo da parte do rapaz, teriam poupado o desenlace
sombrio da comdia do corao. Vale mais imaginar que descrever as torturas
daquela primeira noite de noivado.

Mas aquilo que o esprito do homem no
vence, h de venc-lo o tempo, a quem cabe final razo. O tempo convenceu
Margarida de que a sua suspeita era gratuita; e, coincidindo com ele o corao,
veio a tornar-se efetivo o casamento apenas celebrado.

Andrade ignorou estas coisas; cada vez
que encontrava Mendona chamava-lhe Colombo do amor; tinha Andrade a mania de
todo o sujeito a quem as idias ocorrem trimestralmente; apenas pilhada alguma
de jeito repetia-a at a saciedade.

Os dois esposos so ainda noivos e
prometem s-lo at a morte. Andrade meteu-se na diplomacia e promete ser um dos
luzeiros da nossa representao internacional. Jorge continua a ser um bom
pndego; D. Antnia prepara-se para despedir-se do mundo.

Quanto a Miss Dollar, causa
indireta de todos estes acontecimentos, saindo um dia  rua foi pisada por um
carro; faleceu pouco depois. Margarida no pde reter algumas lgrimas pela
nobre cadelinha; foi o corpo enterrado na chcara,  sombra de uma laranjeira;
cobre a sepultura uma lpide com esta simples inscrio:

A Miss Dollar

Lus Soares

NDICE

Captulo Primeiro

Captulo II

Captulo iii

Captulo iv

Captulo v

Captulo vI

CAPTULO PRIMEIRO

Trocar o dia pela noite, dizia Lus
Soares,  restaurar o imprio da natureza corrigindo a obra da sociedade. O
calor do sol est dizendo aos homens que vo descansar e dormir, ao passo que a
frescura relativa da noite  a verdadeira estao em que se deve viver. Livre
em todas as minhas aes, no quero sujeitar-me  lei absurda que a sociedade
me impe: velarei de noite, dormirei de dia.

Contrariamente a vrios ministrios,
Soares cumpria este programa com um escrpulo digno de uma grande conscincia. A
aurora para ele era o crepsculo, o crepsculo era a aurora. Dormia doze horas
consecutivas durante o dia, quer dizer das seis da manh s seis da tarde.
Almoava s sete e jantava s duas da madrugada. No ceava. A sua ceia
limitava-se a uma xcara de chocolate que o criado lhe dava s cinco horas da
manh quando ele entrava para casa. Soares engolia o chocolate, fumava dois
charutos, fazia alguns trocadilhos com o criado, lia uma pgina de algum
romance, e deitava-se.

No lia jornais. Achava que um jornal era
a coisa mais intil deste mundo, depois da Cmara dos Deputados, das obras dos
poetas e das missas. No quer isto dizer que Soares fosse ateu em religio,
poltica e poesia. No. Soares era apenas indiferente. Olhava para todas as
grandes coisas com a mesma cara com que via uma mulher feia. Podia vir a ser um
grande perverso; at ento era apenas uma grande inutilidade.

Graas a uma boa fortuna que lhe deixara
o pai, Soares podia gozar a vida que levava, esquivando-se a todo o gnero de
trabalho e entregue somente aos instintos da sua natureza e aos caprichos do
seu corao. Corao  talvez demais. Era duvidoso que Soares o tivesse. Ele
mesmo o dizia. Quando alguma dama lhe pedia que ele a amasse, Soares respondia:

 Minha rica pequena, eu nasci com a
grande vantagem de no ter coisa nenhuma dentro do peito nem dentro da cabea.
Isso que chamam juzo e sentimento so para mim verdadeiros mistrios. No os
compreendo porque os no sinto.

Soares acrescentava que a fortuna
suplantara a natureza deitando-lhe no bero em que nasceu uma boa soma de
contos de ris. Mas esquecia que a fortuna, apesar de generosa,  exigente, e
quer da parte dos seus afilhados algum esforo prprio. A fortuna no 
Danaide. Quando v que um tonel esgota a gua que se lhe pe dentro vai levar
os seus cntaros a outra parte. Soares no pensava nisto. Cuidava que os seus
bens eram renascentes como as cabeas da hidra antiga. Gastava s mos largas;
e os contos de ris, to dificilmente acumulados por seu pai, escapavam-se-lhes
das mos como pssaros sequiosos por gozarem do ar livre.

Achou-se, portanto, pobre quando menos o
esperava. Um dia de manh, quer dizer s ave-marias, os olhos de Soares viram
escritas as palavras fatdicas do festim babilnico. Era uma carta que o criado
lhe entregara dizendo que o banqueiro de Soares a havia deixado  meia-noite. O
criado falava como o amo vivia: ao meio-dia chamava meia-noite.

 J te disse, respondeu Soares, que eu
s recebo cartas dos meus amigos, ou ento...

 De alguma rapariga, bem sei.  por isso
que lhe no tenho dado as cartas que o banqueiro tem trazido h um ms. Hoje,
porm, o homem disse que era indispensvel que lhe eu desse esta.

Soares sentou-se na cama, e perguntou ao
criado meio alegre e meio zangado:

 Ento tu s criado dele ou meu?

 Meu amo, o banqueiro disse que se trata
de um grande perigo.

 Que perigo?

 No sei.

 Deixa ver a carta.

O criado entregou-lhe a carta.

Soares abriu-a e leu-a duas vezes. Dizia
a carta que o rapaz no possua mais que seis contos de ris. Para Soares seis
contos de ris eram menos que seis vintns.

Pela primeira vez na sua vida Soares
sentiu uma grande comoo. A idia de no ter dinheiro nunca lhe havia acudido
ao esprito; no imaginava que um dia se achasse na posio de qualquer outro
homem que precisava de trabalhar.

Almoou sem vontade e saiu. Foi ao
Alcazar. Os amigos acharam-no triste; perguntaram-lhe se era alguma mgoa de
amor. Soares respondeu que estava doente. As Las da localidade acharam que era
de bom gosto ficarem tristes tambm. A consternao foi geral.

Um dos seus amigos, Jos Pires, props um
passeio a Botafogo para distrair as melancolias de Soares. O rapaz aceitou. Mas
o passeio a Botafogo era to comum que no podia distra-lo. Lembraram-se de ir
ao Corcovado, idia que foi aceita e executada imediatamente.

Mas que h que possa distrair um rapaz
nas condies de Soares? A viagem ao Corcovado apenas lhe produziu uma grande
fadiga, alis til, porque, na volta, dormiu o rapaz a sono solto.

Quando acordou mandou dizer ao Pires que
viesse falar-lhe imediatamente. Da a uma hora parava um carro  porta: era o
Pires que chegava, mas acompanhado de uma rapariga morena que respondia ao nome
de Vitria. Entraram os dois pela sala de Soares com a franqueza e o estrpito
naturais entre pessoas de famlia.

 No est doente? perguntou Vitria ao
dono da casa.

 No, respondeu este; mas por que veio
voc?

  boa! disse Jos Pires; veio porque 
a minha xcara inseparvel... Querias falar-me em particular?

 Queria.

 Pois falemos a em qualquer canto;
Vitria fica na sala vendo os lbuns.

 Nada, interrompeu a moa; nesse caso
vou-me embora.  melhor; s imponho uma condio:  que ambos ho de ir depois
l para casa; temos ceata.

 Valeu! disse Pires.

Vitria saiu; os dois rapazes ficaram
ss.

Pires era o tipo do bisbilhoteiro e leviano.
Em lhe cheirando novidade preparava-se para instruir-se de tudo. Lisonjeava-o a
confiana de Soares, e adivinhava que o rapaz ia comunicar-lhe alguma coisa
importante. Para isso assumiu um ar condigno com a situao. Sentou-se
comodamente em uma cadeira de braos; ps o casto da bengala na boca e comeou
o ataque com estas palavras:

 Estamos ss; que me queres?

Soares confiou-lhe tudo; leu-lhe a carta
do banqueiro; mostrou-lhe em toda a nudez a sua misria. Disse-lhe que naquela
situao no via soluo possvel, e confessou ingenuamente que a idia do
suicdio o havia alimentado durante longas horas.

 Um suicdio! exclamou Pires; ests
doido.

 Doido! respondeu Soares; entretanto no
vejo outra sada neste beco. Demais,  apenas meio suicdio, porque a pobreza
j  meia morte.

 Convenho que a pobreza no  coisa
agradvel, e at acho...

Pires interrompeu-se; uma idia sbita
atravessara-lhe o esprito: a idia de que Soares acabasse a conferncia por
pedir-lhe dinheiro. Pires tinha um preceito na sua vida: era no emprestar
dinheiro aos amigos. No se empresta sangue, dizia ele.

Soares no reparou na frase cortada do
amigo, e disse:

 Viver pobre depois de ter sido rico...
 impossvel.

 Nesse caso que me queres tu? perguntou
Pires, a quem pareceu que era bom atacar o touro de frente.

 Um conselho.

 Intil conselho, pois que j tens uma
idia fixa.

 Talvez. Entretanto confesso que no se
deixa a vida com facilidade, e m ou boa, sempre custa morrer. Por outro lado, ostentar
a minha misria diante das pessoas que me viram rico  uma humilhao que eu
no aceito. Que farias tu no meu lugar?

 Homem, respondeu Pires, h muitos
meios...

 Venha um.

 Primeiro meio. Vai para Nova Iorque e
procura uma fortuna.

 No me convm; nesse caso fico no Rio
de Janeiro.

 Segundo meio. Arranja um casamento
rico.

  bom de dizer. Onde est esse
casamento?

 Procura. No tens uma prima que gosta
de ti?

 Creio que j no gosta; e demais no 
rica; tem apenas trinta contos; despesa de um ano.

  um bom princpio de vida.

 Nada; outro meio.

 Terceiro meio, e o melhor. Vai  casa
de teu tio, angaria-lhe a estima, dize que ests arrependido da vida passada,
aceita um emprego, enfim v se te constituis seu herdeiro universal.

Soares no respondeu; a idia pareceu-lhe
boa.

 Aposto que te agrada o terceiro meio?
perguntou Pires rindo.

 No  mau. Aceito; e bem sei que 
difcil e demorado; mas eu no tenho muitos  escolha.

 Ainda bem, disse Pires levantando-se.
Agora o que se quer  algum juzo. H de custar-te o sacrifcio, mas lembra-te
que  o meio nico de teres dentro de pouco tempo uma fortuna. Teu tio  um
homem achacado de molstias; qualquer dia bate a bota. Aproveita o tempo. E
agora vamos  ceia da Vitria.

 No vou, disse Soares; quero
acostumar-me desde j a viver vida nova.

 Bem; adeus.

 Olha; confiei-te isto a ti s;
guarda-me segredo.

 Sou um tmulo, respondeu Pires descendo
a escada.

Mas no dia seguinte j os rapazes e
raparigas sabiam que Soares ia fazer-se anacoreta... por no ter dinheiro
nenhum. O prprio Soares reconheceu isto no rosto dos amigos. Todos pareciam
dizer-lhe:  pena! que pndego vamos ns perder!

Pires nunca mais o visitou.

CAPTULO II

O tio de Soares chamava-se o Major Lus
da Cunha Vilela, e era com efeito um homem j velho e adoentado. Contudo no se
podia dizer que morreria cedo. O Major Vilela observava um rigoroso regmen que
lhe ia entretendo a vida. Tinha uns bons sessenta anos. Era um velho alegre e
severo ao mesmo tempo. Gostava de rir, mas era implacvel com os maus costumes.
Constitucional por necessidade, era no fundo de sua alma absolutista. Chorava
pela sociedade antiga; criticava constantemente a nova. Enfim foi o ltimo
homem que abandonou a cabeleira de rabicho.

Vivia o Major Vilela em Catumbi,
acompanhado de sua sobrinha Adelaide, e mais uma velha parenta. A sua vida era
patriarcal. Importando-se pouco ou nada com o que ia por fora, o major
entregava-se todo ao cuidado de sua casa, aonde poucos amigos e algumas
famlias da vizinhana o iam ver, e passar as noites com ele. O major
conservava sempre a mesma alegria, ainda nas ocasies em que o reumatismo o
prostrava. Os reumticos dificilmente acreditaro nisto; mas eu posso afirmar
que era verdade.

Foi num dia de manh, felizmente um dia
em que o major no sentia o menor achaque, e ria e brincava com as duas
parentas, que Soares apareceu em Catumbi  porta do tio.

Quando o major recebeu o carto com o
nome do sobrinho, sups que era alguma caoada. Podia contar com todos em casa,
menos o sobrinho. Fazia j dois anos que o no via, e entre a ltima e a
penltima vez tinha mediado ano e meio. Mas o moleque disse-lhe to seriamente
que o nhonh Lus estava na sala de espera, que o velho acabou por acreditar.

 Que te parece, Adelaide?

A moa no respondeu.

O velho foi  sala de visitas.

Soares tinha pensado no meio de aparecer
ao tio. Ajoelhar-se era dramtico demais; cair-lhe nos braos exigia certo
impulso ntimo que ele no tinha; alm de que, Soares vexava-se de ter ou
fingir uma comoo. Lembrou-se de comear uma conversao alheia ao fim que o
levava l, e acabar por confessar-se disposto a arrepiar carreira. Mas este
meio tinha o inconveniente de fazer preceder a reconciliao por um sermo, que
o rapaz dispensava. Ainda no se resolvera a aceitar um dos muitos meios que
lhe vieram  idia, quando o major apareceu  porta da sala.

O major parou  porta sem dizer palavra e
lanou sobre o sobrinho um olhar severo e interrogador.

Soares hesitou um instante; mas como a
situao podia prolongar-se sem benefcio seu, o rapaz seguiu um movimento
natural: foi ao tio e estendeu-lhe a mo.

 Meu tio, disse ele, no precisa dizer
mais nada; o seu olhar diz-me tudo. Fui pecador e arrependo-me. Aqui estou.

O major estendeu-lhe a mo, que o rapaz
beijou com o respeito de que era suscetvel.

Depois encaminhou-se para uma cadeira e
sentou-se; o rapaz ficou de p.

 Se o teu arrependimento  sincero,
abro-te a minha porta e o meu corao. Se no  sincero podes ir embora; h
muito tempo que no freqento a casa da pera: no gosto de comediantes.

Soares protestou que era sincero. Disse
que fora dissipado e doido, mas que aos trinta anos era justo ter juzo.
Reconhecia agora que o tio sempre tivera razo. Sups ao princpio que eram
simples rabugices de velho, e mais nada; mas no era natural esta leviandade num
rapaz educado no vcio? Felizmente corrigia-se a tempo. O que ele agora queria
era entrar em bom viver, e comeava por aceitar um emprego pblico que o
obrigasse a trabalhar e fazer-se srio. Tratava-se de ganhar uma posio.

Ouvindo o discurso de que fiz o extrato
acima, o major procurava adivinhar o fundo do pensamento de Soares. Seria ele
sincero? O velho concluiu que o sobrinho falava com a alma nas mos. A sua
iluso chegou ao ponto de ver-lhe uma lgrima nos olhos, lgrima que no
apareceu, nem mesmo fingida.

Quando Soares acabou, o major
estendeu-lhe a mo e apertou a que o rapaz lhe estendeu tambm.

 Creio, Lus. Ainda bem que te
arrependeste a tempo. Isso que vivias no era vida nem morte; a vida  mais
digna e a morte mais tranqila do que a existncia que malbarataste. Entras
agora em casa como um filho prdigo. Ters o melhor lugar  mesa. Esta famlia
 a mesma famlia.

O major continuou por este tom; Soares
ouviu a p quedo o discurso do tio. Dizia consigo que era a amostra da pena que
ia sofrer, e um grande desconto dos seus pecados.

O major acabou levando o rapaz para
dentro, onde os esperava o almoo.

Na sala de jantar estavam Adelaide e a
velha parenta. A Sra. Antnia de Moura Vilela recebeu Soares com grandes
exclamaes que envergonharam sinceramente o rapaz. Quanto a Adelaide, apenas o
cumprimentou sem olhar para ele; Soares retribuiu o cumprimento.

O major reparou na frieza; mas parece que
sabia alguma coisa, porque apenas deu uma risadinha amarela, coisa que lhe era
peculiar.

Sentaram-se  mesa, e o almoo correu
entre as pilhrias do major, as recriminaes da Sra. Antnia, as explicaes
do rapaz e o silncio de Adelaide. Quando o almoo acabou, o major disse ao
sobrinho que fumasse, concesso enorme que o rapaz a custo aceitou. As duas
senhoras saram; ficaram os dois  mesa.

 Ests ento disposto a trabalhar?

 Estou, meu tio.

 Bem; vou ver se te arranjo um emprego.
Que emprego preferes?

 O que quiser, meu tio, contanto que eu
trabalhe.

 Bem. Levars amanh, uma carta minha a
um dos ministros. Deus queira que possas obter o emprego sem dificuldade. Quero
ver-te trabalhador e srio; quero ver-te homem. As dissipaes no produzem
nada, a no serem dvidas e desgostos... Tens dvidas?

 Nenhuma, respondeu Soares.

Soares mentia. Tinha uma dvida de
alfaiate, relativamente pequena; queria pag-la sem que o tio soubesse.

No dia seguinte o major escreveu a carta
prometida, que o sobrinho levou ao ministro; e to feliz foi, que da a um ms
estava empregado em uma secretaria com um bom ordenado.

Cumpre fazer justia ao rapaz. O
sacrifcio que fez de transformar os seus hbitos da vida foi enorme, e a
julg-lo pelos seus antecedentes, ningum o julgara capaz de tal. Mas o desejo
de perpetuar uma vida de dissipao pode explicar a mudana e o sacrifcio.
Aquilo na existncia de Soares no passava de um parntesis mais ou menos
extenso. Almejava por fech-lo e continuar o perodo como havia comeado, isto
, vivendo com Aspsia e pagodeando com Alcibades.

O tio no desconfiava de nada; mas temia
que o rapaz fosse novamente tentado  fuga, ou porque o seduzisse a lembrana
das dissipaes antigas, ou porque o aborrecesse a monotonia e a fadiga do
trabalho. Com o fim de impedir o desastre, lembrou-se de inspirar-lhe ambio
poltica. Pensava o major que a poltica seria um remdio decisivo para aquele
doente, como se no fosse conhecido que os louros de Lovelace e os de Turgot andam
muita vez na mesma cabea.

Soares no desanimou o major. Disse que
era natural acabar a sua existncia na poltica, e chegou a dizer que algumas
vezes sonhara com uma cadeira no parlamento.

 Pois eu verei se te posso arranjar
isto, respondeu o tio. O que  preciso  que estudes a cincia da poltica, a
histria do nosso parlamento e do nosso governo; e principalmente  preciso que
continues a ser o que s hoje: um rapaz srio.

Se bem o dizia o major, melhor o fazia
Soares, que desde ento meteu-se com os livros e lia com afinco as discusses
das cmaras.

Soares no morava com o tio, mas passava
l todo o tempo que lhe sobrava do trabalho, e voltava para casa depois do ch,
que era patriarcal, e bem diferente das ceatas do antigo tempo.

No afirmo que entre as duas fases da
existncia de Lus Soares no houvesse algum elo de unio, e que o emigrante
das terras de Gnido no fizesse de quando em quando excurses  ptria. Em todo
o caso essas excurses eram to secretas que ningum sabia delas, nem talvez os
habitantes das referidas terras, com exceo dos poucos escolhidos para
receberem o expatriado. O caso era singular, porque naquele pas no se
reconhece o cidado naturalizado estrangeiro, ao contrrio da Inglaterra, que
no d aos sditos da rainha o direito de escolherem outra ptria.

Soares encontrava-se de quando em quando
com Pires. O confidente do convertido manifestava a sua amizade antiga
oferecendo-lhe um charuto de Havana e contando-lhe algumas boas fortunas
havidas nas campanhas do amor, em que o alarve supunha ser consumado general.

Havia j cinco meses que o sobrinho do
Major Vilela se achava empregado, e ainda os chefes da repartio no tinham
tido um s motivo de queixa contra ele. A dedicao era digna de melhor causa.
Exteriormente via-se em Lus Soares um monge; raspando-se um pouco achava-se o
diabo.

Ora, o diabo viu de longe uma
conquista...

CAPTULO III

A prima Adelaide tinha vinte e quatro
anos, e a sua beleza, no pleno desenvolvimento da sua mocidade, tinha em si o
condo de fazer morrer de amores. Era alta e bem proporcionada; tinha uma
cabea modelada pelo tipo antigo; a testa era espaosa e alta, os olhos
rasgados e negros, o nariz levemente aquilino. Quem a contemplava durante
alguns momentos sentia que ela tinha todas as energias, a das paixes e a da
vontade.

H de lembrar-se o leitor do frio
cumprimento trocado entre Adelaide e seu primo; tambm se h de lembrar que
Soares disse ao amigo Pires ter sido amado por sua prima. Ligam-se estas duas
coisas. A frieza de Adelaide resultava de uma lembrana que era dolorosa para a
moa; Adelaide amara o primo, no com um simples amor de primos, que em geral
resulta da convivncia e no de uma sbita atrao. Amara-o com todo o vigor e
calor de sua alma; mas j ento o rapaz iniciava os seus passos em outras
regies e ficou indiferente aos afetos da moa. Um amigo que sabia do segredo
perguntou-lhe um dia por que razo no se casava com Adelaide, ao que o rapaz
respondeu friamente:

 Quem tem a minha fortuna no se casa;
mas se se casa  sempre com quem tenha mais. Os bens de Adelaide so a quinta
parte dos meus; para ela  negcio da China; para mim  um mau negcio.

O amigo que ouvira esta resposta no
deixou de dar uma prova da sua afeio ao rapaz indo contar tudo  moa. O
golpe foi tremendo, no tanto pela certeza que lhe dava de no ser amada, como
pela circunstncia de nem ao menos ficar-lhe o direito de estima. A confisso
de Soares era um corpo de delito. O confidente oficioso esperava talvez colher
os despojos da derrota; mas Adelaide, to depressa ouviu a delao como
desprezou o delator.

O incidente no passou disto.

Quando Soares voltou  casa do tio, a
moa achou-se em dolorosa situao; era obrigada a conviver com um homem ao
qual nem podia dar apreo. Pela sua parte, o rapaz tambm se achava acanhado,
no porque lhe doessem as palavras que dissera um dia, mas por causa do tio,
que ignorava tudo. No ignorava; o moo  que o supunha. O major soube da
paixo de Adelaide e soube tambm da repulsa que tivera no corao do rapaz.
Talvez no soubesse das palavras textuais repetidas  moa pelo amigo de
Soares; mas se no conhecia o texto, conhecia o esprito; sabia que, pelo
motivo de ser amado, o rapaz entrara a aborrecer a prima, e que esta, vendo-se
repelida, entrara a aborrecer o rapaz. O major sups at durante algum tempo
que a ausncia de Soares tinha por motivo a presena da moa em casa.

Adelaide era filha de um irmo do major,
homem muito rico e igualmente excntrico, que morrera havia dez anos deixando a
moa entregue aos cuidados do irmo. Como o pai de Adelaide fizera muitas
viagens, parece que gastou nelas a maior parte da sua fortuna. Quando morreu
apenas coube a Adelaide, filha nica, cerca de trinta contos, que o tio
conservou intactos para serem o dote da pupila.

Soares houve-se como pde na singular
situao em que se achava. No conversava com a prima; apenas trocava com ela
as palavras estritamente necessrias para no chamar a ateno do tio. A moa
fazia o mesmo.

Mas quem pode ter mo ao corao? A prima
de Lus Soares sentiu que pouco a pouco lhe ia renascendo o antigo afeto.
Procurou combat-lo sinceramente; mas no se impede o crescimento de uma planta
seno arrancando-lhe as razes. As razes existiam ainda. Apesar dos esforos
da moa o amor veio pouco a pouco invadindo o lugar do dio, e se at ento o
suplcio era grande, agora era enorme. Travara-se uma luta entre o orgulho e o
amor. A moa sofreu consigo; no articulou uma palavra.

Lus Soares reparava que quando os seus
dedos tocavam os da prima, esta experimentava uma grande emoo: corava e
empalidecia. Era um grande navegador aquele rapaz nos mares do amor:
conhecia-lhe a calma e a tempestade. Convenceu-se de que a prima o amava outra
vez. A descoberta no o alegrou; pelo contrrio, foi-lhe motivo de grande
irritao. Receava que o tio, descobrindo o sentimento da sobrinha, propusesse
o casamento ao rapaz; e recus-lo no seria comprometer no futuro a esperada
herana? A herana sem o casamento era o ideal do moo. 'Dar-me asas,
pensava ele, atando-me os ps,  o mesmo que condenar-me  priso.  o destino
do papagaio domstico; no aspiro a t-lo.'

Realizaram-se as previses do rapaz. O
major descobriu a causa da tristeza da moa e resolveu pr termo quela
situao propondo ao sobrinho o casamento.

Soares no podia recusar abertamente sem
comprometer o edifcio da sua fortuna.

 Este casamento, disse-lhe o tio,  complemento
da minha felicidade. De um s lance reno duas pessoas que tanto estimo, e
morro tranqilo sem levar nenhum pesar para o outro mundo. Estou que aceitars.

 Aceito, meu tio; mas observo que o
casamento assenta no amor, e eu no amo minha prima.

 Bem; hs de am-la; casa-te primeiro...

 No desejo exp-la a uma desiluso.

 Qual desiluso! disse o major sorrindo.
Gosto de ouvir-te falar essa linguagem potica, mas casamento no  poesia. 
verdade que  bom que duas pessoas antes de se casarem se tenham j alguma
estima mtua. Isso creio que tens. L fogos ardentes, meu rico sobrinho, so
coisas que ficam bem em verso, e mesmo em prosa; mas na vida, que no  prosa
nem verso, o casamento apenas exige certa conformidade de gnio, de educao e
de estima.

 Meu tio sabe que eu no me recuso a uma
ordem sua.

 Ordem, no! No te ordeno, proponho.
Dizes que no amas tua prima; pois bem, faze por isso, e daqui a algum tempo
casem-se que me daro gosto. O que eu quero  que seja cedo, porque no estou
longe de dar  casca.

O rapaz disse que sim. Adiou a
dificuldade no podendo resolv-la. O major ficou satisfeito com o arranjo e
consolou a sobrinha com a promessa de que podia casar-se um dia com o primo.
Era a primeira vez que o velho tocava em semelhante assunto, e Adelaide no
dissimulou o seu espanto, espanto que lisonjeou profundamente a perspiccia do
major.

 Ah! tu pensas, disse ele, que eu por
ser velho j perdi os olhos do corao? Vejo tudo, Adelaide; vejo aquilo mesmo
que se quer esconder.

A moa no pde reter algumas lgrimas, e
como o velho a consolasse dando-lhe esperanas, ela respondeu abanando a
cabea:

 Esperanas, nenhuma!

 Descansa em mim! disse o major.

Conquanto a dedicao do tio fosse toda espontnea
e filha do amor que votava  sobrinha, esta compreendeu que semelhante
interveno podia fazer supor ao primo que ela esmolava os afetos do seu
corao.

Aqui falou o orgulho da mulher, que
preferia o sofrimento  humilhao. Quando ela exps estas objees ao tio, o
major sorriu-se afavelmente e procurou acalmar a suscetibilidade da moa.

Passaram-se alguns dias sem mais
incidente; o rapaz estava no gozo da dilao que lhe dera o tio. Adelaide
readquiriu o seu ar frio e indiferente. Soares compreendia o motivo, e quela
manifestao do orgulho respondia com um sorriso. Duas vezes notou Adelaide
essa expresso de desdm da parte do primo. Que mais precisava para reconhecer
que o rapaz sentia por ela a mesma indiferena de outro tempo! Acrescia que
sempre que os dois se encontravam ss, Soares era o primeiro que se afastava
dela. Era o mesmo homem.

'No me ama, no me amar
nunca!' dizia a moa consigo.

CAPTULO IV

Um dia de manh o major Vilela recebeu a
seguinte carta:

Meu valente major.

Cheguei da Bahia hoje mesmo, e l irei de
tarde para ver-te e abraar-te. Prepara um jantar. Creio que me no hs de
receber como qualquer indivduo. No esqueas o vatap.

Teu amigo,
Anselmo.

 Bravo! disse o major. Temos c o Anselmo;
prima Antnia, mande fazer um bom vatap.

O Anselmo que chegara da Bahia chamava-se
Anselmo Barroso de Vasconcelos. Era um fazendeiro rico, e veterano da
independncia. Com os seus setenta e oito anos ainda se mostrava rijo e capaz
de grandes feitos. Tinha sido ntimo amigo do pai de Adelaide, que o apresentou
ao major, vindo a ficar amigo deste depois que o outro morrera. Anselmo
acompanhou o amigo at os seus ltimos instantes; e chorou a perda como se fora
seu prprio irmo. As lgrimas cimentaram a amizade entre ele e o major.

De tarde apareceu Anselmo galhofeiro e
vivo como se comeasse para ele uma nova mocidade. Abraou a todos; deu um
beijo em Adelaide, a quem felicitou pelo desenvolvimento das suas graas.

 No se ria de mim, disse-lhe ele, eu
fui o maior amigo de seu pai. Pobre amigo! morreu nos meus braos.

Soares, que sofria com a monotonia da
vida que levava em casa do tio, alegrou-se com a presena do galhofeiro ancio,
que era um verdadeiro fogo de artifcio. Anselmo  que pareceu no simpatizar
com o sobrinho do major. Quando o major ouviu isto, disse:

 Sinto muito, porque Soares  um rapaz
srio.

 Creio que  srio demais. Rapaz que no
ri...

No sei que incidente interrompeu a frase
do fazendeiro.

Depois do jantar Anselmo disse ao major:

 Quantos so amanh?

 Quinze.

 De que ms?

  boa! de dezembro.

 Bem; amanh 15 de dezembro preciso ter
uma conferncia contigo e os teus parentes. Se o vapor se demora um dia em
caminho pregava-me uma boa pea.

No dia seguinte verificou-se a
conferncia pedida por Anselmo. Estavam presentes o major, Soares, Adelaide e
D. Antnia, nicos parentes do finado.

 Faz hoje dez anos que faleceu o pai
desta menina, disse Anselmo apontando para Adelaide. Como sabem, o Dr. Bento
Varela foi o meu melhor amigo, e eu tenho conscincia de haver correspondido 
sua afeio at aos ltimos instantes. Sabem que ele era um gnio excntrico;
toda a sua vida foi uma grande originalidade. Ideava vinte projetos, qual mais
grandioso, qual mais impossvel, sem chegar ao cabo de nenhum, porque o seu
esprito criador to depressa compunha uma coisa como entrava a planear outra.

  verdade, interrompeu o major.

 O Bento morreu nos meus braos, e como
derradeira prova da sua amizade confiou-me um papel com a declarao de que eu
s o abrisse em presena dos seus parentes dez anos depois de sua morte. No
caso de eu morrer os meus herdeiros assumiriam essa obrigao; em falta deles,
o major, a Sra. D. Adelaide, enfim qualquer pessoa que por lao de sangue
estivesse ligada a ele. Enfim, se ningum houvesse na classe mencionada, ficava
incumbido um tabelio. Tudo isto havia eu declarado em testamento, que vou
reformar. O papel a que me refiro, tenho aqui no bolso.

Houve um movimento de curiosidade.

Anselmo tirou do bolso uma carta fechada
com lacre preto.

  este, disse ele. Est intacto. No
conheo o texto; mas posso mais ou menos saber o que est dentro por
circunstncias que vou referir.

Redobrou a ateno geral.

 Antes de morrer, continuou Anselmo, o
meu querido amigo entregou-me uma parte da sua fortuna, quero dizer a maior
parte, porque a menina recebeu apenas trinta contos. Eu recebi dele trezentos
contos, que guardei at hoje intactos, e que devo restituir segundo as
indicaes desta carta.

A um movimento de espanto em todos
seguiu-se um movimento de ansiedade. Qual seria a vontade misteriosa do pai de
Adelaide? D. Antnia lembrou-se que em rapariga fora namorada do defunto, e por
um momento lisonjeou-se com a idia de que o velho manaco se houvesse lembrado
dela s portas da morte.

 Nisto reconheo eu o mano Bento, disse
o major tomando uma pitada; era o homem dos mistrios, das surpresas e das
idias extravagantes, seja dito sem agravo aos seus pecados, se  que os
teve...

Anselmo tinha aberto a carta. Todos
prestaram ouvidos. O veterano leu o seguinte:

Meu bom e estimadssimo Anselmo.

Quero que me prestes o ltimo favor. Tens
contigo a maior parte da minha fortuna, e eu diria a melhor se tivesse de
aludir  minha querida filha Adelaide. Guarda esses trezentos contos at daqui
a dez anos, e ao terminar o prazo, l esta carta diante dos meus parentes.

Se nessa poca a minha filha Adelaide for
viva e casada entrega-lhe a fortuna. Se no estiver casada, entrega-lha tambm,
mas com uma condio:  que se case com o sobrinho Lus Soares, filho de minha
irm Lusa; quero-lhe muito, e apesar de ser rico, desejo que entre na posse da
fortuna com minha filha. No caso em que esta se recuse a esta condio, fica tu
com a fortuna toda.

Quando Anselmo acabou de ler esta carta
seguiu-se um silncio de surpresa geral, de que partilhava o prprio veterano,
alheio at ento ao contedo da carta.

Soares tinha os olhos em Adelaide; esta
tinha-os no cho.

Como o silncio se prolongasse, Anselmo
resolveu romp-lo.

 Ignorava, como todos, disse ele, o que
esta carta contm; felizmente chega ela a tempo de se realizar a ltima vontade
do meu finado amigo.

 Sem dvida nenhuma, disse o major.

Ouvindo isto, a moa levantou
insensivelmente os olhos para o primo, e os dela encontraram-se com os dele. Os
dele transbordavam de contentamento e ternura; a moa fitou-os durante alguns
instantes. Um sorriso, j no zombeteiro, passou pelos lbios do rapaz. A moa
sorriu com tamanho desdm s zumbaias de um corteso.

Anselmo levantou-se.

 Agora que esto cientes disto, disse
ele aos dois primos, espero que resolvam, e como o resultado no pode ser duvidoso,
desde j os felicito. Entretanto, ho de dar-me licena, que tenho de ir a
outras partes.

Com a sada de Anselmo dispersara-se a
reunio. Adelaide foi para o seu quarto com a velha parenta. O tio e o sobrinho
ficaram na sala.

 Lus, disse o primeiro, s o homem mais
feliz do mundo.

 Parece-lhe, meu tio? disse o moo
procurando disfarar a sua alegria.

 s. Tens uma moa que te ama
loucamente. De repente cai-lhe nas mos uma fortuna inesperada; e essa fortuna
s pode hav-la com a condio de se casar contigo. At os mortos trabalham a
teu favor.

 Afirmo-lhe, meu tio, que a fortuna no
pesa nada nestes casos, e se eu assentar em casar com a prima ser por outro
motivo.

 Bem sei que a riqueza no  essencial; no
. Mas enfim vale alguma coisa.  melhor ter trezentos contos que trinta;
sempre  mais uma cifra. Contudo no te aconselho que te cases com ela se no
tiveres alguma afeio. Nota que eu no me refiro a essas paixes de que me
falaste. Casar mal, apesar da riqueza,  sempre casar mal.

 Estou convencido disto, meu tio. Por
isso ainda no dei a minha resposta, nem dou por ora. Se eu vier a afeioar-me
 prima estou pronto a entrar na posse dessa inesperada riqueza.

Como o leitor ter adivinhado, a resoluo
do casamento estava assentada no esprito de Soares. Em vez de esperar a morte
do tio, parecia-lhe melhor entrar desde logo na posse de um excelente peclio,
o que se lhe afigurava tanto mais fcil, quanto que era a voz do tmulo que o
impunha.

Soares contava tambm com a profunda
venerao de Adelaide por seu pai. Isto, ligado ao amor que a rapariga sentia
por ele, devia produzir o desejado efeito.

Nessa noite o rapaz dormiu pouco. Sonhou
com o Oriente. Pintou-lhe a imaginao um harm recendente das melhores
essncias da Arbia, forrado o cho com tapetes da Prsia; sobre moles divs
ostentavam-se as mais perfeitas belezas do mundo. Uma circassiana danava no
meio do salo ao som de um pandeiro de marfim. Mas um furioso eunuco,
precipitando-se na sala com o iatag desembainhado, enterrou-o todo no peito de
Soares, que acordou com o pesadelo, e no pde mais conciliar o sono.

Levantou-se mais cedo e foi passear at
chegar a hora do almoo e da repartio.

CAPTULO V

O plano de Lus Soares estava feito.

Tratava-se de abater as armas pouco a
pouco, simulando-se vencido diante da influncia de Adelaide. A circunstncia
da riqueza tornava necessria toda a discrio. A transio devia ser lenta.
Cumpria ser diplomata.

Os leitores tero visto que, apesar de
certa argcia da parte de Soares, no tinha ele a perfeita compreenso das
coisas, e por outro lado o seu carter era indeciso e vrio.

Hesitara em casar com Adelaide quando o
tio lhe falou nisso, quando era certo que viria a obter mais tarde a fortuna do
major. Dizia ento que no tinha vocao de papagaio. A situao agora era a
mesma; aceitava uma fortuna mediante uma priso.  verdade que se esta
resoluo era contrria  primeira, podia ter por causa o cansao que lhe ia
produzindo a vida que levava. Alm de que, desta vez, a riqueza no se fazia
esperar; era entregue logo depois do consrcio.

'Trezentos contos, pensava o rapaz,
 quanto basta para eu ser mais do que fui. O que no ho de dizer os
outros!'

Antevendo uma felicidade que era certa
para ele, Soares comeou o assdio da praa, alis praa rendida.

J o rapaz procurava os olhos da prima,
j os encontrava, j lhes pedia aquilo que recusara at ento, o amor da moa.
Quando,  mesa, as suas mos se encontravam, Soares tinha o cuidado de demorar
o contato, e se a moa retirava a sua mo, o rapaz nem por isso desanimava.
Quando se encontrava a ss com ela, no fugia como outrora, antes lhe dirigia
alguma palavra, a que Adelaide respondia com fria polidez.

'Quer vender o peixe caro',
pensava Soares.

Uma vez atreveu-se a mais. Adelaide
tocava piano quando ele entrou sem que ela o visse. Quando a moa acabou,
Soares estava por trs dela.

 Que lindo! disse o rapaz; deixe-me
beijar-lhe essas mos inspiradas.

A moa olhou sria para ele, pegou no
leno que pusera sobre o piano, e saiu sem dizer palavra.

Esta cena mostrou a Soares toda a
dificuldade da empresa; mas o rapaz confiava em si, no porque se reconhecesse
capaz de grandes energias, mas por espcie de esperana na sua boa estrela.

  difcil subir a corrente, disse ele,
mas sobe-se. No se fazem Alexandres na conquista de praas desarmadas.

Contudo, as desiluses iam-se sucedendo,
e o rapaz, se o no alentasse a idia da riqueza, teria abatido as armas.

Um dia lembrou-se de escrever-lhe uma
carta. Lembrou-se de que era difcil expor-lhe de viva voz tudo quanto sentia;
mas que uma carta, por muito dio que ela lhe tivesse, sempre seria lida.

Adelaide devolveu a carta pelo moleque da
casa que lha havia entregue.

A segunda carta teve a mesma sorte.
Quando mandou a terceira, o moleque no a quis receber.

Lus Soares teve um instante de
desengano. Indiferente  moa, j comeava a odi-la; se casasse com ela era
provvel que a tratasse como inimigo mortal.

A situao tornava-se ridcula para ele;
ou antes, j o era h muito, mas Soares s ento o compreendeu. Para escapar ao
ridculo, resolveu dar um golpe final, mas grande. Aproveitou a primeira
ocasio que pde, e fez uma declarao positiva  moa, cheia de splicas, de
suspiros, talvez de lgrimas. Confessou os seus erros; reconheceu que no a
havia compreendido; mas arrependera-se e confessava tudo. A influncia dela
acabara por abat-lo.

 Abat-lo! disse ela; no compreendo. A
que influncia alude?

 Bem sabe;  influncia da sua beleza,
do seu amor... No suponha que lhe estou mentindo. Sinto-me hoje to apaixonado
que era capaz de cometer um crime!

 Um crime?

 No  crime o suicdio? De que me
serviria a vida sem o seu amor? Vamos, fale!

A moa olhou para ele durante alguns
instantes sem dizer palavra.

O rapaz ajoelhou-se.

 Ou seja a morte, ou seja a felicidade,
disse ele, quero receb-la de joelhos.

Adelaide sorriu e soltou lentamente estas
palavras:

 Trezentos contos!  muito dinheiro para
comprar um miservel.

E deu-lhe as costas.

Soares ficou petrificado. Durante alguns
minutos conservou-se na mesma posio, com os olhos fitos na moa que se
afastava lentamente. O rapaz dobrava-se ao peso da humilhao. No previra to
cruel desforra da parte de Adelaide. Nem uma palavra de dio, nem um indcio de
raiva; apenas um calmo desdm, um desprezo tranqilo e soberano. Soares sofrera
muito quando perdeu a fortuna; mas agora que o seu orgulho foi humilhado, a sua
dor foi infinitamente maior.

Pobre rapaz!

A moa foi para dentro. Parece que
contava com aquela cena; porque entrando em casa, foi logo procurar o tio, e
declarou-lhe que, apesar de quanto venerava a memria do pai, no podia
obedecer-lhe, e desistia do casamento.

 Mas no o amas tu? perguntou-lhe o
major.

 Amei-o.

 Amas a outro?

 No.

 Ento explica-te.

Adelaide exps francamente o procedimento
de Soares desde que ali entrara, a mudana que fizera, a sua ambio, a cena do
jardim. O major ouviu atentamente a moa, procurou desculpar o sobrinho, mas no
fundo ele acreditava que Soares era um mau carter.

Este, depois que pde refrear a sua clera,
entrou em casa e foi despedir-se do tio at o dia seguinte.

Pretextou que tinha um negcio urgente.

CAPTULO VI

Adelaide contou miudamente ao amigo de
seu pai os sucessos que a obrigavam a no preencher a condio da carta pstuma
confiada a Anselmo. Em conseqncia desta recusa, a fortuna devia ficar com
Anselmo; a moa contentava-se com o que tinha.

No se deu Anselmo por vencido, e antes
de aceitar a recusa foi ver se sondava o esprito de Lus Soares.

Quando o sobrinho do major viu entrar por
casa o fazendeiro suspeitou que alguma coisa houvesse a respeito do casamento.
Anselmo era perspicaz; de modo que, apesar da aparncia de vtima com que
Soares lhe aparecera, compreendeu ele que Adelaide tinha razo.

Assim pois tudo estava acabado. Anselmo
disps-se a partir para a Bahia, e assim o declarou  famlia do major.

Nas vsperas de partir achavam-se todos
juntos na sala de visitas, quando Anselmo soltou estas palavras:

 Major, est ficando melhor e forte; eu
creio que uma viagem  Europa lhe far bem. Esta moa tambm gostar de ver a
Europa, e creio que a Sra. D. Antnia, apesar da idade, l querer ir. Pela
minha parte sacrifico a Bahia e vou tambm. Aprovam o conselho?

 Homem, disse o major,  preciso
pensar...

 Qual pensar! Se pensarem no
embarcaro. Que diz a menina?

 Eu obedeo ao tio, respondeu Adelaide.

 Alm de que, disse Anselmo, agora que
D. Adelaide est de posse de uma grande fortuna, h de querer apreciar o que h
de bonito nos pases estrangeiros a fim de poder melhor avaliar o que h no
nosso...

 Sim, disse o major; mas voc fala de
grande fortuna...

 Trezentos contos.

 So seus.

 Meus! Ento sou algum ratoneiro? Que me
importa a mim a fantasia de um generoso amigo? O dinheiro  desta menina, sua
legtima herdeira, e no meu, que alis tenho bastante.

 Isso  bonito, Anselmo!

 Mas o que no seria se no fosse isto?

A viagem  Europa ficou assentada.

Lus Soares ouviu a conversa toda sem
dizer palavra; mas a idia de que talvez pudesse ir com o tio sorriu-lhe ao
esprito. No dia seguinte teve um desengano cruel. Disse-lhe o major que, antes
de partir, o deixaria recomendado ao ministro.

Soares procurou ainda ver se alcanava
seguir com a famlia. Era simples cobia na fortuna do tio, desejo de ver novas
terras, ou impulso de vingana contra a prima? Era tudo isso, talvez.

 ltima hora foi-se a derradeira
esperana. A famlia partiu sem ele.

Abandonado, pobre, tendo por nica
perspectiva o trabalho dirio, sem esperanas no futuro, e alm do mais,
humilhado e ferido em seu amor-prprio, Soares tomou a triste resoluo dos
covardes.

Um dia de noite o criado ouviu no quarto
dele um tiro; correu, achou um cadver.

Pires soube na rua da notcia, e correu 
casa de Vitria, que encontrou no toucador.

 Sabes de uma coisa? perguntou ele.

 No. Que ?

 O Soares matou-se.

 Quando?

 Neste momento.

 Coitado!  srio?

  srio. Vais sair?

 Vou ao Alcazar.

 Canta-se hoje Barbe-Bleue, no
?

 .

 Pois eu tambm vou.

E entrou a cantarolar a cano de Barbe-Bleue.

Lus Soares no teve outra orao fnebre
dos seus amigos mais ntimos.

A MULHER DE PRETO

NDICE

Captulo Primeiro

Captulo II

Captulo iii

Captulo iv

Captulo v

Captulo vI

Captulo vII

Captulo VIII

Captulo IX

Captulo X

Captulo XI

CAPTULO PRIMEIRO

A primeira vez que o Dr. Estvo Soares
falou ao deputado Meneses foi no Teatro Lrico no tempo da memorvel luta entre
lagrustas e chartonistas. Um amigo comum os apresentou ao outro.
No fim da noite separaram-se oferecendo cada um deles os seus servios e
trocando os respectivos cartes de visita.

S dois meses depois encontraram-se outra
vez.

Estvo Soares teve de ir  casa de um
ministro de Estado para saber de uns papis relativos a um parente da
provncia, e a encontrou o deputado Meneses, que acabava de ter uma
conferncia poltica.

Houve sincero prazer em ambos
encontrando-se pela segunda vez; e Meneses arrancou de Estvo a promessa de
que iria  casa dele da a poucos dias.

O ministro depressa despachou o jovem
mdico.

Chegando ao corredor, Estvo foi
surpreendido com uma tremenda btega d'gua, que nesse momento caa, e comeava
a alagar a rua.

O rapaz olhou a um e outro lado a ver se
passava algum veculo vazio, mas procurou inutilmente; todos que passavam iam
ocupados.

Apenas  porta estava um coup
vazio  espera de algum, que o rapaz sups ser o deputado.

Da a alguns minutos desce com efeito o
representante da nao, e admirou-se de ver o mdico ainda  porta.

 Que quer? disse-lhe Estvo; a chuva
impediu-me de sair; aqui fiquei a ver se passa um tlburi.

  natural que no passe, e nesse caso
ofereo-lhe um lugar no meu coup. Venha.

 Perdo; mas  um incmodo...

 Ora, incmodo!  um prazer. Vou
deix-lo em casa. Onde mora?

 Rua da Misericrdia n...

 Bem, suba.

Estvo hesitou um pouco; mas no podia
deixar de subir sem ofender o digno homem que de to boa vontade lhe fazia um
obsquio.

Subiram.

Mas em vez de mandar o cocheiro para a
Rua da Misericrdia, o deputado gritou:

 Joo, para casa!

E entrou.

Estvo olhou para ele admirado.

 J sei, disse-lhe Meneses; admira-se de
ver que faltei  minha palavra; mas eu desejo apenas que fique conhecendo a
minha casa a fim de l voltar quanto antes.

O coup rolava j pela rua fora
debaixo de uma chuva torrencial. Meneses foi o primeiro que rompeu o silncio
de alguns minutos, dizendo ao jovem amigo:

 Espero que o romance da nossa amizade
no termine no primeiro captulo.

Estvo, que j reparara nas maneiras
solcitas do deputado, ficou inteiramente pasmado quando lhe ouviu falar no
romance da amizade. A razo era simples. O amigo que os havia apresentado no
Teatro Lrico disse no dia seguinte:

 Meneses  um misantropo, e um ctico;
no cr em nada, nem estima ningum. Na poltica como na sociedade faz um papel
puramente negativo.

Esta era a impresso com que Estvo,
apesar da simpatia que o arrastava, falou a segunda vez a Meneses, e
admirava-se de tudo, das maneiras, das palavras, e do tom de afeto que elas
pareciam revelar.

 linguagem do deputado o jovem mdico
respondeu com igual franqueza.

 Por que acabaremos no primeiro
captulo? perguntou ele; um amigo no  coisa que se despreze, acolhe-se como
um presente dos deuses.

 Dos deuses! disse Meneses rindo; j
vejo que  pago.

 Alguma coisa,  verdade; mas no bom
sentido, respondeu Estvo rindo tambm. Minha vida assemelha-se um pouco  de
Ulisses...

 Tem ao menos uma taca, sua ptria, e
uma Penlope, sua esposa.

 Nem uma nem outra.

 Ento entender-nos-emos.

Dizendo isto o deputado voltou a cara
para o outro lado, vendo a chuva que caa na vidraa da portinhola.

Decorreram dois ou trs minutos, durante
os quais Estvo teve tempo de contemplar a seu gosto o companheiro de viagem.

Meneses voltou-se e entrou em novo
assunto.

Quando o coup entrou na Rua do
Lavradio, Meneses disse ao mdico:

 Moro nesta rua; estamos perto de casa.
Promete-me que h de vir ver-me algumas vezes?

 Amanh mesmo.

 Bem. Como vai a sua clnica?

 Apenas comeo, disse Estvo; trabalho
pouco; mas espero fazer alguma coisa.

 O seu companheiro, na noite em que mo
apresentou, disse-me que o senhor  moo de muito merecimento.

 Tenho vontade de fazer alguma coisa.

Da a dez minutos parava o coup 
porta de uma casa da Rua do Lavradio.

Apearam-se os dois e subiram.

Meneses mostrou a Estvo o seu gabinete
de trabalho, onde havia duas longas estantes de livros.

  a minha famlia, disse o deputado
mostrando os livros. Histria, filosofia, poesia... e alguns livros de
poltica. Aqui estudo e trabalho. Quando c vier  aqui que o hei de receber.

Estvo prometeu voltar no dia seguinte,
e desceu para entrar no coup que esperava por ele, e que o levou  Rua
da Misericrdia.

Entrando em casa Estvo dizia consigo:

'Onde est a misantropia daquele
homem? As maneiras de misantropo so mais rudes do que as dele; salvo se ele,
mais feliz do que Digenes, achou em mim o homem que procurava.'

CAPTULO II

Estvo era o tipo do rapaz srio. Tinha
talento, ambio e vontade de saber, trs armas poderosas nas mos de um homem
que tenha conscincia de si. Desde os dezesseis anos a sua vida foi um estudo
constante, aturado e profundo. Destinado ao curso mdico, Estvo entrou na
academia um pouco forado, no queria desobedecer ao pai. A sua vocao era
toda para as matemticas. Que importa? disse ele ao saber da resoluo paterna;
estudarei a medicina e a matemtica. Com efeito teve tempo para uma e outra
coisa; teve tempo ainda para estudar a literatura, e as principais obras da
antigidade e contemporneas eram-lhe to familiares como os tratados de
operaes e de higiene.

Para estudar tanto, foi-lhe preciso
sacrificar uma parte da sade. Estvo aos vinte e quatro anos adquirira uma
magreza, que no era a dos dezesseis; tinha a tez plida e a cabea pendia-lhe
um pouco para a frente pelo longo hbito da leitura. Mas esses vestgios de uma
longa aplicao intelectual no lhe alteraram a regularidade e harmonia das
feies, nem os olhos perderam nos livros o brilho e a expresso. Era alm
disso naturalmente elegante, no digo enfeitado, que  coisa diferente: era
elegante nas maneiras, na atitude, no sorriso, no trajo, tudo mesclado de uma
certa severidade que era o cunho do seu carter. Podia-se notar-lhe muitas
infraes ao cdigo da moda; ningum poderia dizer que ele faltasse nunca s
boas regras do gentleman.

Perdera os pais aos vinte anos, mas
ficara-lhe bastante juzo para continuar sozinho a viagem do mundo. O estudo
serviu-lhe de refgio e bordo. No sabia nada do que era o amor. Ocupara-se
tanto com a cabea que esquecera-se de que tinha um corao dentro do peito.
No se infira daqui que Estvo fosse puramente um positivista. Pelo contrrio,
a alma dele possua ainda em toda a plenitude da graa e da fora as duas asas
que a natureza lhe dera. No raras vezes rompia ela do crcere da carne para ir
correr os espaos do cu, em busca de no sei que ideal mal definido, obscuro,
incerto. Quando voltava desses xtases, Estvo curava-se deles enterrando-se
nos volumes  cata de uma verdade cientfica. Newton era-lhe o antdoto de
Goethe.

Alm disso, Estvo tinha idias
singulares. Havia um padre, amigo dele, rapaz de trinta anos, da escola de
Fnelon, que entrava com Telmaco na ilha de Calipso. Ora, o padre dizia muitas
vezes a Estvo que s uma coisa lhe faltava para ser completo: era casar-se.

 Quando voc tiver, dizia-lhe, uma
mulher amada e amante ao p de si, ser um homem feliz e completo. Dividir
ento o tempo entre as duas coisas mais elevadas que a natureza deu ao homem, a
inteligncia e o corao. Nesse dia quero eu mesmo cas-lo...

 Padre Lus, respondia Estvo, faa-me
ento o servio completo: traga-me a mulher e a bno.

O padre sorria-se ao ouvir a resposta do
mdico, e como o sorriso parecia a Estvo uma nova pergunta, o mdico
continuava:

 Se encontrar uma mulher to completa
como eu exijo, afirmo-lhe que me casarei. Dir que as obras humanas so
imperfeitas, e eu no contestarei, Padre Lus; mas nesse caso deixe-me caminhar
s com as minhas imperfeies.

Daqui engendrava-se sempre uma discusso,
que se animava e crescia at o ponto em que Estvo conclua por este modo:

 Padre Lus, uma menina que deixa as
bonecas para ir decorar mecanicamente alguns livros mal escolhidos; que
interrompe uma lio para ouvir contar uma cena de namoro; que em matria de
arte s conhece os figurinos parisienses; que deixa as calas para entrar no
baile, e que antes de suspirar por um homem, examina-lhe a correo da gravata,
e o apertado do botim; Padre Lus, esta menina pode vir a ser um esplndido
ornamento de salo e at uma fecunda me de famlia, mas nunca ser uma mulher.

Esta sentena de Estvo tinha o defeito
de certas regras absolutas. Por isso, o padre dizia-lhe sempre:

 Tem voc razo; mas eu no lhe digo que
case com a regra; procure a exceo que h de encontrar e leve-a ao altar, onde
eu estarei para os unir.

Tais eram os sentimentos de Estvo em relao
ao amor e  mulher. A natureza dera-lhe em parte esses sentimentos; mas em
parte adquiriu-os ele nos livros. Exigia a perfeio intelectual e moral de uma
Helosa; e partia da exceo para estabelecer uma regra. Era intolerante para
os erros veniais. No os reconhecia como tais. No h erro venial, dizia ele,
em matria de costumes e de amor.

Contribura para esta rigidez de nimo o
espetculo da prpria famlia de Estvo. At aos vinte anos foi ele testemunha
do que era a santidade do amor mantido pela virtude domstica. Sua me, que
morrera com trinta e oito anos, amou o marido at os ltimos dias, e poucos
meses lhe sobreviveu. Estvo soube que fora ardente e entusistico o amor de
seus pais, na estao do noivado, durante a manh conjugal; conheceu-o assim
por tradio; mas na tarde conjugal a que ele assistiu viu o amor calmo,
solcito e confiante, cheio de dedicao e respeito, praticado como um culto;
sem recriminaes nem pesares, e to profundo como no primeiro dia. Os pais de
Estvo morreram amados e felizes na tranqila serenidade do dever.

No nimo de Estvo, o amor que funda a
famlia devia ser aquilo ou no seria nada. Era justia; mas a intolerncia de
Estvo comeava na convico que ele tinha de que com a dele morrera a ltima
famlia, e fora com ela a derradeira tradio do amor. Que era preciso para
derrubar todo este sistema, ainda que momentneo? Uma coisa pequenssima: um
sorriso e dois olhos.

Mas como esses dois olhos no apareciam,
Estvo entregava-se na maior parte do tempo aos seus estudos cientficos,
empregando as horas vagas em algumas distraes que o no prendiam por muito
tempo.

Morava s; tinha um escravo, da mesma
idade que ele, e cria da casa do pai, - mais irmo do que escravo, na dedicao
e no afeto. Recebia alguns amigos, a quem visitava de quando em quando de
quando, entre os quais inclumos o jovem Padre Lus, a quem Estevo chamava -
Plato de sotaina.

Naturalmente bom e afetuoso, generoso e
cavalheiresco, sem dios nem rancores, entusiasta por todas as coisas boas e
verdadeiras, tal era o Dr. Estevo Soares, aos vinte e quatro anos de idade.

Do seu retrato fsico j dissemos alguma
coisa. Bastar acrescentar que tinha uma bela cabea, coberta de bastos cabelos
castanhos, dois olhos da mesma cor, vivos e observadores; a palidez do rosto
fazia realar o bigode naturalmente encaracolado. Era alto e tinha mos
admirveis.

CAPTULO III

Estvo Soares visitou Meneses no dia
seguinte.

O deputado esperava-o, e recebeu-o como
se fosse um amigo velho. Estvo marcara a hora da visita, que impossibilitava
a presena de Meneses na Cmara; mas o deputado importou-se pouco com isso: no
foi  Cmara. Mas teve a delicadeza de o no dizer a Estevo.

Meneses estava no gabinete quando o
criado anunciou-lhe a chegada do mdico. Foi receb-lo  porta.

 Pontual como um rei, disse-lhe
alegremente.

 Era dever. Lembro-lhe que no me
esqueci.

 E agradeo-lho.

Sentaram-se os dois.

 Agradeo-lhe porque eu receava sobretudo
que me houvesse compreendido mal; e que os impulsos da minha simpatia no
merecessem da sua parte nenhuma considerao...

Estvo ia protestar.

 Perdo, continuou Meneses, bem vejo que
me enganei, e  por isso que lhe agradeo. Eu no sou rapaz; tenho 47 anos; e
para a sua idade as relaes de um homem como eu j no tm valor.

 A velhice, quando  respeitvel, deve
ser respeitada; e amada quando  amvel. Mas V. Excia. no  velho; tem os
cabelos apenas grisalhos: pode-se dizer que est na segunda mocidade.

 Parece-lhe isso...

 Parece e .

 Seja como for, disse Meneses, a verdade
 que podemos ser amigos. Quantos anos tem?

 Olhe l, podia ser meu filho. Tem seus
pais vivos?

 Morreram h quatro anos.

 Lembra-me haver dito que era
solteiro...

  verdade.

 De maneira que os seus cuidados so
todos para a cincia?

  a minha esposa.

 Sim, a sua esposa intelectual; mas essa
no basta a um homem como o senhor... Enfim, isso  com o tempo; est ainda
moo.

Durante este dilogo, Estevo contemplava
e observava Meneses, em cujo rosto batia a claridade que entrava por uma das
janelas. Era uma cabea severa, cheia de cabelos j grisalhos, que lhe caam em
gracioso desalinho. Tinha os olhos negros e um pouco amortecidos; adivinhava-se
porm que deviam ter sido vivos e ardentes. As suas tambm grisalhas eram
como as de lorde Palmerston, segundo dizem as gravuras. No tinha rugas
de velhice; tinha uma ruga na testa, entre as sobrancelhas, indcio de
concentrao de esprito, e no vestgio do tempo. A testa era alta, o queixo e
as mas do rosto um pouco salientes. Adivinhava-se que devia ter sido formoso
no tempo da primeira mocidade; e antevia-se j uma velhice imponente e augusta.
Sorria de quando em quando; e o sorriso, embora aquele rosto no fosse de um
ancio, produzia uma impresso singular; parecia um raio de lua no meio de uma
velha runa.  que o sorriso era amvel, mas no era alegre.

Todo aquele conjunto impressionava e
atraa; Estvo sentia-se cada vez mais arrastado para aquele homem, que o
procurava, e lhe estendia a mo.

A conversa continuou no tom afetuoso com
que comeara; a primeira entrevista da amizade  o oposto da primeira
entrevista do amor; nesta a mudez  a grande eloqncia; naquela inspira-se e
ganha-se a confiana, pela exposio franca dos sentimentos e das idias.

No se falou de poltica. Estvo aludiu
de passagem s funes de Meneses, mas foi um verdadeiro incidente a que o
deputado no prestou ateno.

No fim de uma hora, Estvo levantou-se
para sair; tinha de ir ver um doente.

 O motivo  sagrado; seno retinha-o.

 Mas eu voltarei outras vezes.

 Sem dvida alguma, e eu irei v-lo algumas
vezes. Se no fim de quinze dias no se aborrecer... Olhe, venha de tarde; janta
algumas vezes comigo; depois da Cmara estou completamente livre.

Estvo saiu prometendo tudo.

Voltou l, com efeito, e jantou duas
vezes com o deputado, que tambm visitou Estvo em casa; foram ao teatro
juntos; relacionaram-se intimamente com as famlias conhecidas. No fim de um
ms eram dois amigos velhos. Tinham observado reciprocamente o carter e os
sentimentos. Meneses gostava de ver a seriedade do mdico e o seu bom senso,
estimava-o com as suas intolerncias, aplaudindo-lhe a generosa ambio que o
dominava. Pela sua parte o mdico via em Meneses um homem que sabia ligar a
austeridade dos anos  amabilidade de cavalheiro, modesto nas suas maneiras,
instrudo, sentimental. Da misantropia anunciada no encontrou vestgios. 
verdade que em algumas ocasies Meneses parecia mais disposto a ouvir do que a
falar; e ento o olhar tornava-se-lhe sombrio e parado, como se em vez de ver
os objetos exteriores, estivesse contemplando a sua prpria conscincia. Mas
eram rpidos esses momentos, e Meneses voltava logo aos seus modos habituais.

'No  um misantropo, pensava ento
Estvo; mas este homem tem um drama dentro de si.'

A observao de Estvo adquiriu certo carter
de verossimilhana quando uma noite em que se achavam no Teatro Lrico, Estvo
chamou a ateno de Meneses para uma mulher vestida de preto que se achava em
um camarote da primeira ordem.

 No conheo aquela mulher, disse
Estvo. Sabe quem ?

Meneses olhou para o camarote indicado,
contemplou a mulher por alguns instantes e respondeu:

 No conheo.

A conversa ficou a; mas o mdico reparou
que a mulher duas vezes olhou para Meneses, e este duas vezes para ela, encontrando-se
os olhos de ambos.

No fim do espetculo, os dois amigos
dirigiram-se pelo corredor do lado em que estivera a mulher de preto. Estvo
teve apenas nova curiosidade, a curiosidade de artista: quis v-la de perto.
Mas a porta do camarote estava fechada. Teria j sado ou no? Era impossvel
sab-lo. Meneses passou sem olhar. Ao chegarem ao patamar da escada que d para
o lado da Rua dos Ciganos, pararam os dois porque havia grande afluncia de
gente. Da a pouco ouviu-se passo apressado; Meneses voltou o rosto, e dando o
brao a Estvo desceu imediatamente, apesar da dificuldade.

Estvo compreendeu, mas nada viu.

Pela sua parte, Meneses no deu sinal
algum.

Apenas se desembaraaram da multido, o
deputado encetou uma alegre conversa com o mdico.

 Que efeito lhe faz, perguntou ele,
quando passa no meio de tantas damas elegantes, aquela confuso de sedas e de
perfumes?

Estvo respondeu distraidamente, e
Meneses continuou a conversa no mesmo estilo; da a cinco minutos a aventura do
teatro tinha-se-lhe varrido da memria.

CAPTULO IV

Um dia Estvo Soares foi convidado para
um baile em casa de um velho amigo de seu pai.

A sociedade era luzida e numerosa; Estvo,
embora vivesse muito arredado, achou ali grande nmero de conhecidas. No
danou; viu, conversou, riu um pouco e saiu.

Mas ao entrar levava o corao livre; ao
sair trouxe nele uma flecha, para falar a linguagem dos poetas da Arcdia; era
a flecha do amor.

Do amor? A falar a verdade no se pode
dar este nome ao sentimento experimentado por Estvo; no era ainda o amor,
mas bem pode ser que viesse a s-lo. Por enquanto era um sentimento de
fascinao doce e branda; uma mulher que l estava produzira nele a impresso
que as fadas produziam nos prncipes errantes ou nas princesas perseguidas,
segundo nos rezam os contos das velhas.

A mulher em questo no era uma virgem;
era uma viva de trinta e quatro anos, bela como o dia, graciosa e terna. Estvo
via-a pela primeira vez; pelo menos no se lembrava daquelas feies. Conversou
com ela durante meia hora, e to encantado ficou com as maneiras, a voz, a
beleza de Madalena, que ao chegar  casa no pde dormir.

Como verdadeiro mdico que era, sentia em
si os sintomas dessa hipertrofia do corao que se chama amor e procurou
combater a enfermidade nascente. Leu algumas pginas de matemticas, isto ,
percorreu-as com os olhos; porque apenas comeava a ler o esprito alheava do
livro onde apenas ficavam os olhos: o esprito ia ter com a viva.

O cansao foi mais feliz que Euclides:
sobre a madrugada Estvo Soares adormeceu.

Mas sonhou com a viva.

Sonhou que a apertava em seus braos, que
a cobria de beijos, que era seu esposo perante a Igreja e perante a sociedade.

Quando acordou e lembrou-se do sonho,
Estvo sorriu.

 Casar-me! disse ele. Era o que me
faltava. Como poderia eu ser feliz com o esprito receoso e ambicioso que a
natureza me deu? Acabemos com isto; nunca mais verei aquela mulher... e boa
noite.

Comeou a vestir-se.

Trouxeram-lhe o almoo; Estvo comeu
rapidamente, porque era tarde, e saiu para ir ver alguns doentes.

Mas ao passar pela Rua do Conde
lembrou-se que Madalena lhe dissera morar ali; mas aonde? A viva disse-lhe o
nmero; o mdico porm estava to embebido em ouvi-la falar que no o decorou.

Queria e no queria; protestava
esquec-la, e contudo daria o que se lhe pedisse para saber o nmero da casa
naquele momento.

Como ningum podia dizer-lhe, o rapaz
tomou o partido de ir-se embora.

No dia seguinte, porm, teve o cuidado de
passar duas vezes pela Rua do Conde a ver se descobria a encantadora viva. No
descobriu nada; mas quando ia tomar um tlburi e voltar para casa encontrou o
amigo de seu pai em cuja casa encontrara Madalena.

Estvo j tinha pensado nele; mas
imediatamente tirou dali o pensamento, porque ir perguntar-lhe onde morava a
viva era uma coisa que podia tra-lo.

Estvo j empregava o verbo trair.

O homem em questo, depois de
cumprimentar ao mdico, e trocar com ele algumas palavras, disse-lhe que ia 
casa de Madalena, e despediu-se.

Estvo estremeceu de satisfao.

Acompanhou de longe o amigo e viu-o
entrar em uma casa.

' ali', pensou ele.

E afastou-se rapidamente.

Quando entrou em casa achou uma carta
para ele; a letra, que lhe era desconhecida, estava traada com elegncia e
cuidado: a carta recendia de sndalo.

O mdico rompeu o lacre.

A carta dizia assim:

Amanh toma-se ch em minha casa. Se
quiser vir passar algumas horas conosco dar-nos- sumo prazer.

Madalena C...

Estvo leu e releu o bilhete; teve idia
de lev-lo aos lbios, mas envergonhado diante de si prprio por uma idia que
lhe parecia de fraqueza, cheirou simplesmente o bilhete e meteu-o no bolso.

Estvo era um pouco fatalista.

'Se eu no fosse quele baile no
conhecia esta mulher, no andava agora com estes cuidados, e tinha conjurado
uma desgraa ou uma felicidade, porque ambas as coisas podem nascer deste
encontro fortuito. Que ser? Eis-me na dvida de Hamleto. Devo ir  casa dela?
A cortesia pede que v. Devo ir; mas irei encouraado contra tudo.  preciso
romper com estas idias, e continuar a vida tranqila que tenho tido.'

Estava nisto quando Meneses lhe entrou
por casa. Vinha busc-lo para jantar. Estvo saiu com o deputado. Em caminho
fez-lhe perguntas curiosas.

Por exemplo:

 Acredita no destino, meu amigo? Pensa
que h um deus do bem e um deus do mal, em conflito travado sobre a vida do
homem?

 O destino  a vontade, respondia
Meneses; cada homem faz o seu destino.

 Mas enfim ns temos pressentimentos...
s vezes adivinhamos acontecimentos em que no tomamos parte; no lhe parece
que  um deus benfazejo que no-los segreda?

 Fala como um pago; eu no creio em
nada disso. Creio que tenho o estmago vazio, e o que melhor podemos fazer 
jantar aqui mesmo no Hotel de Europa em vez de ir  Rua do Lavradio.

Subiram ao Hotel de Europa.

Ali havia vrios deputados que
conversavam de poltica, e os quais se reuniram a Meneses. Estvo ouvia e
respondia, sem esquecer nunca a viva, a carta e o sndalo.

Assim, pois, davam-se contrastes
singulares entre a conversa geral e o pensamento de Estvo.

Dizia por exemplo um deputado:

 O governo  reator; as provncias no
podem mais suport-lo. Os princpios esto todos preteridos, na minha provncia
foram demitidos alguns subdelegados pela circunstncia nica de serem meus
parentes; meu cunhado, que era diretor das rendas, foi posto fora do lugar, e
este deu-se a um peralta contraparente dos Valadares. Eu confesso que vou
romper amanh a oposio.

Estvo olhava para o deputado; mas no
interior estava dizendo isto:

'Com efeito, Madalena  bela, 
admiravelmente bela. Tem uns olhos de matar. Os cabelos so lindssimos: tudo
nela  fascinador. Se pudesse ser minha mulher, eu seria feliz; mas quem
sabe?... Contudo sinto que vou am-la. J  irresistvel;  preciso am-la; e
ela? que quer dizer aquele convite? Amar-me-?'

Estvo embebera-se tanto nesta
contemplao ideal, que, acontecendo perguntar-lhe um deputado se no achava a
situao negra e carrancuda, Estvo entregue ao seu pensamento respondeu:

  lindssima!

 Ah! disse o deputado, vejo que o senhor
 ministerialista.

Estvo sorriu; mas Meneses franziu o
sobrolho.

Compreendera tudo.

CAPTULO V

Quando saram, o deputado disse ao
mdico:

 Meu amigo, voc  desleal comigo...

 Por qu? perguntou Estvo meio srio e
meio risonho, no compreendendo a observao do deputado.

 Sim, continuou Meneses; voc esconde-me
um segredo...

 Eu?

  verdade: e um segredo de amor.

 Ah!... disse Estvo; por que diz isso?

 Reparei h pouco que, ao passo que os
mais conversavam em poltica, voc pensava em uma mulher, e mulher... lindssima...

Estvo compreendeu que estava
descoberto; no negou.

  verdade, pensava em uma mulher.

 E eu serei o ltimo a saber?

 Mas saber o qu? No h amor, no h
nada. Encontrei uma mulher que me impressionou e ainda agora me preocupa; mas 
bem possvel que no passe disto. A est.  um captulo interrompido; um
romance que fica na primeira pgina. Eu lhe digo: h de me ser difcil amar.

 Por qu?

 Eu sei? custa-me a crer no amor.

Meneses olhou fixamente para Estvo,
sorriu, abanou a cabea e disse:

 Olhe, deixe a descrena para os que j
sofreram as decepes; o senhor est moo, no conhece ainda nada desse sentimento.
Na sua idade ningum  ctico... Demais, se a mulher  bonita, eu aposto que
daqui a pouco h de dizer-me o contrrio.

 Pode ser... respondeu Estvo.

E ao mesmo tempo entrou a pensar nas
palavras de Meneses, palavras que ele comparava ao episdio do Teatro Lrico.

Entretanto, Estvo foi ao convite de
Madalena. Preparou-se e perfumou-se como se fosse falar a uma noiva. Que sairia
daquele encontro? Viria de l livre ou cativo? J seria amado? Estvo no
deixou de pens-lo; aquele convite parecia-lhe uma prova irrecusvel. O mdico
entrando num tlburi comeou a formar vrios castelos no ar.

Enfim chegou  casa.

CAPTULO VI

Madalena estava na sala acompanhada de um
filho.

Ningum mais.

Eram nove horas e meia.

 Viria eu cedo demais? perguntou ele 
dona da casa.

 O senhor nunca vem cedo.

Estvo inclinou-se.

Madalena continuou:

 Se me acha s,  porque, tendo
enfermado um pouco, mandei desavisar as poucas pessoas que eu havia convidado.

 Ah! mas eu no recebi...

 Naturalmente; eu no lhe mandei dizer
nada. Era a primeira vez que o convidava; no queria por modo algum arredar de
casa um homem to distinto.

Estas palavras de Madalena no valiam
coisa alguma, nem mesmo como desculpa, porque a desculpa  fraqussima.

Estvo compreendeu logo que havia algum
motivo oculto.

Seria o amor?

Estvo pensou que era, e doeu-se,
porque, apesar de tudo, sonhara uma paixo mais reservada e menos precipitada.
No queria, embora lhe agradasse, ser objeto daquela preferncia; e mais que
tudo achava-se embaraadssimo diante de uma mulher a quem comeava a amar, e
que talvez o amasse. Que lhe diria? Era a primeira vez que o mdico achava-se
em tais apuros. H toda a razo para supor que Estvo naquele momento preferia
estar cem lguas distante, e contudo, longe que estivesse pensaria nela.

Madalena era excessivamente bela, embora
mostrasse no rosto sinais de longo sofrimento. Era alta, cheia, tinha um
belssimo colo, magnficos braos, olhos castanhos e grandes, boca feita para
ninho de amores.

Naquele momento trajava um vestido preto.

A cor preta ia-lhe muito bem.

Estvo contemplava aquela figura com
amor e adorao; ouvia-a falar e sentia-se encantado e dominado por um sentimento
que no podia explicar.

Era um misto de amor e de receio.

Madalena mostrou-se delicada e solcita.
Falou no merecimento do rapaz e na sua nascente reputao, e instou com ele
para que fosse algumas vezes visit-la.

s 10 horas e meia serviu-se o ch na
sala. Estvo conservou-se l at s 11 horas.

Chegando  rua o mdico estava
completamente namorado. Madalena tinha-o atado no seu carro, e o pobre rapaz
nem vontade tinha de quebrar o jugo.

Caminhando para casa ia ele formando
projetos: via-se casado com ela, amado e amante, causando inveja a todos, e
mais que tudo feliz no seu interior.

Quando chegou  casa, lembrou-se de
escrever uma carta que mandaria no dia seguinte a Meneses. Escreveu cinco e
rasgou-as todas.

Afinal redigiu um simples bilhete nestes
termos:

Meu amigo.

Voc tem razo; na minha idade cr-se; eu
creio e amo. Nunca o pensei; mas  verdade. Amo... Quer saber a quem? Hei de
apresent-lo em casa dela. H de ach-la bonita... Se o !...

A carta dizia muitas coisas mais; era
tudo, porm, uma glosa do mesmo mote.

Estvo voltou  casa de Madalena e as
suas visitas comearam a ser regulares e assduas.

A viva usava para com ele de tanta
solicitude que no era possvel duvidar do sentimento que a dirigia. Pelo menos
Estvo assim o pensava. Achava-se quase sempre s, e deliciava-se em ouvi-la.
A intimidade comeou a estabelecer-se.

Logo na segunda visita, Estvo falou-lhe
em Meneses pedindo licena para apresent-lo. A viva disse que teria muito
prazer em receber amigos de Estvo; mas pedia-lhe que adiasse a apresentao.
Todos os pedidos e todas as razes de Madalena eram dignas para o mdico; no
disse mais nada.

Como era natural, ao passo que as visitas
 viva eram mais assduas, as visitas ao amigo eram mais raras.

Meneses no se queixou; compreendeu, e
disse-o ao rapaz.

 No se desculpe, acrescentou o
deputado;  natural; a amizade deve ceder o passo ao amor. O que eu quero  que
seja feliz.

Um dia Estvo pediu ao amigo que lhe
contasse o motivo que o tinha feito descrer do amor, e se algum grande
infortnio lhe havia acontecido.

 Nada me aconteceu, disse Meneses.

Mas ao mesmo tempo, compreendendo que o
mdico merecia-lhe toda a confiana, e podia no acredit-lo absolutamente,
disse:

 Por que neg-lo? Sim, aconteceu-me um
grande infortnio; amei tambm, mas no encontrei no amor as douras e a
dignidade do sentimento; enfim,  um drama ntimo de que no quero falar:
limite-se a pate-lo.

CAPTULO VII

 Quando quiser que eu lhe apresente o
meu amigo Meneses... dizia Estvo uma noite  viva Madalena.

 Ah!  verdade; um dia destes. Vejo que
o senhor  amigo dele.

 Somos amigos ntimos.

 Verdadeiros?

 Verdadeiros.

Madalena sorriu; e como estava brincando
com os cabelos do filho deu-lhe um beijo na testa.

A criana riu alegremente e abraou a
me.

A idia de vir a ser pai honorrio do
pequeno apresentou-se ao esprito de Estvo. Contemplou-o, chamou por ele,
acariciou-o e deu-lhe um beijo no mesmo lugar em que pousaram os lbios de
Madalena.

Estvo tocava piano, e s vezes
executava algum pedao de msica a pedido de Madalena.

Nessas e noutras distraes l passavam
as horas.

O amor no adiantava um passo.

Podiam ser ambos duas crateras prestes a
rebentar a lava; mas at ento no davam o menor sinal de si.

Esta situao incomodava o rapaz,
acanhava-o, e fazia-o sofrer; mas quando ele pensava em dar um ataque decisivo,
era exatamente quando se mostrava mais covarde e poltro.

Era o primeiro amor do rapaz: ele nem
conhecia as palavras prprias desse sentimento.

Um dia resolveu escrever  viva.

' melhor, pensava ele; uma carta 
eloqente e tem a grande vantagem de deixar a gente longe.'

Entrou para o gabinete e comeou uma
carta.

Gastou nisso uma hora; cada frase
ocupava-lhe muito tempo. Estvo queria fugir  hiptese de ser classificado
como tolo ou como sensual. Queria que a carta no respirasse sentimentos frvolos
nem maus; queria revelar-se puro como era.

Mas de que no dependem s vezes os
acontecimentos? Estvo estava relendo e emendando a carta quando lhe entrou
por casa um rapazola que tinha intimidade com ele. Chamava-se Oliveira e
passava por ser o primeiro janota do Rio de Janeiro.

Entrou com um rolo de papel na mo.

Estvo escondeu rapidamente a carta.

 Adeus, Estvo! disse o recm-chegado.
Estavas escrevendo algum libelo ou carta de namoro?

 Nem uma nem outra coisa, respondeu
Estvo secamente.

 Dou-te uma notcia.

 Que ?

 Entrei na literatura.

 Ah!

  verdade, e venho ler-te a primeira
comdia.

 Deus me livre! disse Estvo
levantando-se.

 Hs de ouvir, meu amigo; ao menos
algumas cenas; dar-se- caso que no me protejas nas letras? Anda c; ao menos
duas cenas. Sim?  pouca coisa.

Estvo sentou-se.

O dramaturgo continuou:

 Talvez prefiras ouvir a minha tragdia
intitulada  O Punhal de Bruto...

 No, no; prefiro a comdia:  menos
sanguinria. Vamos l.

O Oliveira abriu o rolo, arranjou as
folhas, tossiu e comeou a ler o que se segue, com voz pausada e fanhosa:

CENA I

CSAR (entrando pela direita);
JOO (pela esquerda)

CSAR  Fechada! A sinh j se levantou?

JOO  J, sim senhor; mas est
incomodada.

CSAR  O que tem?

JOO  Tem... est incomodada.

CSAR  J sei. (Consigo) 'Os
incmodos do Costume'. (A Joo) Qual  ento o remdio hoje?

JOO  O remdio? (Depois de uma pausa)
No sei.

CSAR  Est bom, vai-te!

CENA II

CSAR, FREITAS (pela direita)

CSAR  Bom dia. Sr. procurador...

FREITAS  De causas perdidas. S me ocupo
em procurar as perdidas. Procurar o que se no perdeu  tolice. A minha constituinte?

CSAR  Disse-me o Joo que est
incomodada.

FREITAS  Mesmo para V.Sa.?

CSAR  (Sentando-se) Mesmo para
mim. Por que me olha com esse olhar? Tem inveja?

FREITAS  No  inveja,  admirao! De
ordinrio ningum corresponde ao nome que recebeu na pia; mas o Sr. Csar,
benza-o Deus, no desmente que traz um nome significativo, e trata de ser nas
pginas amorosas o que foi o outro nas batalhas campais.

CSAR  Pois tambm os procuradores dizem
coisas destas?

FREITAS  De vez em quando. (Indo
sentar-se) V.Sa. admira-se?

CSAR  (Tirando charutos) Como
no  de costume... quer um charuto?

FREITAS  Obrigado... Eu tomo rap. (Tira
a boceta) Quer uma pitada?

CSAR  Obrigado.

FREITAS  (Sentando-se) Pois a
causa da minha constituinte vai s mil maravilhas. A parte contrria requereu
assinao de dez dias, mas eu vou...

CSAR  Est bom, Sr. Freitas, eu
dispenso o resto; ou ento no me fale linguagem do foro. Em resumo, ela vence?

FREITAS  Est claro. Tratando provar
que...

CSAR  Vence,  quanto basta.

FREITAS  Pudera no vencer! Pois se eu
ando nisto...

CSAR  Tanto melhor!

FREITAS  Ainda no me lembro de ter perdido
uma s causa: isto , j perdi uma, mas  porque nas vsperas de ganhar
disse-me o constituinte que desejava perd-la. Dito e feito. Provei o contrrio
do que j tinha provado, e perdi... ou antes, ganhei, porque perder assim 
ganhar.

CSAR   a fnix dos procuradores.

FREITAS  (Modestamente) So os
seus bons olhos...

CSAR  Mas a conscincia?

FREITAS  Quem  a conscincia?

CSAR  A conscincia, a sua conscincia?

FREITAS  A minha conscincia? Ah! essa
tambm ganha.

CSAR  (Levantando-se) Ah!
tambm?...

FREITAS  (O mesmo) Tem V.
SA.alguma demandazinha?

CSAR  No, no, no tenho; mas, quando
tiver, fique descansado, vou bater  sua porta...

FREITAS  Sempre s ordens de V. Sa.

CAPTULO VIII

Estvo interrompeu violentamente a
leitura, o que desgostou bastante ao poeta novel. O pobre candidato s musas
mal pde balbuciar uma splica; Estvo mostrou-se surdo, e o mais que lhe
concedeu foi ficar com a comdia para l-la depois.

Oliveira contentou-se com isso; mas no
se retirou sem recitar-lhe de cor uma fala do protagonista da tragdia, em
versos duros e compridos, dando-lhe por quebra uma estrofe de uma poesia
lrica, no estilo do Djinns de Vtor Hugo.

Enfim saiu.

Entretanto havia passado o tempo.

Estvo releu a carta e quis ainda
mand-la; mas a interrupo do poeta fora proveitosa; relendo a carta, Estvo
achou-a fria e nula; a linguagem era ardente, mas no lhe correspondia ao fogo
do corao.

  intil, disse ele rasgando a carta em
mil pedaos, a lngua humana h de ser sempre impotente para exprimir certos
afetos da alma; tudo aquilo era frio e diferente do que sinto. Estou condenado
a no dizer nada ou a dizer mal. Ao p dela no tenho foras, sinto-me fraco...

Estvo parou diante da janela que dava
para a rua, no momento em que passava um antigo colega dele, com a mulher de
brao, a mulher que era bonita, e com quem se casara um ms antes.

Os dois iam alegres e felizes.

Estvo contemplou aquele quadro com
adorao e tristeza. O casamento j no era para ele aquele impossvel de que
falava quando apenas tinha idias e no sentimentos. Agora era uma ventura
realizvel.

O casal que passara dera-lhe nova fora.

  preciso acabar com isto, dizia ele;
eu no posso deixar de ir quela mulher e dizer-lhe que a amo, que a adoro, que
desejo ser seu marido. Ela amar-me-, se j me no ama: sim, ama-me...

E comeou a vestir-se.

Quando calava as luvas e lanava um
olhar para o relgio, o criado trouxe-lhe uma carta.

Era de Madalena.

Espero, meu caro doutor, que no deixe de
vir hoje; esperei-o ontem em vo. Desejo falar-lhe.

Estvo acabou de ler este bilhete na
escada, com tal pressa descia e tal urgncia tinha de achar-se em casa da
viva.

O que ele no queria era perder aquele
assomo de coragem. Partiu.

Quando chegou  casa de Madalena
achava-se esta  janela. Recebeu-o com a costumada afabilidade. Estvo
desculpou-se como pde por no ter podido vir na vspera, acrescentando que s
com desgosto do seu corao havia faltado.

Que melhor ocasio do que era essa para
lanar a bomba de uma declarao franca e apaixonada? Estvo hesitou alguns
segundos; mas tomando nimo, ia continuar o perodo, quando a viva lhe disse:

 Estava ansiosa por v-lo para
comunicar-lhe uma coisa de certa importncia, e que s a um homem de honra,
como o senhor, se pode confiar.

Estvo empalideceu.

 Sabe onde foi que eu o vi pela primeira
vez?

 No baile de ***.

 No; foi antes disso; foi no Teatro Lrico.

 Ah!

 L o vi com o seu amigo Meneses.

 Fomos algumas vezes l!

Madalena entrou ento em uma longa
exposio, que o rapaz ouviu sem pestanejar, mas plido e agitado por comoes
ntimas. As ltimas palavras da viva foram estas:

 Bem v, senhor; coisas destas s uma
grande alma pode ouvi-las. As pequenas no as compreendem. Se lhe mereo alguma
coisa, e se esta confiana pode ser paga com um benefcio, peo-lhe que faa o
que lhe pedi.

O mdico passou a mo pelos olhos, e
apenas murmurou:

 Mas...

Neste momento entrava na sala o filhinho
de Madalena; a viva levantou-se e trouxe-o pela mo at o lugar onde se achava
Estvo Soares.

 Se no por mim, disse ela, ao menos por
esta criana inocente!

A criana, sem nada compreender,
atirou-se aos braos de Estvo.

O moo deu-lhe um beijo na testa, e disse
para a viva:

 Se hesitei no foi porque duvidasse do
que a senhora acaba de contar-me; foi porque a misso  espinhosa; mas prometo
que hei de cumpri-la.

CAPTULO IX

Estvo saiu da casa da viva agitado por
diversos sentimentos, com passo trmulo e a vista turva. A conversa com a viva
fora um longo combate; a ltima promessa foi um golpe decisivo e mortal. Estvo
saa dali como um homem que acabava de matar as suas esperanas em flor;
caminhava ao acaso, precisava de ar e queria meter-se em um quarto sombrio;
quisera ao mesmo tempo estar solitrio e no meio de imensa multido.

No caminho encontrou Oliveira, o poeta
novel.

Lembrou-se que a leitura da comdia
impedira a remessa da carta, e portanto poupou-lhe um tristssimo desengano.

Estvo involuntariamente abraou o poeta
com toda a efuso d'alma.

Oliveira correspondeu ao abrao, e quando
pde desligar-se do mdico, disse-lhe:

 Obrigado, meu amigo; estas
manifestaes so muito honrosas para mim; sempre te conheci como um perfeito
juiz literrio, e a prova que acabas de dar-me  uma consolao e uma animao;
consola-me do que tenho sofrido, anima-me para novos cometimentos. Se Torquato
Tasso...

Diante desta ameaa de discurso, e
sobretudo vendo a interpretao do seu abrao, Estvo resolveu-se a continuar
caminho abandonando o poeta.

 Adeus, tenho pressa

 Adeus, obrigado! Estvo chegou  casa
e atirou-se  cama. Ningum o soube nunca, s as paredes do quarto foram
testemunhas; mas a verdade  que Estvo chorou lgrimas amargas.

Enfim que lhe dissera Madalena e que
exigira dele?

A viva no era viva; era mulher de
Meneses; viera do Norte meses antes do marido, que s veio como deputado;
Meneses, que a amava doidamente, e que era amado com igual delrio, acusava-a
de infidelidade; uma carta e um retrato eram os indcios; ela negou, mas
explicou-se mal; o marido separou-se e mandou-a para o Rio de Janeiro.

Madalena aceitou a situao com
resignao e coragem: no murmurou nem pediu, cumpriu a ordem do marido.

Todavia Madalena no era criminosa; o seu
crime era uma aparncia; estava condenada por fidelidade de honra. A carta e o
retrato no lhe pertenciam; eram apenas um depsito imprudente e fatal.
Madalena podia dizer tudo, mas era trair uma promessa; no quis; preferiu que a
tempestade domstica casse unicamente sobre ela.

Agora, porm, a necessidade do segredo
expirara; Madalena recebeu do Norte uma carta em que a amiga, no leito da
morte, pedia que inutilizasse a carta e o retrato, ou os restitusse ao homem
que lhos dera. Essa carta era uma justificao.

Madalena podia mandar a carta ao marido,
ou pedir-lhe uma entrevista; mas receava tudo; sabia que seria intil, porque
Meneses era extremamente severo.

Vira o mdico uma noite no teatro em
companhia de seu marido; indagara e soube que eram amigos; pedia-lhe pois que
fosse mediador entre os dois, que a salvasse e que reconstrusse uma famlia.

No era pois somente o amor de Estvo
que sofria; era tambm o seu amor-prprio. Estvo facilmente compreendeu que
no fora atrado quela casa para outra coisa.  verdade que a carta s chegara
na vspera; mas a carta apenas vinha apressar a resoluo. Naturalmente
Madalena pedir-lhe-ia, sem haver carta, algum servio anlogo quele.

Se se tratasse de qualquer outro homem,
Estvo recusaria o servio que lhe pedia a viva, mas tratava-se do seu
amigo, de um homem a quem ele devia estima e servios de amizade.

Aceitou, pois, a cruel misso.

 Cumpra-se o destino, disse ele; hei de
ir lanar a mulher que amo aos braos de outro; e por desgraa maior, em vez de
gozar com este restabelecimento de concrdia domstica, vejo-me na dura
situao de amar a mulher do meu amigo, isto , de fugir para longe...

Estvo no saiu mais de casa nesse dia.

Quis escrever ao deputado contando-lhe tudo;
mas pensou que o melhor era falar-lhe de viva voz. Embora lhe custasse mais,
era de mais efeito para o desempenho da sua promessa.

Adiou, porm, para o dia seguinte, ou
antes para o mesmo dia, porque a noite no lhe interrompeu o tempo, visto que Estvo
no dormiu um minuto sequer.

CAPTULO X

Levantou-se da cama o pobre namorado sem
ter conseguido dormir. Vinha nascendo o sol.

Quis ler os jornais e pediu-os.

J os ia pondo de lado, por haver acabado
de ler, quando repentinamente viu o seu nome impresso no Jornal do Comrcio.

Era um artigo a pedido com o
ttulo de 'Uma Obra-Prima.'

Dizia o artigo:

Temos o prazer de anunciar ao pas o
prximo aparecimento de uma excelente comdia, estria de um jovem literato
fluminense, de nome Antnio Carlos de Oliveira.

Este robusto talento, por muito tempo
incgnito, vai enfim entrar nos mares da publicidade, e para isso procurou logo
ensaiar-se em uma obra de certo vulto.

Consta-nos que o autor, solicitado por
seus numerosos amigos, leu h dias a comdia em casa do Sr. Dr. Estvo Soares,
diante de um luzido auditrio, que aplaudiu muito e profetizou no Sr. Oliveira
um futuro Shakespeare.

O Sr. Dr. Estvo Soares levou a sua
amabilidade a ponto de pedir a comdia para ler segunda vez, e ontem ao
encontrar-se na rua com o Sr. Oliveira, de tal entusiasmo vinha possudo que o
abraou estreitamente, com grande pasmo dos numerosos transeuntes.

Da parte de um juiz to competente em
matrias literrias este ato  honroso para o Sr. Oliveira.

Estamos ansiosos por ler a pea do Sr.
Oliveira, e ficamos certos de que ela far fortuna de qualquer teatro.

O AMIGO DAS LETRAS.

Estvo, apesar dos sentimentos que o agitavam
ento, enfureceu-se com o artigo que acabava de ler. No havia dvida que o
autor dele era o prprio autor da comdia. O abrao da vspera fora mal
interpretado, e o poetastro aproveitava-o em seu favor. Se ao menos no falasse
no nome de Estvo, este poderia desculpar a vaidadezinha do escritor. Mas o
nome ali estava como cmplice da obra.

Pondo de lado o Jornal do Comrcio,
Estvo lembrou-se de protestar, e ia j escrever um artigo quando recebeu uma
cartinha de Oliveira.

Dizia a carta:

Meu Estvo.

Lembrou-se um amigo meu de escrever
alguma coisa a propsito da minha pea. Expliquei-lhe como se dera a leitura em
tua casa, e disse-lhe como  que, apesar do vivo desejo que tinhas de ouvir
l-la, interrompeste-me para ir cuidar de um doente. Apesar de tudo isto, o meu
referido amigo contou hoje no Jornal do Comrcio a histria alterando
um pouco a verdade. Desculpa-o;  a linguagem da amizade e da benevolncia.

Ontem entrei para casa to orgulhoso com
o teu abrao que escrevi uma ode, e assim manifestou-se em mim a veia lrica,
depois da cmica e da trgica. A te mando o rascunho; se no prestar, rasga-a.

A carta tinha, por engano, a data da
vspera.

A ode era muito comprida; Estvo nem a
leu, atirou-a para um canto.

A ode comeava assim:

Sai do teu monte,  musa!

Vem inspirar a lira do poeta;

Enche de luz a minha fronte ousada,

E mandemos aos evos,

Nas asas de uma estrofe igente e
altssona,

Do caro amigo o animador abrao!

No canto os altos feitos

De Aquiles, nem traduzo os sons tremendos

Dos rufos marciais enchendo os campos!

Outro assunto me inspira.

No canto a espada que d morte e campa;

Canto o abrao que d vida e glria!

CAPTULO XI

Como havia prometido, Estvo foi logo
procurar o deputado Meneses. Em vez de ir direito ao fim, quis antes sond-lo a
respeito do seu passado. Era a primeira vez que o moo tocava em tal. Meneses
no desconfiou, mas estranhou; mas tal confiana tinha nele que no recusou
nada.

 Sempre imaginei, dissera-lhe Estvo,
que h na sua vida um drama. E talvez engano meu, mas a verdade  que ainda no
perdi a idia.

 H, com efeito, um drama; mas um drama
pateado. No sorria;  assim. Que supe ento?

 No suponho nada. Imagino que...

 Pede dramas a um homem poltico?

 Por que no?

 Eu lhe digo. Sou poltico e no sou.
No entrei na vida pblica por vocao; entrei como se entra em uma sepultura:
para dormir melhor. Por que o fiz? A razo  o drama de que me fala.

 Uma mulher, talvez...

 Sim, uma mulher.

 Talvez mesmo, disse Estvo procurando
sorrir, talvez uma esposa.

Meneses estremeceu e olhou para o amigo,
espantado e desconfiado.

 Quem lho disse?

 Pergunto.

 Uma esposa, sim; mas no lhe direi mais
nada.  a primeira pessoa que ouve tanta coisa de mim. Deixemos o passado que
morreu: parce sepultis.

 Conforme, disse Estvo; e se eu
pertencer a uma seita filosfica que pretenda ressuscitar os mortos, mesmo
quando  um passado...

 As suas palavras, ou querem dizer
muito, ou nada. Qual  a sua inteno?

 A minha inteno no  ressuscitar o
passado unicamente;  repar-lo,  restaur-lo em todo o seu esplendor, com
toda a legitimidade do seu direito; o meu fim  dizer-lhe, meu caro amigo, que
a mulher condenada  uma mulher inocente.

Ouvindo estas palavras Meneses deu um
pequeno grito.

Depois levantando-se com rapidez pediu a
Estvo que lhe dissesse o que sabia e como sabia.

Estvo referiu tudo.

Quando concluiu a sua narrao, o deputado
abanou a cabea com aquele ltimo sintoma de incredulidade que  ainda um eco
das grandes catstrofes domsticas.

Mas Estvo ia armado contra as objees
do marido. Protestou energicamente pela defesa da mulher; instou pelo
cumprimento do dever.

A ltima resposta de Meneses foi esta:

 Meu caro Estvo, a mulher de Csar nem
deve ser suspeitada. Acredito em tudo; mas o que est feito, est feito.

 O princpio  cruel, meu amigo.

  fatal.

Estvo saiu.

Ficando s, Meneses caiu em profunda
meditao; ele acreditava em tudo, e amava a mulher; mas no acreditava que os
belos dias pudessem voltar.

Recusando, pensava ele, era ficar no
tmulo em que tivera to brando sono.

Estvo, porm, no desanimou.

Quando entrou em casa, escreveu uma longa
carta ao deputado exortando-o a que restaurasse a famlia um momento separada e
desfeita. Estvo era eloqente; o corao de Meneses com pouco se contentava.

Enfim, nesta misso diplomtica, o mdico
houve-se com suprema habilidade. No fim de alguns dias dissipara-se a nuvem do
passado, e o casal reunira-se.

Como?

Madalena soube das disposies de Meneses
e recebeu o anncio de uma visita de seu marido.

Quando o deputado preparava-se para sair,
vieram dizer-lhe que uma senhora o procurava.

A senhora era Madalena.

Meneses nem quis abra-la;
ajoelhou-se-lhe aos ps.

Tudo estava esquecido.

Quiseram celebrar a reconciliao, e
Estvo foi convidado para l passar o dia em companhia dos seus amigos, que
lhe deviam a felicidade.

Estvo no foi.

Mas no dia seguinte Meneses recebeu este
bilhete:

Desculpe, meu amigo, se no vou
despedir-me pessoalmente. Sou obrigado a partir repentinamente para Minas.
Voltarei daqui a alguns meses.

Estimo que sejam felizes, e espero que
no se esqueam de mim.

Meneses foi apressadamente  casa de
Estvo, e ainda o achou preparando as malas. Achou singular a viagem, e mais
singular o bilhete; mas o mdico no revelou por modo nenhum o verdadeiro
motivo da sua partida.

Quando Meneses voltou, comunicou  mulher
as suas impresses; e perguntou se ela compreendia aquilo.

 No, respondeu Madalena.

Mas tinha compreendido enfim.

'Nobre alma!' disse ela
consigo.

Nada disse ao marido; nisso mostrava-se esposa
solcita pela tranqilidade conjugal; mas mostrava-se sobretudo mulher.

Meneses no foi  Cmara durante muitos
dias, e no primeiro paquete seguiu para o Norte.

A ausncia transtornou algumas votaes,
e a sua partida logrou muitos clculos.

Mas o homem tem o direito de procurar a
sua felicidade e a felicidade de Meneses era independente da poltica.

O SEGREDO DE
AUGUSTA

NDICE

Captulo Primeiro

Captulo II

Captulo iii

Captulo iv

Captulo v

Captulo vI

Captulo vII

CAPTULO PRIMEIRO

So onze horas da manh.

D. Augusta Vasconcelos est reclinada
sobre um sof, com um livro na mo. Adelaide, sua filha, passa os dedos pelo
teclado do piano.

 Papai j acordou? pergunta Adelaide 
sua me.

 No, responde esta sem levantar os
olhos do livro.

Adelaide levantou-se e foi ter com
Augusta.

 Mas  to tarde, mame, disse ela. So
onze horas. Papai dorme muito.

Augusta deixou cair o livro no regao, e
disse olhando para Adelaide:

  que naturalmente recolheu-se tarde.

 Reparei j que nunca me despeo de
papai quando me vou deitar. Anda sempre fora.

Augusta sorriu.

 s uma roceira, disse ela; dormes com
as galinhas. Aqui o costume  outro. Teu pai tem que fazer de noite.

  poltica, mame? perguntou Adelaide.

 No sei, respondeu Augusta.

Comecei dizendo que Adelaide era filha de
Augusta, e esta informao, necessria no romance, no o era menos na vida real
em que se passou o episdio que vou contar, porque  primeira vista ningum
diria que havia ali me e filha; pareciam duas irms, to jovem era a mulher de
Vasconcelos.

Tinha Augusta trinta anos e Adelaide
quinze; mas comparativamente a me parecia mais moa ainda que a filha.
Conservava a mesma frescura dos quinze anos, e tinha de mais o que faltava a
Adelaide, que era a conscincia da beleza e da mocidade; conscincia que seria
louvvel se no tivesse como conseqncia uma imensa e profunda vaidade. A sua
estatura era mediana, mas imponente. Era muito alva e muito corada. Tinha os
cabelos castanhos, e os olhos garos. As mos compridas e bem feitas pareciam
criadas para os afagos de amor. Augusta dava melhor emprego s suas mos;
calava-as de macia pelica.

As graas de Augusta estavam todas em
Adelaide, mas em embrio. Adivinhava-se que aos vinte anos Adelaide devia
rivalizar com Augusta; mas por enquanto havia na menina uns restos da infncia
que no davam realce aos elementos que a natureza pusera nela.

Todavia, era bem capaz de apaixonar um
homem, sobretudo se ele fosse poeta, e gostasse das virgens de quinze anos, at
porque era um pouco plida, e os poetas em todos os tempos tiveram sempre queda
para as criaturas descoradas.

Augusta vestia com suprema elegncia;
gastava muito,  verdade; mas aproveitava bem as enormes despesas, se acaso 
isso aproveit-las. Deve-se fazer-lhe uma justia; Augusta no regateava nunca;
pagava o preo que lhe pediam por qualquer coisa. Punha nisso a sua grandeza, e
achava que o procedimento contrrio era ridculo e de baixa esfera.

Neste ponto Augusta partilhava os
sentimentos e servia aos interesses de alguns mercadores, que entendem ser uma
desonra abater alguma coisa no preo das suas mercadorias.

O fornecedor de fazendas de Augusta,
quando falava a este respeito, costumava dizer-lhe:

 Pedir um preo e dar a fazenda por
outro preo menor,  confessar que havia inteno de esbulhar o fregus.

O fornecedor preferia fazer a coisa sem a
confisso.

Outra justia que devemos reconhecer era
que Augusta no poupava esforos para que Adelaide fosse to elegante como ela.

No era pequeno o trabalho.

Adelaide desde a idade de cinco anos fora
educada na roa em casa de uns parentes de Augusta, mais dados ao cultivo do caf
que s despesas do vesturio. Adelaide foi educada nesses hbitos e nessas
idias. Por isso quando chegou  corte, onde se reuniu  famlia, houve para
ela uma verdadeira transformao. Passava de uma civilizao para outra; viveu
numa longa srie de anos. O que lhe valeu  que tinha em sua me uma excelente
mestra. Adelaide reformou-se, e no dia em que comea esta narrao j era
outra; todavia estava ainda muito longe de Augusta.

No momento em que Augusta respondia 
curiosa pergunta de sua filha acerca das ocupaes de Vasconcelos, parou um
carro  porta.

Adelaide correu  janela.

  D. Carlota, mame, disse a menina
voltando-se para dentro.

Da a alguns minutos entrava na sala a D.
Carlota em questo. Os leitores ficaro conhecendo esta nova personagem com a
simples indicao de que era um segundo volume de Augusta; bela, como ela;
elegante, como ela; vaidosa, como ela.

Tudo isto quer dizer que eram ambas as
mais afveis inimigas que pode haver neste mundo.

Carlota vinha pedir a Augusta para ir
cantar num concerto que ia dar em casa, imaginado por ela para o fim de
inaugurar um magnfico vestido novo.

Augusta de boa vontade acedeu ao pedido.

 Como est seu marido? perguntou ela a
Carlota.

 Foi para a praa; e o seu?

 O meu dorme.

 Como um justo? perguntou Carlota
sorrindo maliciosamente.

 Parece, respondeu Augusta.

Neste momento, Adelaide, que por pedido
de Carlota tinha ido tocar um noturno ao piano, voltou para o grupo.

A amiga de Augusta perguntou-lhe:

 Aposto que j tem algum noivo em vista?

A menina corou muito, e balbuciou:

 No fale nisso.

 Ora, h de ter! Ou ento aproxima-se da
poca em que h de ter um noivo, e eu j lhe profetizo que h de ser bonito...

  muito cedo, disse Augusta.

 Cedo!

 Sim, est muito criana; casar-se-
quando for tempo, e o tempo est longe...

 J sei, disse Carlota rindo, quer
prepar-la bem... Aprovo-lhe a inteno. Mas nesse caso no lhe tire as
bonecas.

 J no as tem.

 Ento  difcil impedir os namorados.
Uma coisa substitui a outra.

Augusta sorriu, e Carlota levantou-se
para sair.

 J? disse Augusta.

  preciso; adeus!

 Adeus!

Trocaram-se alguns beijos e Carlota saiu
logo.

Logo depois chegaram dois caixeiros: um com
alguns vestidos e outro com um romance; eram encomendas feitas na vspera. Os
vestidos eram carssimos, e o romance tinha este ttulo: Fanny, por
Ernesto Feydeau.

CAPTULO II

Pela uma hora da tarde do mesmo dia
levantou-se Vasconcelos da cama.

Vasconcelos era um homem de quarenta
anos, bem apessoado, dotado de um maravilhoso par de suas grisalhas, que lhe
davam um ar de diplomata, coisa de que estava afastado umas boas cem lguas.
Tinha a cara risonha e expansiva; todo ele respirava uma robusta sade.

Possua uma boa fortuna e no trabalhava,
isto , trabalhava muito na destruio da referida fortuna, obra em que sua
mulher colaborava conscienciosamente.

A observao de Adelaide era verdica;
Vasconcelos recolhia-se tarde; acordava sempre depois do meio-dia; e saa s
ave-marias para voltar na madrugada seguinte. Quer dizer que fazia com
regularidade algumas pequenas excurses  casa da famlia.

S uma pessoa tinha o direito de exigir
de Vasconcelos mais alguma assiduidade em casa: era Augusta; mas ela nada lhe
dizia. Nem por isso se davam mal, porque o marido em compensao da tolerncia
de sua esposa no lhe negava nada, e todos os caprichos dela eram de pronto
satisfeitos.

Se acontecia que Vasconcelos no pudesse
acompanh-la a todos os passeios e bailes, incumbia-se disso um irmo dele,
comendador de duas ordens, poltico de oposio, excelente jogador de
voltarete, e homem amvel nas horas vagas, que eram bem poucas. O irmo
Loureno era o que se pode chamar um irmo terrvel. Obedecia a todos os
desejos da cunhada, mas no poupava de quando em quando um sermo ao irmo. Boa
semente que no pegava.

Acordou, pois, Vasconcelos, e acordou de
bom humor. A filha alegrou-se muito ao v-lo, e ele mostrou-se de uma grande
afabilidade com a mulher, que lhe retribuiu do mesmo modo.

 Por que acorda to tarde? perguntou
Adelaide acariciando as suas de Vasconcelos.

 Porque me deito tarde.

 Mas por que se deita tarde?

 Isso agora  muito perguntar! disse
Vasconcelos sorrindo.

E continuou:

 Deito-me tarde porque assim o pedem as
necessidades polticas. Tu no sabes o que  poltica;  uma coisa muito feia,
mas muito necessria.

 Sei o que  poltica, sim! disse
Adelaide.

 Ah! explica-me l ento o que .

 L na roa, quando quebraram a cabea
ao juiz de paz, disseram que era por poltica; o que eu achei esquisito, porque
a poltica seria no quebrar a cabea...

Vasconcelos riu muito com a observao da
filha, e foi almoar, exatamente quando entrava o irmo, que no pde deixar de
exclamar:

 A boa hora almoas tu!

 A vens tu com as tuas reprimendas. Eu
almoo quando tenho fome... V se me queres agora escravizar s horas e s
denominaes. Chama-lhe almoo ou lunch, a verdade  que estou comendo.

Loureno respondeu com uma careta.

Terminado o almoo, anunciou-se a chegada
do Sr. Batista. Vasconcelos foi receb-lo no gabinete particular.

Batista era um rapaz de vinte e cinco
anos; era o tipo acabado do pndego; excelente companheiro numa ceia de
sociedade equvoca, nulo conviva numa sociedade honesta. Tinha chiste e certa
inteligncia, mas era preciso que estivesse em clima prprio para que se lhe
desenvolvessem essas qualidades. No mais era bonito; tinha um lindo bigode;
calava botins do Campas, e vestia no mais apurado gosto; fumava tanto como um
soldado e to bem como um lord.

 Aposto que acordaste agora? disse
Batista entrando no gabinete do Vasconcelos.

 H trs quartos de hora; almocei neste
instante. Toma um charuto.

Batista aceitou o charuto, e estirou-se
numa cadeira americana, enquanto Vasconcelos acendia um fsforo.

 Viste o Gomes? perguntou Vasconcelos.

 Vi-o ontem. Grande notcia; rompeu com
a sociedade.

 Deveras?

 Quando lhe perguntei por que motivo
ningum o via h um ms, respondeu-me que estava passando por uma
transformao, e que do Gomes que foi s ficar lembrana. Parece incrvel, mas
o rapaz fala com convico.

 No creio; aquilo  alguma caoada que
nos quer fazer. Que novidades h?

 Nada; isto , tu  que deves saber
alguma coisa.

 Eu, nada...

 Ora essa! no foste ontem ao Jardim?

 Fui, sim; houve uma ceia...

 De famlia, sim. Eu fui ao Alcazar. A
que horas acabou a reunio?

 s quatro da manh...

Vasconcelos estendeu-se numa rede, e a
conversa continuou por esse tom, at que um moleque veio dizer a Vasconcelos
que estava na sala o Sr. Gomes.

 Eis o homem! disse Batista.

 Manda subir, ordenou Vasconcelos.

O moleque desceu para dar o recado; mas
s um quarto de hora depois  que Gomes apareceu, por demorar-se algum tempo em
baixo conversando com Augusta e Adelaide.

 Quem  vivo sempre aparece, disse
Vasconcelos ao avistar o rapaz.

 No me procuram..., disse ele.

 Perdo; eu j l fui duas vezes, e
disseram-me que havias sado.

 S por grande fatalidade, porque eu
quase nunca saio.

 Mas ento ests completamente ermito?

 Estou crislida; vou reaparecer
borboleta, disse Gomes sentando-se.

 Temos poesia... Guarda debaixo,
Vasconcelos...

O novo personagem, o Gomes to desejado e
to escondido, representava ter cerca de trinta anos. Ele, Vasconcelos e
Batista eram a trindade do prazer e da dissipao, ligada por uma indissolvel
amizade. Quando Gomes, cerca de um ms antes, deixou de aparecer nos crculos
do costume, todos repararam nisso, mas s Vasconcelos e Batista sentiram
deveras. Todavia, no insistiram muito em arranc-lo  solido, somente pela
considerao de que talvez houvesse nisso algum interesse do rapaz.

Gomes foi portanto recebido como um filho
prdigo.

 Mas onde te meteste? que  isso de
crislida e de borboleta? Cuidas que eu sou do mangue?

  o que lhes digo, meus amigos. Estou
criando asas.

 Asas! disse Batista sufocando uma
risada.

 S se so asas de gavio para cair...

 No, estou falando srio.

E com efeito Gomes apresentava um ar
srio e convencido.

Vasconcelos e Batista olharam um para o
outro.

 Pois se  verdade isso que dizes,
explica-nos l que asas so essas, e sobretudo para onde  que queres voar.

A estas palavras de Vasconcelos,
acrescentou Batista:

 Sim, deves dar-nos uma explicao, e se
ns que somos o teu conselho de famlia, acharmos que a explicao  boa,
aprovamo-la; seno, ficas sem asas, e ficas sendo o que sempre foste...

 Apoiado, disse Vasconcelos.

 Pois  simples; estou criando asas de
anjo, e quero voar para o cu do amor.

 Do amor! disseram os dois amigos de
Gomes.

  verdade, continuou Gomes. Que fui eu at
hoje? Um verdadeiro estrina, um perfeito pndego, gastando s mos largas a
minha fortuna e o meu corao. Mas isto  bastante para encher a vida? Parece
que no...

 At a concordo... isso no basta;  preciso
que haja outra coisa; a diferena est na maneira de...

  exato, disse Vasconcelos;  exato; 
natural que vocs pensem de modo diverso, mas eu acho que tenho razo em dizer
que sem o amor casto e puro a vida  um puro deserto.

Batista deu um pulo...

Vasconcelos fitou os olhos em Gomes:

 Aposto que vais casar? disse-lhe.

 No sei se vou casar; sei que amo, e
espero acabar por casar-me com a mulher a quem amo.

 Casar! exclamou Batista.

E soltou uma estridente gargalhada.

Mas Gomes falava to seriamente, insistia
com tanta gravidade naqueles projetos de regenerao, que os dois amigos
acabaram por ouvi-lo com igual seriedade.

Gomes falava uma linguagem estranha, e
inteiramente nova na boca de um rapaz que era o mais doido e ruidoso nos
festins de Baco e de Citera.

 Assim, pois, deixas-nos? perguntou
Vasconcelos.

 Eu? Sim e no; encontrar-me-o nas
salas; nos hotis e nas casas equvocas, nunca mais.

 De profundis... cantarolou
Batista.

 Mas, afinal de contas, disse Vasconcelos,
onde est a tua Marion? Pode-se saber quem ela ?

 No  Marion,  Virgnia... Pura
simpatia ao princpio, depois afeio pronunciada, hoje paixo verdadeira.
Lutei enquanto pude; mas abati as armas diante de uma fora maior. O meu grande
medo era no ter uma alma capaz de oferecer a essa gentil criatura. Pois
tenho-a, e to fogosa, e to virgem como no tempo dos meus dezoito anos. S o
casto olhar de uma virgem poderia descobrir no meu lodo essa prola divina.
Renaso melhor do que era...

 Est claro, Vasconcelos, o rapaz est
doido; mandemo-lo para a Praia Vermelha; e como pode ter algum acesso, eu
vou-me embora...

Batista pegou no chapu.

 Onde vais? disse-lhe Gomes.

 Tenho que fazer; mas logo aparecerei em
tua casa; quero ver se ainda  tempo de arrancar-te a esse abismo.

E saiu.

CAPTULO III

Os dois ficaram ss.

 Ento  certo que ests apaixonado?

 Estou. Eu bem sabia que vocs
dificilmente acreditariam nisto; eu prprio no creio ainda, e contudo 
verdade. Acabo por onde tu comeaste. Ser melhor ou pior? Eu creio que 
melhor.

 Tens interesse em ocultar o nome da
pessoa?

 Oculto-o por ora a todos, menos a ti.

  uma prova de confiana...

Gomes sorriu.

 No, disse ele,  uma condio sine
qua non; antes de todos tu deves saber quem  a escolhida do meu corao;
trata-se de tua filha.

 Adelaide? perguntou Vasconcelos
espantado.

 Sim, tua filha.

A revelao de Gomes caiu como uma bomba.
Vasconcelos nem por sombras suspeitava semelhante coisa.

 Este amor  da tua aprovao?
perguntou-lhe Gomes.

Vasconcelos refletia, e depois de alguns
minutos de silncio, disse:

 O meu corao aprova a tua escolha; s meu
amigo, ests apaixonado, e uma vez que ela te ame...

Gomes ia falar, mas Vasconcelos continuou
sorrindo:

 Mas a sociedade?

 Que sociedade?

 A sociedade que nos tem em conta de
libertinos, a ti e a mim,  natural que no aprove o meu ato.

 J vejo que  uma recusa, disse Gomes
entristecendo.

 Qual recusa, pateta!  uma objeo, que
tu poders destruir dizendo: a sociedade  uma grande caluniadora e uma famosa
indiscreta. Minha filha  tua, com uma condio.

 Qual?

 A condio da reciprocidade. Ama-te
ela?

 No sei, respondeu Gomes.

 Mas desconfias...

 No sei; sei que a amo e que daria a
minha vida por ela, mas ignoro se sou correspondido.

 Hs de ser... Eu me incumbirei de
apalpar o terreno. Daqui a dois dias dou-te a minha resposta. Ah! se ainda
tenho de ver-te meu genro!

A resposta de Gomes foi cair-lhe nos
braos. A cena j roava pela comdia quando deram trs horas. Gomes lembrou-se
que tinha rendez-vous com um amigo; Vasconcelos lembrou-se que tinha de
escrever algumas cartas.

Gomes saiu sem falar s senhoras.

Pelas quatro horas Vasconcelos
dispunha-se a sair, quando vieram anunciar-lhe a visita do Sr. Jos Brito.

Ao ouvir este nome o alegre Vasconcelos
franziu o sobrolho.

Pouco depois entrava no gabinete o Sr.
Jos Brito.

O Sr. Jos Brito era para Vasconcelos um
verdadeiro fantasma, um eco do abismo, uma voz da realidade; era um credor.

 No contava hoje com a sua visita,
disse Vasconcelos.

 Admira, respondeu o Sr. Jos Brito com
uma placidez de apunhalar, porque hoje so 21.

 Cuidei que eram 19, balbuciou
Vasconcelos.

 Anteontem, sim; mas hoje so 21. Olhe,
continuou o credor pegando no Jornal do Comrcio que se achava numa
cadeira: quinta-feira, 21.

 Vem buscar o dinheiro?

 Aqui est a letra, disse o Sr. Jos
Brito tirando a carteira do bolso e um papel da carteira.

 Por que no veio mais cedo? perguntou
Vasconcelos, procurando assim espaar a questo principal.

 Vim s oito horas da manh, respondeu o
credor, estava dormindo; vim s nove, idem; vim s dez, idem; vim s onze,
idem; vim ao meio-dia, idem. Quis vir  uma hora, mas tinha de mandar um homem
para a cadeia, e no me foi possvel acabar cedo. s trs jantei, e s quatro
aqui estou.

Vasconcelos puxava o charuto a ver se lhe
ocorria alguma idia boa de escapar ao pagamento com que ele no contava.

No achava nada; mas o prprio credor
forneceu-lhe ensejo.

 Alm de que, disse ele, a hora no
importa nada, porque eu estava certo de que o senhor me vai pagar.

 Ah! disse Vasconcelos,  talvez um
engano; eu no contava com o senhor hoje, e no arranjei o dinheiro...

 Ento, como h de ser? perguntou o
credor com ingenuidade.

Vasconcelos sentiu entrar-lhe nalma a
esperana.

 Nada mais simples, disse; o senhor
espera at amanh...

 Amanh quero assistir  penhora de um
indivduo que mandei processar por uma larga dvida; no posso...

 Perdo, eu levo-lhe o dinheiro  sua
casa...

 Isso seria bom se os negcios
comerciais se arranjassem assim. Se fssemos dois amigos  natural que eu me
contentasse com a sua promessa, e tudo acabaria amanh; mas eu sou seu credor,
e s tenho em vista salvar o meu interesse... Portanto, acho melhor pagar hoje...

Vasconcelos passou a mo pelos cabelos.

 Mas se eu no tenho! disse ele.

  uma coisa que o deve incomodar muito,
mas que a mim no me causa a menor impresso... isto , deve causar-me alguma,
porque o senhor est hoje em situao precria.

 Eu?

  verdade; as suas casas da Rua da
Imperatriz esto hipotecadas; a da Rua de S. Pedro foi vendida, e a importncia
j vai longe; os seus escravos tm ido a um e um, sem que o senhor o perceba, e
as despesas que o senhor h pouco fez para montar uma casa a certa dama da
sociedade equvoca so imensas. Eu sei tudo; sei mais do que o senhor...

Vasconcelos estava visivelmente aterrado.

O credor dizia a verdade.

 Mas enfim, disse Vasconcelos, o que
havemos de fazer?

 Uma coisa simples; duplicamos a dvida,
e o senhor passa-me agora mesmo um depsito.

 Duplicar a dvida! Mas isto  um...

 Isto  uma tbua de salvao; sou
moderado. Vamos l, aceite. Escreva-me a o depsito, e rasga-se a letra.

Vasconcelos ainda quis fazer objeo; mas
era impossvel convencer o Sr. Jos Brito.

Assinou o depsito de dezoito contos.

Quando o credor saiu, Vasconcelos entrou
a meditar seriamente na sua vida.

At ento gastara tanto e to cegamente
que no reparara no abismo que ele prprio cavara a seus ps.

Veio porm adverti-lo a voz de um dos
seus algozes.

Vasconcelos refletiu, calculou,
recapitulou as suas despesas e as suas obrigaes, e viu que da fortuna que
possua tinha na realidade menos da quarta parte.

Para viver como at ali vivera, aquilo
era nada menos que a misria.

Que fazer em tal situao?

Vasconcelos pegou no chapu e saiu.

Vinha caindo a noite.

Depois de andar algum tempo pelas ruas
entregue s suas meditaes, Vasconcelos entrou no Alcazar.

Era um meio de distrair-se.

Ali encontraria a sociedade do costume.

Batista veio ao encontro do amigo.

 Que cara  essa? disse-lhe.

 No  nada, pisaram-me um calo,
respondeu Vasconcelos, que no encontrava melhor resposta.

Mas um pedicuro que se achava perto de
ambos ouviu o dito, e nunca mais perdeu de vista o infeliz Vasconcelos, a quem
a coisa mais indiferente incomodava. O olhar persistente do pedicuro
aborreceu-o tanto, que Vasconcelos saiu.

Entrou no Hotel de Milo, para jantar. Por
mais preocupado que ele estivesse, a exigncia do estmago no se demorou.

Ora, no meio do jantar lembrou-lhe aquilo
que no devia ter-lhe sado da cabea: o pedido de casamento feito nessa tarde
por Gomes.

Foi um raio de luz.

'Gomes  rico, pensou Vasconcelos; o
meio de escapar a maiores desgostos  este; Gomes casa-se com Adelaide, e como
 meu amigo no me negar o que eu precisar. Pela minha parte procurarei ganhar
o perdido... Que boa fortuna foi aquela lembrana do casamento!

Vasconcelos comeu alegremente; voltou
depois ao Alcazar, onde alguns rapazes e outras pessoas fizeram esquecer
completamente os seus infortnios.

s trs horas da noite Vasconcelos
entrava para casa com a tranqilidade e regularidade do costume.

CAPTULO IV

No dia seguinte o primeiro cuidado de
Vasconcelos foi consultar o corao de Adelaide. Queria porm faz-lo na
ausncia de Augusta. Felizmente esta precisava de ir ver  Rua da Quitanda umas
fazendas novas, e saiu com o cunhado, deixando a Vasconcelos toda a liberdade.

Como os leitores j sabem, Adelaide
queria muito ao pai, e era capaz de fazer por ele tudo. Era, alm disso, um
excelente corao. Vasconcelos contava com essas duas foras.

 Vem c, Adelaide, disse ele entrando na
sala; sabes quantos anos tens?

 Tenho quinze.

 Sabes quantos anos tem tua me?

 Vinte e sete, no ?

 Tem trinta; quer dizer que tua me
casou-se com quinze anos.

Vasconcelos parou, a fim de ver o efeito que
produziam estas palavras; mas foi intil a expectativa; Adelaide no
compreendeu nada.

O pai continuou:

 No pensaste no casamento?

A menina corou muito, hesitou em falar,
mas como o pai instasse, respondeu:

 Qual, papai! Eu no quero casar...

 No queres casar?  boa! por qu?

 Porque no tenho vontade, e vivo bem
aqui.

 Mas tu podes casar e continuar a viver
aqui...

 Bem; mas no tenho vontade.

 Anda l... Amas algum, confessa.

 No me pergunte isso, papai... eu no
amo ningum.

A linguagem de Adelaide era to sincera
que Vasconcelos no podia duvidar.

 Ela fala a verdade, pensou ele; 
intil tentar por esse lado...

Adelaide sentou-se ao p dele, e disse:

 Portanto, meu paizinho, no falemos
mais nisso...

 Falemos, minha filha; tu s criana,
no sabes calcular. Imagina que eu e a tua me morremos amanh. Quem te h de
amparar? S um marido.

 Mas se eu no gosto de ningum...

 Por ora; mas hs de vir a gostar se o
noivo for um bonito rapaz, de bom corao... Eu j escolhi um que te ama muito,
e a quem tu hs de amar.

Adelaide estremeceu.

 Eu? disse ela, Mas... quem ?

  o Gomes.

 No o amo, meu pai...

 Agora, creio; mas no negas que ele 
digno de ser amado. Dentro de dois meses est apaixonada por ele.

Adelaide no disse palavra. Curvou a
cabea e comeou a torcer nos dedos uma das tranas bastas e negras. O seio
arfava-lhe com fora; a menina tinha os olhos cravados no tapete.

 Vamos, est decidido, no? perguntou
Vasconcelos.

 Mas, papai, e se eu for infeliz?...

 Isso  impossvel, minha filha; hs de
ser muito feliz; e hs de amar muito a teu marido.

 Oh! papai, disse-lhe Adelaide com os
olhos rasos de gua, peo-lhe que no me case ainda...

 Adelaide, o primeiro dever de uma filha
 obedecer a seu pai, e eu sou teu pai. Quero que te cases com o Gomes; hs de
casar.

Estas palavras, para terem todo o efeito,
deviam ser seguidas de uma retirada rpida. Vasconcelos compreendeu isso, e
saiu da sala deixando Adelaide na maior desolao.

Adelaide no amava ningum. A sua recusa
no tinha por ponto de partida nenhum outro amor; tambm no era resultado de
averso que tivesse pelo seu pretendente.

A menina sentia simplesmente uma total
indiferena pelo rapaz.

Nestas condies o casamento no deixava
de ser uma odiosa imposio.

Mas que faria Adelaide? a quem
recorreria?

Recorreu s lgrimas.

Quanto a Vasconcelos, subiu ao gabinete e
escreveu as seguintes linhas ao futuro genro:

Tudo caminha bem; autorizo-te a vires
fazer a corte  pequena, e espero que dentro de dois meses o casamento esteja
concludo.

Fechou a carta e mandou-a.

Pouco depois voltaram de fora Augusta e
Loureno.

Enquanto Augusta subiu para o quarto da toilette
para mudar de roupa, Loureno foi ter com Adelaide, que estava no jardim.

Reparou que ela tinha os olhos vermelhos,
e inquiriu a causa; mas a moa negou que fosse de chorar.

Loureno no acreditou nas palavras da sobrinha,
e instou com ela para que lhe contasse o que havia.

Adelaide tinha grande confiana no tio,
at por causa da sua rudeza de maneiras. No fim de alguns minutos de
instncias, Adelaide contou a Loureno a cena com o pai.

 Ento,  por isso que ests chorando,
pequena?

 Pois ento? Como fugir ao casamento?

 Descansa, no te casars; eu te prometo
que no te hs de casar...

A moa sentiu um estremecimento de
alegria.

 Promete, meu tio, que h de convencer a
papai?

 Hei de venc-lo ou convenc-lo, no
importa; tu no te hs de casar. Teu pai  um tolo.

Loureno subiu ao gabinete de
Vasconcelos, exatamente no momento em que este se dispunha a sair.

 Vais sair? perguntou-lhe Loureno.

 Vou.

 Preciso falar-te.

Loureno sentou-se, e Vasconcelos, que j
tinha o chapu na cabea, esperou de p que ele falasse.

 Senta-te, disse Loureno.

Vasconcelos sentou-se.

 H dezesseis anos...

 Comeas de muito longe; v se abrevias
uma meia dzia de anos, sem o que no prometo ouvir o que me vais dizer.

 H dezesseis anos, continuou Loureno,
que s casado; mas a diferena entre o primeiro dia e o dia de hoje  grande.

 Naturalmente, disse Vasconcelos. Tempora
mutantur et...

 Naquele tempo, continuou Loureno,
dizias que encontraras o paraso, o verdadeiro paraso, e foste durante dois ou
trs anos o modelo dos maridos. Depois mudaste completamente; e o paraso
tornar-se-ia verdadeiro inferno se tua mulher no fosse to indiferente e fria
como , evitando assim as mais terrveis cenas domsticas.

 Mas, Loureno, que tens com isso?

 Nada; nem  disso que vou falar-te. O
que me interessa  que no sacrifiques tua filha por um capricho, entregando-a
a um dos teus companheiros de vida solta...

Vasconcelos levantou-se:

 Ests doido! disse ele.

 Estou calmo, e dou-te o prudente
conselho de no sacrificares tua filha a um libertino.

 Gomes no  libertino; teve uma vida de
rapaz,  verdade, mas gosta de Adelaide, e reformou-se completamente.  um bom
casamento, e por isso acho que todos devemos aceit-lo.  a minha vontade, e
nesta casa quem manda sou eu.

Loureno procurou falar ainda, mas
Vasconcelos j ia longe.

'Que fazer?' pensou Loureno.

CAPTULO V

A oposio de Loureno no causava grande
impresso a Vasconcelos. Ele podia,  verdade, sugerir  sobrinha idias de
resistncia; mas Adelaide, que era um esprito fraco, cederia ao ltimo que lhe
falasse, e os conselhos de um dia seriam vencidos pela imposio do dia
seguinte.

Todavia era conveniente obter o apoio de
Augusta. Vasconcelos pensou em tratar disso o mais cedo que lhe fosse possvel.

Entretanto, urgia organizar os seus
negcios, e Vasconcelos procurou um advogado a quem entregou todos os papis e
informaes, encarregando-o de orient-lo em todas as necessidades da situao,
quais os meios que poderia opor em qualquer caso de reclamao por dvida ou
hipoteca.

Nada disto fazia supor da parte de
Vasconcelos uma reforma de costumes. Preparava-se apenas para continuar a vida
anterior.

Dois dias depois da conversa com o irmo,
Vasconcelos procurou Augusta, para tratar francamente do casamento de Adelaide.

J nesse intervalo o futuro noivo,
obedecendo ao conselho de Vasconcelos, fazia corte prvia  filha. Era possvel
que, se o casamento no lhe fosse imposto, Adelaide acabasse por gostar do
rapaz. Gomes era um homem belo e elegante; e, alm disso, conhecia todos os
recursos de que se deve usar para impressionar uma mulher.

Teria Augusta notado a presena assdua
do moo? Vasconcelos fazia essa pergunta ao seu esprito no momento em que
entrava na toilette da mulher.

 Vais sair? perguntou ele.

 No; tenho visitas.

 Ah! quem?

 A mulher do Seabra, disse ela.

Vasconcelos sentou-se, e procurou um meio
de encabear a conversa especial que ali o levava.

 Ests muito bonita hoje!

 Deveras? disse ela sorrindo. Pois estou
hoje como sempre, e  singular que o digas hoje...

 No; realmente hoje ests mais bonita
do que costumas, a ponto que sou capaz de ter cimes...

 Qual! disse Augusta com um sorriso
irnico.

Vasconcelos coou a cabea, tirou o
relgio, deu-lhe corda; depois entrou a puxar as barbas, pegou numa folha, leu
dois ou trs anncios, atirou a folha ao cho, e afinal, depois de um silncio
j prolongado, Vasconcelos achou melhor atacar a praa de frente.

 Tenho pensado ultimamente em Adelaide,
disse ele.

 Ah! por qu?

 Est moa...

 Moa! exclamou Augusta,  uma
criana...

 Est mais velha do que tu quando te
casaste...

Augusta franziu ligeiramente a testa.

 Mas ento... disse ela.

 Ento  que desejo faz-la feliz e
feliz pelo casamento. Um rapaz, digno dela a todos os respeitos, pediu-ma h
dias, e eu disse-lhe que sim. Em sabendo quem , aprovars a escolha;  o
Gomes. Casamo-la, no?

 No! respondeu Augusta.

 Como, no?

 Adelaide  uma criana; no tem juzo
nem idade prpria... Casar-se- quando for tempo.

 Quando for tempo? Ests certa se o
noivo esperar at que seja tempo?

 Pacincia, disse Augusta.

 Tens alguma coisa que notar no Gomes?

 Nada.  um moo distinto; mas no
convm a Adelaide.

Vasconcelos hesitava em continuar;
parecia-lhe que nada se podia arranjar; mas a idia da fortuna deu-lhe foras,
e ele perguntou:

 Por qu?

 Ests certo de que ele convenha a
Adelaide? perguntou Augusta, eludindo a pergunta do marido.

 Afirmo que convm.

 Convenha ou no, a pequena no deve
casar j.

 E se ela amasse?...

 Que importa isso? esperaria!

 Entretanto, Augusta, no podemos
prescindir deste casamento...  uma necessidade fatal.

 Fatal? no compreendo.

 Vou explicar-me. O Gomes tem uma boa
fortuna.

 Tambm ns temos uma...

  o teu engano, interrompeu
Vasconcelos.

 Como assim?

Vasconcelos continuou:

 Mais tarde ou mais cedo havias de
sab-lo, e eu estimo ter esta ocasio de dizer-te toda a verdade. A verdade 
que, se no estamos pobres, estamos arruinados.

Augusta ouviu estas palavras com os olhos
espantados. Quando ele acabou, disse:

 No  possvel!

 Infelizmente  verdade!

Seguiu-se algum tempo de silncio.

Tudo est arranjado, pensou
Vasconcelos.

Augusta rompeu o silncio.

 Mas, disse ela, se a nossa fortuna est
abalada, creio que o senhor tem coisa melhor para fazer do que estar
conversando;  reconstru-la.

Vasconcelos fez com a cabea um movimento
de espanto, e como se fosse aquilo uma pergunta, Augusta apressou-se a
responder:

 No se admire disto; creio que o seu
dever  reconstruir a fortuna.

 No me admira esse dever; admira-me que
mo lembres por esse modo. Dir-se-ia que a culpa  minha...

 Bom! disse Augusta, vais dizer que fui
eu...

 A culpa, se culpa h,  de ns ambos.

 Por qu?  tambm minha?

 Tambm. As tuas despesas loucas
contriburam em grande parte para este resultado; eu nada te recusei nem
recuso, e  nisso que sou culpado. Se  isso que me lanas em rosto, aceito.

Augusta levantou os ombros com um gesto de
despeito; e deitou a Vasconcelos um olhar de tamanho desdm que bastaria para
intentar uma ao de divrcio.

Vasconcelos viu o movimento e o olhar.

 O amor do luxo e do suprfluo, disse ele,
h de sempre produzir estas conseqncias. So terrveis, mas explicveis. Para
conjur-las era preciso viver com moderao. Nunca pensaste nisso. No fim de
seis meses de casada entraste a viver no turbilho da moda, e o pequeno regato
das despesas tornou-se um rio imenso de desperdcios. Sabes o que me disse uma
vez meu irmo? Disse-me que a idia de mandar Adelaide para a roa foi-te
sugerida pela necessidade de viver sem cuidados de natureza alguma.

Augusta tinha-se levantado, e deu alguns
passos; estava trmula e plida.

Vasconcelos ia por diante nas suas
recriminaes, quando a mulher o interrompeu, dizendo:

 Mas por que motivo no impediu o senhor
essas despesas que eu fazia?

 Queria a paz domstica.

 No! clamou ela; o senhor queria ter
por sua parte uma vida livre e independente; vendo que eu me entregava a essas
despesas imaginou comprar a minha tolerncia com a sua tolerncia. Eis o nico
motivo; a sua vida no ser igual  minha; mas  pior... Se eu fazia despesas
em casa o senhor as fazia na rua...  intil negar, porque eu sei tudo;
conheo, de nome, as rivais que sucessivamente o senhor me deu, e nunca lhe
disse uma nica palavra, nem agora lho censuro, porque seria intil e tarde.

A situao tinha mudado. Vasconcelos
comeara constituindo-se juiz, e passara a ser co-ru. Negar era impossvel;
discutir era arriscado e intil. Preferiu sofismar.

 Dado que fosse assim (e eu no discuto
esse ponto), em todo caso a culpa ser de ns ambos, e no vejo razo para que
ma lances em rosto. Devo reparar a fortuna, concordo; h um meio, e  este: o
casamento de Adelaide com o Gomes.

 No! disse Augusta.

 Bem; seremos pobres, ficaremos piores
do que estamos agora; venderemos tudo...

 Perdo, disse Augusta, eu no sei por
que razo no h de o senhor, que  forte, e tem a maior parte no desastre,
empregar esforos para a reconstruo da fortuna destruda.

  trabalho longo; e daqui at l a vida
continua e gasta-se. O meio, j lho disse,  este: casar Adelaide com o Gomes.

 No quero! disse Augusta, no consinto
em semelhante casamento.

Vasconcelos ia responder, mas Augusta,
logo depois de proferir estas palavras, tinha sado precipitadamente do
gabinete.

Vasconcelos saiu alguns minutos depois.

CAPTULO VI

Loureno no teve conhecimento da cena
entre o irmo e a cunhada, e depois da teima de Vasconcelos resolveu nada mais
dizer; entretanto, como queria muito  sobrinha, e no queria v-la entregue a
um homem de costumes que ele reprovava, Loureno esperou que a situao tomasse
carter mais decisivo para assumir mais ativo papel.

Mas, a fim de no perder tempo, e poder
usar alguma arma poderosa, Loureno tratou de instaurar uma pesquisa mediante a
qual pudesse colher informaes minuciosas acerca de Gomes.

Este cuidava que o casamento era coisa
decidida, e no perdia um s dia na conquista de Adelaide.

Notou, porm, que Augusta tornava-se mais
fria e indiferente, sem causa que ele conhecesse, e entrou-lhe no esprito a
suspeita de que viesse dali alguma oposio.

Quanto a Vasconcelos, desanimado pela
cena da toilette, esperou melhores dias, e contou sobretudo com o
imprio da necessidade.

Um dia, porm, exatamente quarenta e oito
horas depois da grande discusso com Augusta, Vasconcelos fez dentro de si esta
pergunta:

'Augusta recusa a mo de Adelaide
para o Gomes; por qu?'

De pergunta em pergunta, de deduo em
deduo, abriu-se no esprito de Vasconcelos campo para uma suspeita dolorosa.

'Am-lo- ela?' perguntou ele a
si prprio.

Depois, como se o abismo atrasse o
abismo, e uma suspeita reclamasse outra, Vasconcelos perguntou:

 Ter-se-iam eles amado algum tempo?

Pela primeira vez, Vasconcelos sentiu
morder-lhe no corao a serpe do cime.

Do cime digo eu, por eufemismo; no sei
se aquilo era cime; era amor-prprio ofendido.

As suspeitas de Vasconcelos teriam razo?

Devo dizer a verdade: no tinham. Augusta
era vaidosa, mas era fiel ao infiel marido; e isso por dois motivos: um de
conscincia, outro de temperamento. Ainda que ela no estivesse convencida do
seu dever de esposa,  certo que nunca trairia o juramento conjugal. No era
feita para as paixes, a no ser as paixes ridculas que a vaidade impe. Ela
amava antes de tudo a sua prpria beleza; o seu melhor amigo era o que dissesse
que ela era mais bela entre as mulheres; mas se lhe dava a sua amizade, no lhe
daria nunca o corao; isso a salvava.

A verdade  esta; mas quem o diria a
Vasconcelos? Uma vez suspeitoso de que a sua honra estava afetada, Vasconcelos comeou
a recapitular toda a sua vida. Gomes freqentava a sua casa h seis anos, e
tinha nela plena liberdade. A traio era fcil. Vasconcelos entrou a recordar
as palavras, os gestos, os olhares, tudo que antes lhe foi indiferente, e que
naquele momento tomava um carter suspeitoso.

Dois dias andou Vasconcelos cheio deste
pensamento. No saa de casa. Quando Gomes chegava, Vasconcelos observava a
mulher com desusada persistncia; a prpria frieza com que ela recebia o rapaz
era aos olhos do marido uma prova do delito.

Estava nisto, quando na manh do terceiro
dia (Vasconcelos j se levantava cedo) entrou-lhe no gabinete o irmo, sempre
com ar selvagem do costume.

A presena de Loureno inspirou a
Vasconcelos a idia de contar-lhe tudo.

Loureno era um homem de bom senso, e em
caso de necessidade era um apoio.

O irmo ouviu tudo quanto Vasconcelos
contou, e concluindo este, rompeu o seu silncio com estas palavras:

 Tudo isso  uma tolice; se tua mulher recusa
o casamento, ser por qualquer outro motivo que no esse.

 Mas  o casamento com o Gomes que ela
recusa.

 Sim, porque lhe falaste no Gomes;
fala-lhe em outro, talvez recuse do mesmo modo. H de haver outro motivo;
talvez Adelaide lhe contasse, talvez lhe pedisse para opor-se, porque tua filha
no ama o rapaz, e no pode casar com ele.

 No casar.

 No s por isso, mas at porque...

 Acaba.

 At porque este casamento  uma
especulao do Gomes.

 Uma especulao? perguntou Vasconcelos.

 Igual  tua, disse Loureno. Tu ds-lhe
a filha com os olhos na fortuna dele; ele aceita-a com os olhos na tua
fortuna...

 Mas ele possui...

 No possui nada; est arruinado como
tu. Indaguei e soube da verdade. Quer naturalmente continuar a mesma vida
dissipada que teve at hoje, e a tua fortuna  um meio...

 Ests certo disso?

 Certssimo!...

Vasconcelos ficou aterrado. No meio de
todas as suspeitas, ainda lhe restava a esperana de ver a sua honra salva, e realizado
aquele negcio que lhe daria uma excelente situao.

Mas a revelao de Loureno matou-o.

 Se queres uma prova, manda cham-lo, e
dize-lhe que ests pobre, e por isso lhe recusas a filha; observa-o bem, e
vers o efeito que as tuas palavras lhe ho de produzir.

No foi preciso mandar chamar o
pretendente. Da a uma hora apresentou-se ele em casa de Vasconcelos.

Vasconcelos mandou-o subir ao gabinete.

CAPTULO VII

Logo depois dos primeiros cumprimentos
Vasconcelos disse:

 Ia mandar chamar-te.

 Ah! para qu? perguntou Gomes.

 Para conversarmos acerca do...
casamento.

 Ah! h algum obstculo?

 Conversemos.

Gomes tornou-se mais srio; entrevia
alguma dificuldade grande.

Vasconcelos tomou a palavra.

 H circunstncias, disse ele, que devem
ser bem definidas, para que se possa compreender bem...

  a minha opinio.

 Amas minha filha?

 Quantas vezes queres que to diga?

 O teu amor est acima de todas as
circunstncias?...

 De todas, salvo aquelas que entenderem
com a felicidade dela.

 Devemos ser francos; alm de amigo que
sempre foste, s agora quase meu filho... A discrio entre ns seria
indiscreta...

 Sem dvida! respondeu Gomes.

 Vim a saber que os meus negcios param
mal; as despesas que fiz alteraram profundamente a economia da minha vida, de
modo que eu no te minto dizendo que estou pobre.

Gomes reprimiu uma careta.

 Adelaide, continuou Vasconcelos, no
tem fortuna, no ter mesmo dote;  apenas uma mulher que eu te dou. O que te
afiano  que  um anjo, e que h de ser excelente esposa.

Vasconcelos calou-se, e o seu olhar
cravado no rapaz parecia querer arrancar-lhe das feies as impresses da alma.

Gomes devia responder; mas durante alguns
minutos houve entre ambos um profundo silncio.

Enfim o pretendente tomou a palavra.

 Aprecio, disse ele, a tua franqueza, e
usarei de franqueza igual.

 No peo outra coisa...

 No foi por certo o dinheiro que me
inspirou este amor; creio que me fars a justia de crer que eu estou acima
dessas consideraes. Alm de que, no dia em que eu te pedi a querida do meu
corao, acreditava estar rico.

 Acreditavas?

 Escuta. S ontem  que o meu procurador
me comunicou o estado dos meus negcios.

 Mau?

 Se fosse isso apenas! Mas imagina que
h seis meses estou vivendo pelos esforos inauditos que o meu procurador fez
para apurar algum dinheiro, pois que ele no tinha nimo de dizer-me a verdade.
Ontem soube tudo!

 Ah!

 Calcula qual  o desespero de um homem
que acredita estar bem, e reconhece um dia que no tem nada!

 Imagino por mim!

 Entrei alegre aqui, porque a alegria
que eu ainda tenho reside nesta casa; mas a verdade  que estou  beira de um abismo.
A sorte castigou-nos a um tempo...

Depois desta narrao, que Vasconcelos
ouviu sem pestanejar, Gomes entrou no ponto mais difcil da questo.

 Aprecio a tua franqueza, e aceito a tua
filha sem fortuna; tambm eu no tenho, mas ainda me restam foras para
trabalhar.

 Aceitas?

 Escuta. Aceito D. Adelaide, mediante
uma condio;  que ela queira esperar algum tempo, a fim de que eu comece a
minha vida. Pretendo ir ao governo e pedir um lugar qualquer, se  que ainda me
lembro do que aprendi na escola... Apenas tenha comeado a vida, c virei
busc-la. Queres?

 Se ela consentir, disse Vasconcelos
abraando esta tbua de salvao,  coisa decidida.

Gomes continuou:

 Bem, falars nisso amanh, e
mandar-me-s resposta. Ah! se eu tivesse ainda a minha fortuna! Era agora que
eu queria provar-te a minha estima!

 Bem, ficamos nisto.

 Espero a tua resposta.

E despediram-se.

Vasconcelos ficou fazendo esta reflexo:

'De tudo quanto ele disse s
acredito que j no tem nada. Mas  intil esperar: duro com duro no faz bom
muro.'

Pela sua parte Gomes desceu a escada
dizendo consigo:

'O que acho singular  que estando
pobre viesse dizer-mo assim to antecipadamente quando eu estava cado. Mas esperars
debalde: duas metades de cavalo no fazem um cavalo.'

Vasconcelos desceu.

A sua inteno era comunicar a Augusta o
resultado da conversa com o pretendente. Uma coisa, porm, o embaraava: era a
insistncia de Augusta em no consentir no casamento de Adelaide, sem dar
nenhuma razo da recusa.

Ia pensando nisto, quando, ao atravessar
a sala de espera, ouviu vozes na sala de visitas.

Era Augusta que conversava com Carlota.

Ia entrar quando estas palavras lhe
chegaram ao ouvido:

 Mas Adelaide  muito criana.

Era a voz de Augusta.

 Criana! disse Carlota.

 Sim; no est em idade de casar.

 Mas eu no teu caso no punha embargos
ao casamento, ainda que fosse daqui a alguns meses, porque o Gomes no me
parece mau rapaz...

 No ; mas enfim eu no quero que
Adelaide se case.

Vasconcelos colou o ouvido  fechadura, e
temia perder uma s palavra do dilogo.

 O que eu no compreendo, disse Carlota,
 a tua insistncia. Mais tarde ou mais cedo Adelaide h de vir a casar-se.

 Oh! o mais tarde possvel, disse
Augusta.

Houve um silncio.

Vasconcelos estava impaciente.

 Ah! continuou Augusta, se soubesses o
terror que me d a idia do casamento de Adelaide...

 Por que, meu Deus?

 Por que, Carlota? Tu pensas em tudo,
menos numa coisa. Eu tenho medo por causa dos filhos dela que sero meus netos!
A idia de ser av  horrvel, Carlota.

Vasconcelos respirou, e abriu a porta.

 Ah! disse Augusta.

Vasconcelos cumprimentou Carlota, e
apenas esta saiu, voltou-se para a mulher, e disse:

 Ouvi a tua conversa com aquela
mulher...

 No era segredo; mas... que ouviste?

Vasconcelos respondeu sorrindo:

 Ouvi a causa dos teus terrores. No
cuidei nunca que o amor da prpria beleza pudesse levar a tamanho egosmo. O
casamento com o Gomes no se realiza; mas se Adelaide amar algum, no sei como
lhe recusaremos o nosso consentimento...

 At l... esperemos, respondeu Augusta.

A conversa parou nisto; porque aqueles
dois consortes distanciavam-se muito; um tinha a cabea nos prazeres ruidosos
da mocidade, ao passo que a outra meditava exclusivamente em si.

No dia seguinte Gomes recebeu uma carta
de Vasconcelos concebida nestes termos:

Meu Gomes.

Ocorre uma circunstncia inesperada; 
que Adelaide no quer casar. Gastei a minha lgica, mas no alcancei
convenc-la.

Teu Vasconcelos.

Gomes dobrou a carta e acendeu com ela um
charuto, e comeou a fumar fazendo esta reflexo profunda:

'Onde acharei eu uma herdeira que me
queira por marido?'

Se algum souber avise-o em tempo.

Depois do que acabamos de contar,
Vasconcelos e Gomes encontram-se s vezes na rua ou no Alcazar; conversam,
fumam, do o brao um ao outro, exatamente como dois amigos, que nunca foram,
ou como dois velhacos que so.

Confisses de UMA VIVA MOA

NDICE

Captulo Primeiro

Captulo II

Captulo iii

Captulo iv

Captulo v

Captulo vI

Captulo vII

CAPTULO PRIMEIRO

H dois anos tomei uma resoluo
singular: fui residir em Petrpolis em pleno ms de junho. Esta resoluo abriu
largo campo s conjeturas. Tu mesma nas cartas que me escreveste para aqui,
deitaste o esprito a adivinhar e figuraste mil razes, cada qual mais absurda.

A estas cartas, em que a tua solicitude
traa a um tempo dois sentimentos, a afeio da amiga e a curiosidade de
mulher, a essas cartas no respondi e nem podia responder. No era oportuno
abrir-te o meu corao nem desfiar-te a srie de motivos que me arredou da
corte, onde as peras do Teatro Lrico, as tuas partidas e os seres familiares
do primo Barros deviam distrair-me da recente viuvez.

Esta circunstncia de viuvez recente
acreditavam muitos que fosse o nico motivo da minha fuga. Era a verso menos
equvoca. Deixei-a passar como todas as outras e conservei-me em Petrpolis.

Logo no vero
seguinte vieste com teu marido para c, disposta a no voltar para a corte sem
levar o segredo que eu teimava em no revelar. A palavra no fez mais do que a
carta. Fui discreta como um tmulo, indecifrvel como a Esfinge. Depuseste as
armas e partiste.

Desde ento no
me trataste seno por tua Esfinge.

Era Esfinge, era. E se, como dipo,
tivesses respondido ao meu enigma a palavra 'homem', descobririas o
meu segredo, e desfarias o meu encanto.

Mas no antecipemos os acontecimentos,
como se diz nos romances.

 tempo de contar-te este episdio da
minha vida.

Quero faz-lo por cartas e no por boca.
Talvez corasse de ti. Deste modo o corao abre-se melhor e a vergonha no vem
tolher a palavra nos lbios. Repara que eu no falo em lgrimas, o que  um
sintoma de que a paz voltou ao meu esprito.

As minhas cartas iro de oito em oito
dias, de maneira que a narrativa pode fazer-te o efeito de um folhetim de
peridico semanal.

Dou-te a minha palavra de que hs de
gostar e aprender.

E oito dias depois da minha ltima carta
irei abraar-te, beijar-te, agradecer-te. Tenho necessidade de viver. Estes
dois anos so nulos na conta de minha vida: foram dois anos de tdio, de
desespero ntimo, de orgulho abatido, de amor abafado.

Lia,  verdade. Mas s o tempo, a
ausncia, a idia do meu corao enganado, da minha dignidade ofendida, puderam
trazer-me a calma necessria, a calma de hoje.

E sabe que no ganhei s isto. Ganhei
conhecer um homem cujo retrato trago no esprito e que me parece singularmente
parecido com outros muitos. J no  pouco; e a lio h de servir-me, como a
ti, como s nossas amigas inexperientes. Mostra-lhes estas cartas; so folhas
de um roteiro que se eu tivera antes, talvez no houvesse perdido uma iluso e
dois anos de vida.

Devo terminar esta.  o prefcio do meu
romance, estudo, conto, o que quiseres. No questiono sobre a designao, nem
consulto para isso os mestres d'arte.

Estudo ou romance, isto  simplesmente um
livro de verdades, um episdio singelamente contado, na confabulao ntima dos
espritos, na plena confiana de dois coraes que se estimam e se merecem.

Adeus.

CAPTULO II

Era no tempo de meu marido.

A Corte estava ento animada e no tinha
esta cruel monotonia que eu sinto aqui atravs das tuas cartas e dos jornais de
que sou assinante.

Minha casa era um ponto de reunio de
alguns rapazes conversados e algumas moas elegantes. Eu, rainha eleita pelo
voto universal... de minha casa, presidia aos seres familiares. Fora de casa,
tnhamos os teatros animados, as partidas das amigas, mil outras distraes que
davam  minha vida certas alegrias exteriores em falta das ntimas, que so as
nicas verdadeiras e fecundas.

Se eu no era feliz, vivia alegre.

E aqui vai o comeo do meu romance.

Um dia meu marido pediu-me como obsquio
especial que eu no fosse  noite ao Teatro Lrico. Dizia ele que no podia acompanhar-me
por ser vspera de sada de paquete.

Era razovel o pedido.

No sei, porm, que esprito mau
sussurrou-me ao ouvido e eu respondi peremptoriamente que havia de ir ao
teatro, e com ele. Insistiu no pedido, insisti na recusa. Pouco bastou para que
eu julgasse a minha honra empenhada naquilo. Hoje vejo que era a minha vaidade
ou o meu destino.

Eu tinha certa superioridade sobre o
esprito de meu marido. O meu tom imperioso no admitia recusa; meu marido
cedeu a despeito de tudo, e  noite fomos ao Teatro Lrico.

Havia pouca gente e os cantores estavam
endefluxados. No fim do primeiro ato meu marido, com um sorriso vingativo,
disse-me estas palavras rindo-se:

 Estimei isto.

 Isto? perguntei eu franzindo a testa.

 Este espetculo deplorvel. Fizeste da
vinda hoje ao teatro um captulo de honra; estimo ver que o espetculo no
correspondeu  tua expectativa.

 Pelo contrrio, acho magnfico.

 Est bom.

Deves compreender que eu tinha interesse
em me no dar por vencida; mas acreditas facilmente que no fundo eu estava
perfeitamente aborrecida do espetculo e da noite.

Meu marido, que no ousava retorquir,
calou-se com ar de vencido, e adiantando-se um pouco  frente do camarote
percorreu com o binculo as linhas dos poucos camarotes fronteiros em que havia
gente.

Eu recuei a minha cadeira, e, encostada 
diviso do camarote, olhava para o corredor vendo a gente que passava.

No corredor, exatamente em frente  porta
do nosso camarote, estava um sujeito encostado, fumando e com os olhos fitos em
mim. No reparei ao princpio, mas a insistncia obrigou-me a isso. Olhei para
ele a ver se era algum conhecido nosso que esperava ser descoberto a fim de vir
ento cumprimentar-nos. A intimidade podia explicar este brinco. Mas no
conheci.

Depois de alguns segundos, vendo que ele
no tirava os olhos de mim, desviei os meus e cravei-os no pano da boca e na
platia.

Meu marido, tendo acabado o exame dos
camarotes, deu-me o binculo e sentou-se ao fundo diante de mim.

Trocamos algumas palavras.

No fim de um quarto de hora a orquestra
comeou os preldios para o segundo ato. Levantei-me, meu marido aproximou a
cadeira para a frente, e nesse nterim lancei um olhar furtivo para o corredor.

O homem estava l.

Disse a meu marido que fechasse a porta.

Comeou o segundo ato.

Ento, por um esprito de curiosidade,
procurei ver se o meu observador entrava para as cadeiras. Queria conhec-lo
melhor no meio da multido.

Mas, ou porque no entrasse, ou porque eu
no tivesse reparado bem, o que  certo  que o no vi.

Correu o segundo ato mais aborrecido do
que o primeiro.

No intervalo recuei de novo a cadeira, e
meu marido, a pretexto de que fazia calor, abriu a porta do camarote.

Lancei um olhar para o corredor.

No vi ningum; mas da a poucos minutos
chegou o mesmo indivduo, colocando-se no mesmo lugar, e fitou em mim os mesmos
olhos impertinentes.

Somos todas vaidosas da nossa beleza e
desejamos que o mundo inteiro nos admire.  por isso que muitas vezes temos a
indiscrio de admirar a corte mais ou menos arriscada de um homem. H, porm,
uma maneira de faz-la que nos irrita e nos assusta; irrita-nos por
impertinente, assusta-nos por perigosa.  o que se dava naquele caso.

O meu admirador insistia de modo tal que
me levava a um dilema: ou ele era vtima de uma paixo louca, ou possua a
audcia mais desfaada. Em qualquer dos casos no era conveniente que eu
animasse as suas adoraes.

Fiz estas reflexes enquanto decorria o
tempo do intervalo. Ia comear o terceiro ato. Esperei que o mudo perseguidor
se retirasse e disse a meu marido:

 Vamos?

 Ah!

 Tenho sono simplesmente; mas o
espetculo est magnfico.

Meu marido ousou exprimir um sofisma.

 Se est magnfico como te faz sono?

No lhe dei resposta.

Samos.

No corredor encontramos a famlia do
Azevedo que voltava de uma visita a um camarote conhecido. Demorei-me um pouco
para abraar as senhoras. Disse-lhes que tinha uma dor de cabea e que me
retirava por isso.

Chegamos  porta da Rua dos Ciganos.

A esperei o carro por alguns minutos.

Quem me havia de aparecer ali, encostado
ao portal fronteiro?

O misterioso.

Enraiveci.

Cobri o rosto o mais que pude com o meu
capuz e esperei o carro, que chegou logo.

O misterioso l ficou to insensvel e
to mudo como o portal a que estava encostado.

Durante a viagem a idia daquele
incidente no me saiu da cabea. Fui despertada na minha distrao quando o
carro parou  porta da casa, em Mata-cavalos.

Fiquei envergonhada de mim mesma e decidi
no pensar mais no que se havia passado.

Mas acreditars tu, Carlota? Dormi meia
hora mais tarde do que supunha, tanto a minha imaginao teimava em reproduzir
o corredor, o portal, e o meu admirador platnico.

No dia seguinte pensei menos. No fim de
oito dias tinha-me varrido do esprito aquela cena, e eu dava graas a Deus por
haver-me salvo de uma preocupao que podia ser-me fatal.

Quis acompanhar o auxlio divino,
resolvendo no ir ao teatro durante algum tempo.

Sujeitei-me  vida ntima e limitei-me 
distrao das reunies  noite.

Entretanto estava prximo o dia dos anos
da tua filhinha. Lembrei-me que para tomar parte na tua festa de famlia, tinha
comeado um ms antes um trabalhozinho. Cumpria remat-lo.

Uma quinta-feira de manh mandei vir os
preparos da obra e ia continu-la, quando descobri dentre uma meada de l um
invlucro azul fechando uma carta.

Estranhei aquilo. A carta no tinha
indicao. Estava colada e parecia esperar que a abrisse a pessoa a quem era
endereada. Quem seria? Seria meu marido? Acostumada a abrir todas as cartas
que lhe eram dirigidas, no hesitei. Rompi o invlucro e descobri o papel
cor-de-rosa que vinha dentro.

Dizia a carta:

No se surpreenda, Eugnia; este meio  o
do desespero, este desespero  o do amor. Amo-a e muito. At certo tempo
procurei fugir-lhe e abafar este sentimento; no posso mais. No me viu no
Teatro Lrico? Era uma fora oculta e interior que me levava ali. Desde ento
no a vi mais. Quando a verei? No a veja embora, pacincia; mas que o seu
corao palpite por mim um minuto em cada dia,  quanto basta a um amor que no
busca nem as venturas do gozo, nem as galas da publicidade. Se a ofendo, perdoe
um pecador; se pode amar-me, faa-me um deus.

Li esta carta com a mo trmula e os
olhos anuviados; e ainda durante alguns minutos depois no sabia o que era de
mim.

Cruzavam-se e confundiam-se mil idias na
minha cabea, como estes pssaros negros que perpassam em bandos no cu nas
horas prximas da tempestade.

Seria o amor que movera a mo daquele
incgnito? Seria simplesmente aquilo um meio do sedutor calculado? Eu lanava
um olhar vago em derredor e temia ver entrar meu marido.

Tinha o papel diante de mim e aquelas letras
misteriosas pareciam-me outros tantos olhos de uma serpente infernal. Com um
movimento nervoso e involuntrio amarrotei a carta nas mos.

Se Eva tivesse feito outro tanto  cabea
da serpente que a tentava no houvera pecado. Eu no podia estar certa do mesmo
resultado, porque esta que me aparecia ali e cuja cabea eu esmagava, podia,
como a hidra de Lerna, brotar muitas outras cabeas.

No cuides que eu fazia ento esta dupla
evocao bblica e pag. Naquele momento, no refletia, desvairava; s muito
tempo depois pude ligar duas idias.

Dois sentimentos atuavam em mim:
primeiramente, uma espcie de terror que infundia o abismo, abismo profundo que
eu pressentia atrs daquela carta; depois uma vergonha amarga de ver que eu no
estava to alta na considerao daquele desconhecido, que pudesse demov-lo do
meio que empregou.

Quando o meu esprito se acalmou  que eu
pude fazer a reflexo que devia acudir-me desde o princpio. Quem poria ali
aquela carta? Meu primeiro movimento foi para chamar todos os meus fmulos. Mas
deteve-me logo a idia de que por uma simples interrogao nada poderia colher
e ficava divulgado o achado da carta. De que valia isto?

No chamei ningum.

Entretanto, dizia eu comigo, a empresa
foi audaz; podia falhar a cada trmite; que mvel impeliu quele homem a dar
este passo? Seria amor ou seduo?

Voltando a este dilema, meu esprito,
apesar dos perigos, comprazia-se em aceitar a primeira hiptese: era a que
respeitava a minha considerao de mulher casada e a minha vaidade de mulher
formosa.

Quis adivinhar lendo a carta de novo:
li-a, no uma, mas duas, trs, cinco vezes.

Uma curiosidade indiscreta prendia-me
quele papel. Fiz um esforo e resolvi aniquil-lo, protestando que ao segundo
caso nenhum escravo ou criado me ficaria em casa.

Atravessei a sala com o papel na mo,
dirigi-me para o meu gabinete, onde acendi uma vela e queimei aquela carta que
me queimava as mos e a cabea.

Quando a ltima fasca do papel enegreceu
e voou, senti passos atrs de mim. Era meu marido.

Tive um movimento espontneo: atirei-me
em seus braos.

Ele abraou-me com certo espanto.

E quando o meu abrao se prolongava senti
que ele me repelia com brandura dizendo-me:

 Est bom, olha que me afogas!

Recuei.

Estristeceu-me ver aquele homem, que
podia e devia salvar-me, no compreender, por instinto ao menos, que se eu o
abraava to estreitamente era como se me agarrasse  idia do dever.

Mas este sentimento que me apertava o
corao passou um momento para dar lugar a um sentimento de medo. As cinzas da
carta ainda estavam no cho, a vela conservava-se acesa em pleno dia; era
bastante para que ele me interrogasse.

Nem por curiosidade o fez!

Deu dois passos no gabinete e saiu.

Senti uma lgrima rolar-me pela face. No
era a primeira lgrima de amargura. Seria a primeira advertncia do pecado?

CAPTULO III

Decorreu um ms.

No houve durante esse tempo mudana alguma
em casa. Nenhuma carta apareceu mais, e a minha vigilncia, que era extrema,
tornou-se de todo intil.

No me podia esquecer o incidente da
carta. Se fosse s isto! As primeiras palavras voltavam-me incessantemente 
memria; depois, as outras, as outras, todas. Eu tinha a carta de cor!

Lembras-te? Uma das minhas vaidades era
ter a memria feliz. At neste dote era castigada. Aquelas palavras
atordoavam-me, faziam-me arder a cabea. Por qu? Ah! Carlota!  que eu achava
nelas um encanto indefinvel, encanto doloroso, porque era acompanhado de um
remorso, mas encanto de que eu me no podia libertar.

No era o corao que se empenhava, era a
imaginao. A imaginao perdia-me; a luta do dever e da imaginao  cruel e
perigosa para os espritos fracos. Eu era fraca. O mistrio fascinava a minha
fantasia.

Enfim os dias e as diverses puderam
desviar o meu esprito daquele pensamento nico. No fim de um ms, se eu no
tinha esquecido inteiramente o misterioso e a carta dele, estava, todavia,
bastante calma para rir de mim e dos meus temores.

Na noite de uma quinta-feira, achavam-se
algumas pessoas em minha casa, e muitas das minhas amigas, menos tu. Meu marido
no tinha voltado, e a ausncia dele no era notada nem sentida, visto que,
apesar de franco cavalheiro como era, no tinha o dom particular de um conviva
para tais reunies.

Tinha-se cantado, tocado, conversado;
reinava em todos a mais franca e expansiva alegria; o tio da Amlia Azevedo
fazia rir a todos com as suas excentricidades; a Amlia arrebatava bravos a
todos com as notas da sua garganta celeste; estvamos em um intervalo,
esperando a hora do ch.

Anunciou-se meu marido.

No vinha s. Vinha ao lado dele um homem
alto, magro, elegante. No pude conhec-lo. Meu marido adiantou-se, e no meio
do silncio geral veio apresentar-mo.

Ouvi de meu marido que o nosso conviva
chamava-se Emlio.***

Fixei nele um olhar e retive um grito.

Era ele!

O meu grito foi substitudo por um gesto
de surpresa. Ningum percebeu. Ele pareceu perceber menos que ningum. Tinha os
olhos fixos em mim, e com um gesto gracioso dirigiu-me algumas palavras de
lisonjeira cortesia.

Respondi como pude.

Seguiram-se as apresentaes, e durante
dez minutos houve um silncio de acanhamento em todos.

Os olhos voltavam-se todos para o
recm-chegado. Eu tambm voltei os meus e pude reparar naquela figura em que
tudo estava disposto para atrair as atenes: cabea formosa e altiva, olhar
profundo e magntico, maneiras elegantes e delicadas, certo ar distinto e
prprio que fazia contraste com o ar afetado e prosaicamente medido dos outros
rapazes.

Este exame de minha parte foi rpido. Eu
no podia, nem me convinha encontrar o olhar de Emlio. Tornei a abaixar os
olhos e esperei ansiosa que a conversao voltasse de novo ao seu curso.

Meu marido encarregou-se de dar o tom.
Infelizmente era ainda o novo conviva o motivo da conversa geral.

Soubemos ento que Emlio era um
provinciano filho de pais opulentos, que recebera uma esmerada educao na
Europa, onde no houve um s recanto que no visitasse.

Voltara h pouco tempo ao Brasil, e antes
de ir para a provncia tinha determinado passar algum tempo no Rio de Janeiro.

Foi tudo quanto soubemos. Vieram as mil
perguntas sobre as viagens de Emlio, e este com a mais amvel solicitude,
satisfazia a curiosidade geral.

S eu no era curiosa.  que no podia
articular palavra. Pedia interiormente a explicao deste romance misterioso,
comeado em um corredor do teatro, continuado em uma carta annima e na
apresentao em minha casa por intermdio de meu prprio marido.

De quando em quando levantava os olhos
para Emlio e achava-o calmo e frio, respondendo polidamente s interrogaes
dos outros e narrando ele prprio, com uma graa modesta e natural, alguma das
suas aventuras de viagem.

Ocorreu-me uma idia. Seria realmente ele
o misterioso do teatro e da carta? Pareceu-me ao princpio que sim, mas eu
podia ter-me enganado; eu no tinha as feies do outro bem presentes 
memria; parecia-me que as duas criaturas eram uma e a mesma; mas no podia
explicar-se o engano por uma semelhana miraculosa?

De reflexo em reflexo, foi-me correndo
o tempo, e eu assistia  conversa de todos como se no estivesse presente. Veio
a hora do ch. Depois cantou-se e tocou-se ainda. Emlio ouvia tudo com ateno
religiosa e mostrava-se to apreciador do gosto como era conversador discreto e
pertinente.

No fim da noite tinha cativado a todos.
Meu marido, sobretudo, estava radiante. Via-se que ele se considerava feliz por
ter feito a descoberta de mais um amigo para si e um companheiro para as nossas
reunies de famlia.

Emlio saiu prometendo voltar algumas
vezes.

Quando eu me achei a ss com meu marido,
perguntei-lhe:

 Donde conheces este homem?

  uma prola, no ? Foi-me apresentado
no escritrio h dias; simpatizei logo; parece ser dotado de boa alma,  vivo
de esprito e discreto como o bom senso. No h ningum que no goste dele...

E como eu o ouvisse sria e calada, meu
marido interrompeu-se e perguntou-me:

 Fiz mal em traz-lo aqui?

 Mal, por qu? perguntei eu.

 Por coisa nenhuma. Que mal havia de
ser?  um homem distinto...

Pus termo ao novo louvor do rapaz,
chamando um escravo para dar algumas ordens.

E retirei-me ao meu quarto.

O sono dessa noite no foi o sono dos
justos, podes crer. O que me irritava era a preocupao constante em que eu
andava depois destes acontecimentos. J eu no podia fugir inteiramente a essa
preocupao: era involuntria, subjugava-me, arrastava-me. Era a curiosidade do
corao, esse primeiro sinal das tempestades em que sucumbe a nossa vida e o
nosso futuro.

Parece que aquele homem lia na minha alma
e sabia apresentar-se no momento mais prprio a ocupar-me a imaginao como uma
figura potica e imponente. Tu, que o conheceste depois, dize-me se, dadas as
circunstncias anteriores, no era para produzir esta impresso no esprito de
uma mulher como eu!

Como eu, repito. Minhas circunstncias
eram especiais; se no o soubeste nunca, suspeitaste-o ao menos.

Se meu marido tivesse em mim uma mulher,
e se eu tivesse nele um marido, minha salvao era certa. Mas no era assim.
Entramos no nosso lar nupcial como dois viajantes estranhos em uma hospedaria,
e aos quais a calamidade do tempo e a hora avanada da noite obrigam a aceitar
pousada sob o teto do mesmo aposento.

Meu casamento foi resultado de um clculo
e de uma convenincia. No inculpo meus pais. Eles cuidavam fazer-me feliz e
morreram na convico de que o era.

Eu podia, apesar de tudo, encontrar no
marido que me davam um objeto de felicidade para todos os meus dias. Bastava
para isso que meu marido visse em mim uma alma companheira da sua alma, um
corao scio do seu corao. No se dava isto; meu marido entendia o casamento
ao modo da maior parte da gente; via nele a obedincia s palavras do Senhor no
Gnesis.

Fora disso, fazia-me cercar de certa
considerao e dormia tranqilo na convico de que havia cumprido o dever.

O dever! esta era a minha tbua de
salvao. Eu sabia que as paixes no eram soberanas e que a nossa vontade pode
triunfar delas. A este respeito eu tinha em mim foras bastantes para repelir
idias ms. Mas no era o presente que me abafava e atemorizava; era o futuro.
At ento aquele romance influa no meu esprito pela circunstncia do mistrio
em que vinha envolto; a realidade havia de abrir-me os olhos; consolava-me a
esperana de que eu triunfaria de um amor culpado. Mas, poderia nesse futuro,
cuja proximidade eu no calculava, resistir convenientemente  paixo e salvar
intactas a minha considerao e a minha conscincia? Esta era a questo.

Ora, no meio destas oscilaes, eu no
via a mo do meu marido estender-se para salvar-me. Pelo contrrio, quando na
ocasio de queimar a carta, atirava-me a ele, lembras-te que ele me repeliu com
uma palavra de enfado.

Isto pensei, isto senti, na longa noite
que se seguiu  apresentao de Emlio.

No dia seguinte estava fatigada de
esprito; mas, ou fosse calma ou fosse prostrao, senti que os pensamentos
dolorosos que me haviam torturado durante a noite esvaeceram-se  luz da manh,
como verdadeiras aves da noite e da solido.

Ento abriu-se ao meu esprito um raio de
luz. Era a repetio do mesmo pensamento que me voltava no meio das
preocupaes daqueles ltimos dias.

Por que temer? dizia eu comigo. Sou uma
triste medrosa; e fatigo-me em criar montanhas para cair extenuada no meio da
plancie. Eia! nenhum obstculo se ope ao meu caminho de mulher virtuosa e
considerada. Este homem, se  o mesmo, no passa de um mau leitor de romances
realistas. O mistrio  que lhe d algum valor; visto de mais perto h de ser
vulgar ou hediondo.

CAPTULO IV

No te quero fatigar com a narrao
minuciosa e diria de todos os acontecimentos.

Emlio continuou a freqentar a nossa
casa, mostrando sempre a mesma delicadeza e gravidade, e encantando a todos por
suas maneiras distintas sem afetao, amveis sem fingimento.

No sei por que meu marido revelava-se
cada vez mais amigo de Emlio. Este conseguira despertar nele um entusiasmo
novo para mim e para todos. Que capricho era esse da natureza?

Muitas vezes interroguei meu marido
acerca desta amizade to sbita e to estrepitosa; quis at inventar suspeitas
no esprito dele; meu marido era inabalvel.

 Que queres? respondia-me ele. No sei
por que simpatizo extraordinariamente com este rapaz. Sinto que  uma bela
pessoa, e eu no posso dissimular o entusiasmo de que me possuo quando estou
perto dele.

 Mas sem conhec-lo... objetava eu.

 Ora essa! Tenho as melhores
informaes; e demais, v-se logo que  uma pessoa distinta...

 As maneiras enganam muitas vezes.

 Conhece-se...

Confesso, minha amiga, que eu podia impor
a meu marido o afastamento de Emlio; mas quando esta idia me vinha  cabea,
no sei por que ria-me dos meus temores e declarava-me com foras de resistir a
tudo o que pudesse sobrevir.

Demais, o procedimento de Emlio
autorizava-me a desarmar. Ele era para mim de um respeito inaltervel,
tratava-me como a todas as outras, sem deixar entrever a menor inteno oculta,
o menor pensamento reservado.

Sucedeu o que era natural. Diante de tal
procedimento no me ficava bem proceder com rigor e responder com a indiferena
 amabilidade.

As coisas marchavam de tal modo que eu
cheguei a persuadir-me de que tudo o que sucedera antes no tinha relao
alguma com aquele rapaz, e que no havia entre ambos mais do que um fenmeno da
semelhana, o que alis eu no podia afirmar, porque, como te disse j, no
pudera reparar bem no homem do teatro.

Aconteceu que dentro de pouco tempo
estvamos na maior intimidade, e eu era para ele o mesmo que todas as outras:
admiradora e admirada.

Das reunies passou Emlio s simples
visitas de dia, nas horas em que meu marido estava presente, e mais tarde,
mesmo quando ele se achava ausente.

Meu marido de ordinrio era quem o
trazia. Emlio vinha ento no seu carrinho que ele prprio dirigia, com a maior
graa e elegncia. Demorava-se horas e horas em nossa casa, tocando piano ou
conversando.

A primeira vez que o recebi s, confesso que
estremeci; mas foi um susto pueril; Emlio procedeu sempre do modo mais
indiferente em relao s minhas suspeitas. Nesse dia, se algumas me ficaram,
desvaneceram-se todas.

Nisto passaram-se dois meses.

Um dia, era de tarde, eu estava s;
esperava-te para irmos visitar teu pai enfermo. Parou um carro  porta. Mandei
ver. Era Emlio.

Recebi-o como de costume.

Disse-lhe que amos visitar um doente, e
ele quis logo sair. Disse-lhe que ficasse at  tua chegada. Ficou como se
outro motivo o detivesse alm de um dever de cortesia.

Passou-se meia hora.

Nossa conversa foi sobre assuntos
indiferentes.

Em um dos intervalos da conversa Emlio
levantou-se e foi  janela. Eu levantei-me igualmente para ir ao piano buscar
um leque. Voltando para o sof reparei pelo espelho que Emlio me olhava com um
olhar estranho. Era uma transfigurao. Parecia que naquele olhar estava
concentrada toda a alma dele.

Estremeci.

Todavia fiz um esforo sobre mim e fui
sentar-me, ento mais sria que nunca.

Emlio encaminhou-se para mim.

Olhei para ele.

Era o mesmo olhar.

Baixei os meus olhos.

 Assustou-se? perguntou-me ele.

No respondi nada. Mas comecei a tremer
de novo e parecia-me que o corao me queria pular fora do peito.

 que naquelas palavras havia a mesma
expresso do olhar; as palavras faziam-me o efeito das palavras da carta.

 Assustou-se? repetiu ele.

 De qu? perguntei eu procurando rir
para no dar maior gravidade  situao.

 Pareceu-me.

Houve um silncio.

 D. Eugnia, disse ele sentando-se; no
quero por mais tempo ocultar o segredo que faz o tormento da minha vida. Fora
um sacrifcio intil. Feliz ou infeliz, prefiro a certeza da minha situao. D.
Eugnia, eu amo-a.

No te posso descrever como fiquei,
ouvindo estas palavras. Senti que empalidecia; minhas mos estavam geladas.
Quis falar: no pude.

Emlio continuou:

 Oh! eu bem sei a que me exponho. Vejo
como este amor  culpado. Mas que quer?  fatalidade. Andei tantas lguas,
passei  ilharga de tantas belezas, sem que o meu corao pulsasse. Estava-me
reservada a ventura rara ou o tremendo infortnio de ser amado ou desprezado
pela senhora. Curvo-me ao destino. Qualquer que seja a resposta que eu possa
obter, no recuso, aceito. Que me responde?

Enquanto ele falava, eu podia,
ouvindo-lhe as palavras, reunir algumas idias. Quando ele acabou levantei os
olhos e disse:

 Que resposta espera de mim?

 Qualquer.

 S pode esperar uma...

 No me ama?

 No! Nem posso e nem amo, nem amaria se
pudesse ou quisesse... Peo que se retire.

E levantei-me.

Emlio levantou-se.

 Retiro-me, disse ele; e parto com o
inferno no corao.

Levantei os ombros em sinal de
indiferena.

 Oh! eu bem sei que isso lhe 
indiferente.  isso o que eu mais sinto. Eu preferia o dio; o dio, sim; mas a
indiferena, acredite,  o pior castigo. Mas eu o recebo resignado. Tamanho
crime deve ter tamanha pena.

E tomando o chapu chegou-se a mim de
novo.

Eu recuei dois passos.

 Oh! no tenha medo. Causo-lhe medo?

 Medo? retorqui eu com altivez.

 Asco? perguntou ele.

 Talvez... murmurei.

 Uma nica resposta, tornou Emlio;
conserva aquela carta?

 Ah! disse eu. Era o autor da carta?

 Era. E aquele misterioso do corredor do
Teatro Lrico. Era eu. A carta?

 Queimei-a.

 Preveniu o meu pensamento.

E cumprimentando-me friamente dirigiu-se
para a porta. Quase a chegar  porta senti que ele vacilava e levava a mo ao
peito.

Tive um momento de piedade. Mas era
necessrio que ele se fosse, quer sofresse quer no. Todavia, dei um passo para
ele e perguntei-lhe de longe:

 Quer dar-me uma resposta?

Ele parou e voltou-se.

 Pois no!

 Como  que para praticar o que praticou
fingiu-se amigo de meu marido?

 Foi um ato indigno, eu sei; mas o meu
amor  daqueles que no recuam ante a indignidade.  o nico que eu compreendo.
Mas, perdo; no quero enfad-la mais. Adeus! Para sempre!

E saiu.

Pareceu-me ouvir um soluo.

Fui sentar-me ao sof. Da a pouco ouvi o
rodar do carro.

O tempo que mediou entre a partida dele e
a tua chegada no sei como se passou. No lugar em que fiquei a me achaste.

At ento eu no tinha visto o amor seno
nos livros. Aquele homem parecia-me realizar o amor que eu sonhara e vira
descrito. A idia de que o corao de Emlio sangrava naquele momento,
despertou em mim um sentimento vivo de piedade. A piedade foi um primeiro
passo.

'Quem sabe, dizia eu comigo mesma, o
que ele est agora sofrendo? E que culpa  a dele, afinal de contas? Ama-me,
disse-mo; o amor foi mais forte do que a razo; no viu que eu era sagrada para
ele; revelou-se. Ama,  a sua desculpa.'

Depois repassava na memria todas as
palavras dele e procurava recordar-me do tom em que ele as proferira.
Lembrava-me tambm do que eu dissera e o tom com que respondera s suas
confisses.

Fui talvez severa demais. Podia manter a
minha dignidade sem abrir-lhe uma chaga no corao. Se eu falasse com mais
brandura podia adquirir dele o respeito e a venerao. Agora h de amar-me
ainda, mas no se recordar do que se passou sem um sentimento de amargura.

Estava nestas reflexes quando entraste.

Lembras-te que me achaste triste e
perguntaste a causa disso. Nada te respondi. Fomos  casa da tua tia, sem que
eu nada mudasse do ar que tinha antes.

 noite quando meu marido me perguntou
por Emlio, respondi sem saber o que respondia:

 No veio c hoje.

 Deveras? disse ele. Ento est doente.

 No sei.

 L vou amanh.

 L onde?

  casa dele.

 Para qu?

 Talvez esteja doente.

 No creio; esperemos at ver...

Passei uma noite angustiosa. A idia de
Emlio perturbava-me o sono. Afigurava-se-me que ele estaria quela hora
chorando lgrimas de sangue no desespero do amor no aceito.

Era piedade? Era amor?

Carlota, era uma e outra coisa. Que podia
ser mais? Eu tinha posto o p em uma senda fatal; uma fora me atraa. Eu
fraca, podendo ser forte. No me inculpo seno a mim.

At domingo.

CAPTULO V

Na tarde seguinte, quando meu marido
voltou perguntei por Emlio.

 No o procurei, respondeu-me ele; tomei
o conselho; se no vier hoje, sim.

Passou-se, pois, um dia sem ter notcias
dele.

No dia seguinte, no tendo aparecido, meu
marido foi l.

Serei franca contigo, eu mesma lembrei
isso a meu marido.

Esperei ansiosa a resposta.

Meu marido voltou pela tarde. Tinha um
certo ar triste. Perguntei o que havia.

 No sei. Fui encontrar o rapaz de cama.
Disse-me que era uma ligeira constipao; mas eu creio que no  isso s...

 Que ser ento? perguntei eu, fitando
um olhar em meu marido.

 Alguma coisa mais. O rapaz falou-me em
embarcar para o Norte. Est triste, distrado, preocupado. Ao mesmo tempo que
manifesta a esperana de ver os pais, revela receios de no tornar a v-los.
Tem idias de morrer na viagem. No sei que lhe aconteceu, mas foi alguma
coisa. Talvez...

 Talvez?

 Talvez alguma perda de dinheiro.

Esta resposta transtornou o meu esprito.
Posso afirmar-te que esta resposta entrou por muito nos acontecimentos
posteriores.

Depois de algum silncio perguntei:

 Mas que pretendes fazer?

 Abrir-me com ele. Perguntar o que , e
acudir-lhe se for possvel. Em qualquer caso no o deixarei partir. Que achas?

 Acho que sim.

Tudo o que ia acontecendo contribua
poderosamente para tornar a idia de Emlio cada vez mais presente  minha
memria, e,  com dor que o confesso, no pensava j nele sem pulsaes do
corao.

Na noite do dia seguinte estvamos
reunidas algumas pessoas. Eu no dava grande vida  reunio. Estava triste e
desconsolada. Estava com raiva de mim prpria. Fazia-me algoz de Emlio e
doa-me a idia de que ele padecesse ainda mais por mim.

Mas, seriam nove horas, quando meu marido
apareceu trazendo Emlio pelo brao.

Houve um movimento geral de surpresa.

Realmente porque Emlio no aparecia
alguns dias j todos comeavam a perguntar por ele; depois, porque o pobre moo
vinha plido de cera.

No te direi o que se passou nessa noite.
Emlio parecia sofrer, no estava alegre como dantes; ao contrrio, era naquela
noite de uma taciturnidade, de uma tristeza que incomodava a todos, mas que me
mortificava atrozmente, a mim que me fazia causa das suas dores.

Pude falar-lhe em uma ocasio, a alguma
distncia das outras pessoas.

 Desculpe-me, disse-lhe eu, se alguma
palavra dura lhe disse. Compreende a minha posio. Ouvindo bruscamente o que
me disse no pude pensar no que dizia. Sei que sofreu; peo-lhe que no sofra
mais, que esquea...

 Obrigado, murmurou ele.

 Meu marido falou-me de projetos seus...

 De voltar  minha provncia,  verdade.

 Mas doente...

 Esta doena h de passar.

E dizendo isto lanou-me um olhar to sinistro
que eu tive medo.

 Passar? passar como?

 De algum modo.

 No diga isso...

 Que me resta mais na terra?

E voltou os olhos para enxugar uma
lgrima.

 Que  isso? disse eu. Est chorando?

 As ltimas lgrimas.

 Oh! se soubesse como me faz sofrer! No
chore; eu lho peo. Peo-lhe mais. Peo-lhe que viva.

 Oh!

 Ordeno-lhe.

 Ordena-me? E se eu no obedecer? Se eu
no puder?... Acredita que se possa viver com um espinho no corao?

Isto que te escrevo  feio. A maneira por
que ele falava  que era apaixonada, dolorosa, comovente. Eu ouvia sem saber de
mim. Aproximavam-se algumas pessoas. Quis pr termo  conversa e disse-lhe:

 Ama-me? disse eu. S o amor pode
ordenar? Pois  o amor que lhe ordena que viva!

Emlio fez um gesto de alegria.
Levantei-me para ir falar s pessoas que se aproximavam.

 Obrigado, murmurou-me ele aos ouvidos.

Quando, no fim do sero, Emlio se despediu
de mim, dizendo-me, com um olhar em que a gratido e o amor irradiavam juntos:
 At amanh! - no sei que sentimento de confuso e de amor, de remorso e de
ternura se apoderou de mim.

 Bem; Emlio est mais alegre, dizia-me
meu marido.

Eu olhei para ele sem saber o que
responder.

Depois retirei-me precipitadamente.
Parecia-me que via nele a imagem da minha conscincia.

No dia seguinte recebi de Emlio esta
carta:

Eugnia. Obrigado. Torno-me  vida, e 
senhora o devo. Obrigado! fez de um cadver um homem, faa agora de um homem um
deus. nimo! nimo!

Li esta carta, reli, e... dir-to-ei,
Carlota? beijei-a. Beijei-a repetidas vezes com alma, com paixo, com delrio.
Eu amava! eu amava!

Ento houve em mim a mesma luta, mas estava
mudada a situao dos meus sentimentos. Antes era o corao que fugia  razo,
agora a razo fugia ao corao.

Era um crime, eu bem o via, bem o sentia;
mas no sei qual era a minha fatalidade, qual era a minha natureza; eu achava
nas delcias do crime desculpa ao meu erro, e procurava com isso legitimar a
minha paixo.

Quando meu marido se achava perto de mim
eu me sentia melhor e mais corajosa...

Paro aqui desta vez. Sinto uma opresso
no peito.  a recordao de todos estes acontecimentos.

At domingo.

CAPTULO VI

Seguiram-se alguns dias s cenas que eu
te contei na minha carta passada.

Ativou-se entre mim e Emlio uma
correspondncia. No fim de quinze dias eu s vivia do pensamento dele.

Ningum dos que freqentavam a nossa casa,
nem mesmo tu, pde descobrir este amor. ramos dois namorados discretos ao
ltimo ponto.

 certo que muitas vezes me perguntavam
por que  que eu me distraa tanto e andava to melanclica; isto chamava-me 
vida real e eu mudava logo de parecer.

Meu marido sobretudo parecia sofrer com
as minhas tristezas.

A sua solicitude, confesso,
incomodava-me. Muitas vezes lhe respondia mal, no j porque eu o odiasse, mas
porque de todos era ele o nico a quem eu no quisera ouvir destas
interrogaes.

Um dia voltando para casa  tarde
chegou-se ele a mim e disse:

 Eugnia, tenho uma notcia a dar-te.

 Qual?

 E que te h de agradar muito.

 Vejamos qual .

  um passeio.

 Aonde?

 A idia foi minha. J fui ao Emlio e
ele aplaudiu muito. O passeio deve ser domingo  Gvea; iremos daqui muito
cedinho. Tudo isto,  preciso notar, no est decidido. Depende de ti. O que
dizes?

 Aprovo a idia.

 Muito bem. A Carlota pode ir.

 E deve ir, acrescentei eu; e algumas
outras amigas.

Pouco depois recebias tu e outras um
bilhete de convite para o passeio.

Lembras-te que l fomos. O que no sabes
 que nesse passeio, a favor da confuso e a distrao geral, houve entre mim e
Emlio um dilogo que foi para mim a primeira amargura de amor.

 Eugnia, dizia ele dando-me o brao,
ests certa de que me amas?

 Estou.

 Pois bem. O que te peo, nem sou eu que
te peo,  o meu corao, o teu corao que te pedem, um movimento nobre e
capaz de nos engrandecer aos nossos prprios olhos. No haver um recanto no
mundo em que possamos viver, longe de todos e perto do cu?

 Fugir?

 Sim!

 Oh! isso nunca!

 No me amas.

 Amo, sim;  j um crime, no quero ir
alm.

 Recusas a felicidade?

 Recuso a desonra.

 No me amas.

 Oh! meu Deus, como respond-lo? Amo,
sim; mas desejo ficar a seus olhos a mesma mulher, amorosa  verdade, mas at
certo ponto... pura.

 O amor que calcula, no  amor.

No respondi. Emlio disse estas palavras
com uma expresso tal de desdm e com uma inteno de ferir-me que eu senti o
corao bater-me apressado, e subir-me o sangue ao rosto.

O passeio acabou mal.

Esta cena tornou Emlio frio para mim; eu
sofria com isso; procurei torn-lo ao estado anterior; mas no consegui.

Um dia em que nos achvamos a ss,
disse-lhe:

 Emlio, se eu amanh te acompanhasse, o
que farias?

 Cumpria essa ordem divina.

 Mas depois?

 Depois? perguntou Emlio com ar de quem
estranhava a pergunta.

 Sim, depois? continuei eu. Depois
quando o tempo volvesse no me havias de olhar com desprezo?

 Desprezo? No vejo...

 Como no? Que te mereceria eu depois?

 Oh! esse sacrifcio seria feito por
minha causa, eu fora covarde se te lanasse isso em rosto.

 Di-lo-ias no teu ntimo.

 Juro que no.

 Pois a meus olhos  assim; eu nunca me
perdoaria esse erro.

Emlio ps o rosto nas mos e pareceu
chorar. Eu que at ali falava com esforo, fui a ele e tirei-lhe o rosto das
mos.

 Que  isto? disse eu. No vs que me
fazes chorar tambm?

Ele olhou para mim com os olhos rasos de
lgrimas. Eu tinha os meus midos.

 Adeus, disse ele repentinamente. Vou
partir.

E deu um passo para a porta.

 Se me prometes viver, disse-lhe, parte;
se tens alguma idia sinistra, fica.

No sei o que viu ele no meu olhar, mas
tomando a mo que eu lhe estendia beijou-a repetidas vezes (eram os primeiros
beijos) e disse-me com fogo:

 Fico, Eugnia!

Ouvimos um rudo fora. Mandei ver. Era
meu marido que chegava enfermo. Tinha tido um ataque no escritrio. Tornara a
si, mas achava-se mal. Alguns amigos o trouxeram dentro de um carro.

Corri para a porta. Meu marido vinha
plido e desfeito. Mal podia andar ajudado pelos amigos.

Fiquei desesperada, no cuidei de mais
coisa alguma. O mdico que acompanhara meu marido mandou logo fazer algumas
aplicaes de remdios. Eu estava impaciente; perguntava a todos se meu marido
estava salvo.

Todos me tranqilizavam.

Emlio mostrou-se pesaroso com o
acontecimento. Foi a meu marido e apertou-lhe a mo.

Quando Emlio quis sair, meu marido
disse-lhe:

 Olhe, sei que no pode estar aqui
sempre; peo-lhe, porm, que venha, se puder, todos os dias.

 Pois no, disse Emlio.

E saiu.

Meu marido passou mal o resto daquele dia
e a noite. Eu no dormi. Passei a noite no quarto.

No dia seguinte estava exausta. Tantas
comoes diversas e uma viglia to longa deixaram-me prostrada: cedia  fora
maior. Mandei chamar a prima Elvira e fui deitar-me.

Fecho esta carta neste ponto. Pouco falta
para chegar ao termo da minha triste narrao.

At domingo.

CAPTULO VII

A molstia de meu marido durou poucos
dias. De dia para dia agravava-se. No fim de oito dias os mdicos desenganaram
o doente.

Quando recebi esta fatal nova fiquei como
louca. Era meu marido, Carlota, e apesar de tudo eu no podia esquecer que ele
tinha sido o companheiro da minha vida e a idia salvadora nos desvios do meu
esprito.

Emlio achou-me num estado de desespero.
Procurou consolar-me. Eu no lhe ocultei que esta morte era um golpe profundo
para mim.

Uma noite estvamos juntos todos, eu, a
prima Elvira, uma parenta de meu marido e Emlio. Fazamos companhia ao doente.
Este, depois de um longo silncio, voltou-se para mim e disse-me:

 A tua mo.

E apertando-me a mo com uma energia
suprema, voltou-se para a parede.

Expirou.

.................................................................................................................................................................................

Passaram-se quatro meses depois dos fatos
que te contei. Emlio acompanhou-me na dor e foi dos mais assduos em todas as
cerimnias fnebres que se fizeram ao meu finado marido.

Todavia, as visitas comearam a
escassear. Era, parecia-me, por motivo de uma delicadeza natural.

No fim do prazo de que te falei, soube,
por boca de um dos amigos de meu marido, que Emlio ia partir. No pude crer.
Escrevi-lhe uma carta.

Eu amava-o ento, como dantes, mais
ainda, agora que estava livre.

Dizia a carta:

Emlio.

Constou-me que ias partir. Ser possvel?
Eu mesma no posso acreditar nos meus ouvidos! Bem sabes se eu te amo. No 
tempo de coroar os nossos votos; mas no faltar muito para que o mundo nos
revele uma unio que o amor nos impe. Vem tu mesmo responder-me por boca.

Tua Eugnia.

Emlio veio em pessoa. Asseverou-me que,
se ia partir, era por negcio de pouco tempo, mas que voltaria logo. A viagem
devia ter lugar da a oito dias.

Pedi-lhe que jurasse o que dizia, e ele
jurou.

Deixei-o partir.

Da a quatro dias recebia eu a seguinte
carta dele:

Menti, Eugnia; vou partir j. Menti
ainda, eu no volto. No volto porque no posso. Uma unio contigo seria para
mim o ideal da felicidade se eu no fosse homem de hbitos opostos ao
casamento. Adeus. Desculpa-me, e reza para que eu faa uma boa viagem. Adeus.

Emlio.

Avalias facilmente como fiquei depois de
ler esta carta. Era um castelo que se desmoronava. Em troca do meu amor, do meu
primeiro amor, recebia deste modo a ingratido e o desprezo. Era justo: aquele
amor culpado no podia ter bom fim; eu fui castigada pelas conseqncias mesmo
do meu crime.

Mas, perguntava eu, como  que este
homem, que parecia amar-me tanto, recusou aquela de cuja honestidade podia estar
certo, visto que pde opor uma resistncia aos desejos de seu corao? Isto me
pareceu um mistrio. Hoje vejo que no era; Emlio era um sedutor vulgar e s
se diferenava dos outros em ter um pouco mais de habilidade que eles.

Tal  a minha histria. Imagina o que
sofri nestes dois anos. Mas o tempo  um grande mdico: estou curada.

O amor ofendido e o remorso de haver de
algum modo trado a confiana de meu esposo fizeram-me doer muito. Mas eu creio
que caro paguei o meu crime e acho-me reabilitada perante a minha conscincia.

Achar-me-ei perante Deus?

E tu?  o que me hs de explicar amanh;
vinte e quatro horas depois de partir esta carta eu serei contigo.

Adeus!

LINHA RETA E LINHA CURVA

NDICE

CAPTULO
PRIMEIRO

CAPTULO II

CAPTULO III

CAPTULO IV

CAPTULO PRIMEIRO

Era em Petrpolis, no ano de 186... J se
v que a minha histria no data de longe.  tomada dos anais contemporneos e
dos costumes atuais. Talvez algum dos leitores conhea at as personagens que
vo figurar neste pequeno quadro. No ser raro que, encontrando uma delas
amanh, Azevedo, por exemplo, um dos meus leitores exclame:

 Ah! c vi uma histria em que se falou
de ti. No te tratou mal o autor. Mas a semelhana era tamanha, houve to pouco
cuidado em disfarar a fisionomia, que eu,  proporo que voltava a pgina,
dizia comigo:  o Azevedo, no h dvida.

Feliz Azevedo! A hora em que comea essa
narrativa  ele um marido feliz, inteiramente feliz. Casado de fresco,
possuindo por mulher a mais formosa dama da sociedade, e a melhor alma que ainda
se encarnou ao sol da Amrica, dono de algumas propriedades bem situadas e
perfeitamente rendosas, acatado, querido, descansado, tal  o nosso Azevedo, a
quem por cmulo de ventura coroam os mais belos vinte e seis anos.

Deu-lhe a fortuna um emprego suave: no
fazer nada. Possui um diploma de bacharel em direito; mas esse diploma nunca
lhe serviu; existe guardado no fundo da lata clssica em que o trouxe da
Faculdade de So Paulo. De quando em quando Azevedo faz uma visita ao diploma,
alis ganho legitimamente, mas  para no o ver mais seno da a longo tempo.
No  um diploma,  uma relquia.

Quando Azevedo saiu da faculdade de So
Paulo e voltou para a fazenda da provncia de Minas Gerais, tinha um projeto:
ir  Europa. No fim de alguns meses o pai consentiu na viagem, e Azevedo
preparou-se para realiz-la. Chegou  corte no propsito firme de tomar lugar
no primeiro paquete que sasse; mas nem tudo depende da vontade do homem.
Azevedo foi a um baile antes de partir; a estava armada uma rede em que ele
devia ser colhido. Que rede! Vinte anos, uma figura delicada, esbelta,
franzina, uma dessas figuras vaporosas que parecem desfazer-se ao primeiro raio
do sol. Azevedo no foi senhor de si: apaixonou-se; da a um ms casou-se, e
da a oito dias partiu para Petrpolis.

Que casa encerraria aquele casal to
belo, to amante e to feliz? No podia ser mais prpria a casa escolhida; era
um edifcio leve, delgado, elegante, mais de recreio que de morada; um
verdadeiro ninho para aquelas duas pombas fugitivas.

A nossa histria comea exatamente trs
meses depois da ida para Petrpolis. Azevedo e a mulher amavam-se ainda como no
primeiro dia. O amor tomava ento uma fora maior e nova;  que... devo
diz-lo,  casais de trs meses?  que apontava no horizonte o primeiro filho.
Tambm a terra e o cu se alegram quando aponta no horizonte o primeiro raio do
sol. A figura no vem aqui por simples ornato de estilo;  uma deduo lgica:
a mulher de Azevedo chamava-se Adelaide.

Era, pois, em Petrpolis, numa tarde de
dezembro de 186... Azevedo e Adelaide estavam no jardim que ficava em frente da
casa onde ocultavam a sua felicidade. Azevedo lia alto; Adelaide ouvia-o ler,
mas como se ouve um eco do corao, tanto a voz do marido e as palavras da obra
correspondiam ao sentimento interior da moa.

No fim de algum tempo Azevedo deteve-se e
perguntou:

 Queres que paremos aqui?

 Como quiseres, disse Adelaide.

  melhor, disse Azevedo fechando o
livro. As coisas boas no se gozam de uma assentada. Guardemos um pouco para a
noite. Demais, era j tempo que eu passasse do idlio escrito para o idlio
vivo. Deixa-me olhar para ti.

Adelaide olhou para ele e disse:

 Parece que comeamos a lua-de-mel.

 Parece e , acrescentou Azevedo; e se o
casamento no fosse eternamente isto, o que poderia ser? A ligao de duas
existncias para meditar discretamente na melhor maneira de comer o maxixe e o
repolho? Ora, pelo amor de Deus! Eu penso que o casamento deve ser um namoro
eterno. No pensas como eu?

 Sinto, disse Adelaide.

 Sentes,  quanto basta.

 Mas que as mulheres sintam  natural;
os homens...

 Os homens, so homens.

 O que nas mulheres  sentimento, nos
homens  pieguice; desde pequena me dizem isto.

 Enganam-te desde pequena, disse Azevedo
rindo.

 Antes isso!

  a verdade. E desconfia sempre dos que
mais falam, sejam homens ou mulheres. Tens perto um exemplo. A Emlia fala
muito da sua iseno. Quantas vezes se casou? At aqui duas, e est nos vinte e
cinco anos. Era melhor calar-se mais e casar-se menos.

 Mas nela  brincadeira, disse Adelaide.

 Pois no. O que no  brincadeira  que
os trs meses do nosso casamento parecem-me trs minutos...

 Trs meses! exclamou Adelaide.

 Como foge o tempo! disse Azevedo.

 Dirs sempre o mesmo? perguntou
Adelaide com um gesto de incredulidade.

Azevedo abraou-a e perguntou:

 Duvidas?

 Receio.  to bom ser feliz!

 S-lo-s sempre e do mesmo modo. De
outro no entendo eu.

Neste momento ouviram os dois uma voz que
partia da porta do jardim.

 O que  que no entendes? dizia essa
voz.

Olharam.

 porta do jardim estava um homem alto,
bem parecido, trajando com elegncia, luvas cor de palha, chicotinho na mo.

Azevedo pareceu ao princpio no
conhec-lo. Adelaide olhava para um e para outro sem compreender nada. Tudo
isto, porm, no passou de um minuto; no fim dele Azevedo exclamou:

  o Tito! Entra, Tito!

Tito entrou galhardamente no jardim;
abraou Azevedo e fez um cumprimento gracioso a Adelaide.

  minha mulher, disse Azevedo
apresentando Adelaide ao recm-chegado.

 J o suspeitava, respondeu Tito; e
aproveito a ocasio para dar-te os meus parabns.

 Recebeste a nossa carta de
participao?

 Em Valparaso.

 Anda sentar-te e conta-me a tua viagem.

 Isso  longo, disse Tito sentando-se. O
que te posso contar  que desembarquei ontem no Rio. Tratei de indagar a tua
morada. Disseram-me que estavas temporariamente em Petrpolis. Descansei, mas logo
hoje tomei a barca da Prainha e aqui estou. Eu j suspeitava que com o teu
esprito de poeta irias esconder tua felicidade em algum recanto do mundo. Com
efeito, isto  verdadeiramente uma nesga do paraso. Jardim, caramanches, uma
casa leve e elegante, um livro. Bravo! Marlia de Dirceu...  completo! Tityre,
tu patulae. Caio no meio de um idlio. Pastorinha, onde est o cajado?

Adelaide ri s gargalhadas.

Tito continua:

 Ri mesmo como uma pastorinha alegre. E tu,
Tecrito, que fazes? Deixas correr os dias como as guas do Paraba? Feliz
criatura!

 Sempre o mesmo! disse Azevedo.

 O mesmo doido? Acha que ele tem razo,
minha senhora?

 Acho, se o no ofendo...

 Qual ofender! Se eu at me honro com
isso; sou um doido inofensivo, isso  verdade. Mas  que realmente so felizes
como poucos. H quantos meses se casaram?

 Trs meses faz domingo, respondeu
Adelaide.

 Disse h pouco que me pareciam trs
minutos, acrescentou Azevedo.

Tito olhou para ambos e disse sorrindo:

 Trs meses, trs minutos! Eis toda a
verdade da vida. Se os pusessem sobre uma grelha, como So Loureno, cinco
minutos eram cinco meses. E ainda se fala em tempo! H l tempo! O tempo est
nas nossas impresses. H meses para os infelizes e minutos para os venturosos!

 Mas que ventura! exclama Azevedo.

 Completa, no? Imagino! Marido de um
serafim, nas graas e no corao, no reparei que estava aqui... mas no
precisa corar!... Disto me h de ouvir vinte vezes por dia; o que penso, digo.
Como no te ho de invejar os nossos amigos!

 Isso no sei.

 Pudera! Encafuado neste desvo do
mundo, de nada podes saber. E fazes bem. Isto de ser feliz  vista de todos 
repartir a felicidade. Ora, para respeitar o princpio devo ir-me j embora...

Dizendo isto, Tito levantou-se.

 Deixa-te disso: fica conosco.

 Os verdadeiros amigos tambm so a
felicidade, disse Adelaide.

 Ah!

  at bom que aprendas em nossa escola
a cincia do casamento, acrescentou Azevedo.

 Para qu? perguntou Tito meneando o
chicotinho.

 Para te casares.

 Hum!... fez Tito.

 No pretende? perguntou Adelaide.

 Ests ainda o mesmo que em outro tempo?

 O mesmssimo, respondeu Tito.

Adelaide fez um gesto de curiosidade e
perguntou:

 Tem horror ao casamento?

 No tenho vocao, respondeu Tito. 
puramente um caso de vocao. Quem a no tiver no se meta nisso, que  perder
o tempo e o sossego. Desde muito tempo estou convencido disto.

 Ainda te no bateu a hora.

 Nem bate, disse Tito.

 Mas, se bem me lembro, disse Azevedo
oferecendo-lhe um charuto, houve um dia em que fugiste s teorias do costume:
andavas ento apaixonado...

 Apaixonado,  engano. Houve um dia em
que a Providncia trouxe uma confirmao aos meus instintos solitrios. Meti-me
a pretender uma senhora...

  verdade: foi um caso engraado.

 Como foi o caso? perguntou Adelaide.

 O Tito viu em um baile uma rapariga. No
dia seguinte apresenta-se em casa dela, e, sem mais nem menos, pede-lhe a mo.
Ela responde... que te respondeu?

 Respondeu por escrito que eu era um
tolo e me deixasse daquilo. No disse positivamente tolo, mas vinha a dar na
mesma.  preciso confessar que semelhante resposta no era prpria. Voltei
atrs e nunca mais amei.

 Mas amou naquela ocasio? perguntou
Adelaide.

 No sei se era amor, respondeu Tito,
era uma coisa... Mas note, isto foi h uns bons cinco anos. Da para c ningum
mais me fez bater o corao.

 Pior para ti.

 Eu sei! disse Tito levantando os
ombros. Se no tenho os gozos ntimos do amor, no tenho nem os dissabores, nem
os desenganos.  j uma grande fortuna!

 No verdadeiro amor no h nada disso, disse
sentenciosamente a mulher de Azevedo.

 No h? Deixemos o assunto; eu podia
fazer um discurso a propsito, mas prefiro...

 Ficar conosco, Azevedo atalhou-o. Est
sabido.

 No tenho essa inteno.

 Mas tenho eu. Hs de ficar.

 Mas se eu j mandei o criado tomar
alojamento no Hotel de Bragana...

 Pois manda contra-ordem. Fica comigo.

 Insisto em no perturbar a tua paz.

 Deixa-te disso.

 Fique! disse Adelaide.

 Ficarei.

 E amanh, continuou Adelaide, depois de
ter descansado, h de nos dizer qual  o segredo da iseno de que tanto se
ufana.

 No h segredo, disse Tito. O que h 
isto. Entre um amor que se oferece e... uma partida de voltarete, no hesito,
atiro-me ao voltarete. A propsito, Ernesto, sabes que encontrei no Chile um
famoso parceiro de voltarete? Fez a casca mais temerria que tenho visto...
sabe o que  uma casca, minha senhora?

 No, respondeu Adelaide.

 Pois eu lhe explico.

Azevedo olhou para fora e disse:

 A chega a D. Emlia.

Com efeito  porta do jardim parava uma
senhora dando o brao a um velho de cinqenta anos.

D. Emlia era uma moa a que se pode
chamar uma bela mulher; era alta na estatura e altiva de carter. O amor que
pudesse infundir seria por imposio. De suas maneiras e das suas graas
inspirava um no sei que de rainha que dava vontade de lev-la a um trono.

Trajava com elegncia e simplicidade. Ela
tinha essa elegncia natural que  outra elegncia diversa da elegncia dos
enfeites, a propsito da qual j tive ocasio de escrever esta mxima:
'Que h pessoas elegantes, e pessoas enfeitadas.'

Olhos negros e rasgados, cheios de luz e
de grandeza, cabelos castanhos e abundantes, nariz reto como o de Safo, boca
vermelha e breve, faces de cetim, colo e braos como os das esttuas, tais eram
os traos da beleza de Emlia.

Quanto ao velho que lhe dava o brao,
era, como disse, um homem de cinqenta anos. Era o que se chama em portugus
cho e rude, - um velho gaiteiro. Pintado, espartilhado, via-se nele uma como que
runa do passado reconstruda por mos modernas, de modo a ter esse aspecto
bastardo que no  nem a austeridade da velhice, nem a frescura da mocidade.
No havia dvida de que o velho devia ter sido um belo rapaz em seus tempos;
mas presentemente, se algumas conquistas tivesse feito, s podia contentar-se
com a lembrana delas.

Quando Emlia entrou no jardim todos se
achavam de p. A recm-chegada apertou a mo a Azevedo e foi beijar Adelaide.
Ia sentar-se na cadeira que Azevedo lhe oferecera quando reparou em Tito que se
achava a um lado.

Os dois cumprimentaram-se, mas com ar
diferente. Tito parecia tranqilo e friamente polido; mas Emlia, depois de
cumpriment-lo, conservou os olhos fitos nele, como que avocando uma memria do
passado.

Feitas as apresentaes necessrias, e a
Diogo Franco ( o nome do velho braceiro), todos tomaram assentos.

A primeira que falou foi Emlia:

 Ainda hoje no vinha se no fosse a
obsequiosidade do Sr. Diogo.

Adelaide olhou para o velho e disse:

 O Sr. Diogo  uma maravilha.

Diogo empertigou-se e murmurou com certo
tom de modstia:

 Nem tanto, nem tanto.

 , , disse Emlia. No  talvez uma,
porm duas maravilhas. Ah! sabes que me vai fazer um presente?

 Um presente! exclamou Azevedo.

  verdade, continuou Emlia, um
presente que mandou vir da Europa e l dos confins; recordaes das suas
viagens de adolescente...

Diogo estava radiante.

  uma insignificncia, disse ele
olhando ternamente para Emlia.

 Mas o que ? perguntou Adelaide.

 ... adivinhem?  um urso branco!

 Um urso branco!

 Deveras?

 Est para chegar, mas s ontem  que me
deu notcia dele. Que amvel lembrana!

 Um urso! exclamou ainda Azevedo.

Tito inclinou-se ao ouvido do amigo, e disse
em voz baixa:

 Com ele fazem dois.

Diogo jubiloso pelo efeito que causava a
notcia do presente, mas iludido no carter desse efeito disse:

 No vale a pena.  um urso que eu
mandei vir;  verdade que eu pedi dos mais belos. No sabem o que  um urso
branco. Imaginem que  todo branco.

 Ah! disse Tito.

  um animal admirvel! tornou Diogo.

 Acho que sim, disse Tito. Ora imagina
tu o que no ser um urso branco que  todo branco. Que faz este sujeito?
perguntou ele em seguida a Azevedo.

 Namora a Emlia; tem cinqenta contos.

 E ela?

 No faz caso dele.

 Diz ela?

 E  verdade.

Enquanto os dois trocavam estas palavras,
Diogo brincava com os sinetes do relgio e as duas senhoras conversavam. Depois
das ltimas palavras entre Azevedo e Tito, Emlia voltou-se para o marido de
Adelaide e perguntou:

 D-se isto, Sr. Azevedo? Ento faz-se
anos nesta casa e no me convidam?

 Mas a chuva? disse Adelaide.

 Ingrata! Bem sabes que no h chuva em casos
tais.

 Demais, acrescentou Azevedo, fez-se a
festa to  capucha.

 Fosse como fosse, eu sou de casa.

  que a lua-de-mel continua apesar de
cinco meses, disse Tito.

 A vens tu com os teus epigramas, disse
Azevedo.

 Ah! isso  mau, Sr. Tito!

 Tito? perguntou Emlia a Adelaide em
voz baixa.

 Sim.

 D. Emlia no sabe ainda quem  o nosso
amigo Tito, disse Azevedo. Eu at tenho medo de diz-lo.

 Ento  muito feio o que tem para
dizer?

 Talvez, disse Tito com indiferena.

 Muito feio! exclamou Adelaide.

 O que  ento? perguntou Emlia.

  um homem incapaz de amar, continuou
Adelaide. No pode haver maior indiferena para o amor... Em resumo, prefere a
um amor... o qu? um voltarete.

 Disse-te isso? perguntou Emlia.

 E repito, disse Tito. Mas note bem, no
por elas,  por mim. Acredito que todas as mulheres sejam credoras da minha
adorao; mas eu  que sou feito de modo que nada mais lhes posso conceder do
que uma estima desinteressada.

Emlia olhou para o moo e disse:

 Se no  vaidade,  doena.

 H de me perdoar, mas eu creio que no
 doena, nem vaidade.  natureza: uns aborrecem as laranjas, outros aborrecem
os amores: agora se o aborrecimento vem por causa das cascas, no sei; o que 
certo  que  assim.

  ferino! disse Emlia olhando para
Adelaide.

 Ferino, eu? disse Tito levantando-se.
Sou uma seda, uma dama, um milagre de brandura... Di-me, deveras, que eu no
possa estar na linha dos outros homens, e no seja, como todos, propenso a receber
as impresses amorosas, mas que quer? a culpa no  minha.

 Anda l, disse Azevedo, o tempo te h
de mudar.

 Mas quando? Tenho vinte e nove anos
feitos.

 J vinte e nove? perguntou Emlia.

 Completei-os pela Pscoa.

 No parece.

 So os seus bons olhos.

A conversa continuou por este modo, at
que se anunciou o jantar. Emlia e Diogo tinham jantado, ficaram apenas para
fazer companhia ao casal Azevedo e a Tito, que declarou desde o princpio estar
caindo de fome.

A conversa durante o jantar versou sobre
coisas indiferentes.

Quando se servia o caf apareceu  porta
um criado do hotel em que morava Diogo; trazia uma carta para este, com
indicao no sobrescrito de que era urgente. Diogo recebeu a carta, leu-a e
pareceu mudar de cor. Todavia continuou a tomar parte na conversa geral. Aquela
circunstncia, porm, deu lugar a que Adelaide perguntasse a Emlia:

 Quando te deixar este eterno namorado?

 Eu sei c! respondeu Emlia. Mas afinal
de contas, no  mau homem. Tem aquela mania de me dizer no fim de todas as
semanas que nutre por mim uma ardente paixo.

 Enfim, se no passa de declarao
semanal...

 No passa. Tem a vantagem de ser um
braceiro infalvel para a rua e um realejo menos mau dentro de casa. J me
contou umas cinqenta vezes as batalhas amorosas em que entrou. Todo o seu
desejo  acompanhar-me a uma viagem  roda do globo. Quando me fala nisto, se 
 noite, e  quase sempre  noite, mando vir o ch, excelente meio de
aplacar-lhe os ardores amorosos. Gosta do ch que se pela. Gosta tanto como de
mim! Mas aquela do urso branco? E se realmente mandou vir um urso?

 Aceita.

 Pois eu hei de sustentar um urso? No
me faltava mais nada!

Adelaide sorriu-se e disse:

 Quer me parecer que acabas por te apaixonar...

 Por quem? Pelo urso?

 No, pelo Diogo.

Neste momento achavam-se as duas perto de
uma janela. Tito conversava no sof com Azevedo. Diogo refletia profundamente,
estendido numa poltrona.

Emlia tinha os olhos em Tito. Depois de
um silncio, disse ela para Adelaide:

 Que achas ao tal amigo do teu marido?
Parece um presumido. Nunca se apaixonou!  crvel?

 Talvez seja verdade.

 No acredito. Pareces criana! Diz
aquilo dos dentes para fora...

  verdade que no tenho maior conhecimento
dele...

 Quanto a mim, pareceu-me no ser
estranha aquela cara... mas no me lembro!

 Parece ser sincero... mas dizer aquilo
 j atrevimento.

 Est claro...

 De que te ris?

 Lembra-me um do mesmo gnero que este,
disse Emlia. Foi j h tempos. Andava sempre a gabar-se da sua iseno. Dizia
que todas as mulheres eram para ele vasos da China: admirava-as e nada mais.
Coitado! Caiu em menos de um ms. Adelaide, vi-o beijar-me a ponta dos
sapatos... depois do que desprezei-o.

 Que fizeste?

 Ah! no sei o que fiz. Santa Astcia
foi quem operou o milagre. Vinguei o sexo e abati um orgulhoso.

 Bem feito!

 No era menos do que este. Mas falemos
de coisas srias... Recebi as folhas francesas de modas...

 Que h de novo?

 Muita coisa. Amanh tas mandarei.
Repara em um novo corte de mangas.  lindssimo. J mandei encomendas para a
corte. Em artigos de passeios h fartura e do melhor.

 Para mim quase que  intil mandar.

 Por qu?

 Quase nunca saio de casa.

 Nem ao menos irs jantar comigo no dia
de ano-bom!

 Oh! com toda a certeza!

 Pois vai... Ah! ir o homem? O Sr.
Tito?

 Se estiver c... e quiseres...

 Pois que v, no faz mal... saberei
cont-lo... Creio que no ser sempre to... incivil. Nem sei como podes ficar
com esse sangue-frio! A mim faz-me mal aos nervos!

 -me indiferente.

 Mas a injria ao sexo... no te
indigna?

 Pouco.

 s feliz.

 Que queres que eu faa a um homem que diz
aquilo? Se no fosse casada era possvel que me indignasse mais. Se fosse livre
era provvel que lhe fizesse o que fizeste ao outro. Mas eu no posso cuidar
dessas coisas...

 Nem ouvindo a preferncia do voltarete?
Pr-nos abaixo da dama de copas! E o ar com que ele diz aquilo! Que calma, que
indiferena!

  mau!  mau!

 Merecia castigo...

 Merecia. Queres tu castig-lo?

Emlia fez um gesto de desdm e disse:

 No vale a pena.

 Mas tu castigaste o outro.

 Sim... mas no vale a pena.

 Dissimulada!

 Por que dizes isso?

 Porque j te vejo meio tentada a uma
nova vingana...

 Eu? Ora qual!

 Que tem? No  crime...

 No , decerto; mas... veremos.

 Ah! sers capaz?

 Capaz? disse Emlia com um gesto de
orgulho ofendido.

 Beijar-te- ele a ponta do sapato?

Emlia ficou silenciosa por alguns
momentos; depois apontando com o leque para a botina que lhe calava o p,
disse:

 E ho de ser estes.

Emlia e Adelaide se dirigiram para o lado
em que se achavam os homens. Tito, que parecia conversar intimamente com
Azevedo, interrompeu a conversa para dar ateno s senhoras. Diogo continuava
mergulhado na sua meditao.

 Ento o que  isso, Sr. Diogo?
perguntou Tito. Est meditando?

 Ah! perdo, estava distrado!

 Coitado! disse Tito baixo a Azevedo.

Depois, voltando-se para as senhoras:

 No as incomoda o charuto?

 No senhor, disse Emlia.

 Ento, posso continuar a fumar?

 Pode, disse Adelaide.

  um mau vcio, mas  o meu nico
vcio. Quando fumo parece que aspiro a eternidade. Enlevo-me todo e mudo de
ser. Divina inveno!

 Dizem que  excelente para os desgostos
amorosos, disse Emlia com inteno.

 Isso no sei. Mas no  s isto. Depois
da inveno do fumo no h solido possvel.  a melhor companhia deste mundo.
Demais, o charuto  um verdadeiro Memento homo: convertendo-se pouco a
pouco em cinzas, vai lembrando ao homem o fim real e infalvel de todas as
coisas:  o aviso filosfico,  a sentena fnebre que nos acompanha em toda a
parte. J  um grande progresso... Mas estou eu a aborrecer com uma dissertao
to pesada. Ho de desculpar... que foi descuido. Ora, a falar a verdade, eu j
vou desconfiando; Vossa Excelncia olha com olhos to singulares...

Emlia, a quem era dirigida a palavra,
respondeu:

 No sei se so singulares, mas so os
meus.

 Penso que no so os do costume. Est
talvez Vossa Excelncia a dizer consigo que eu sou um esquisito, um singular,
um...

 Um vaidoso,  verdade.

 Stimo mandamento: no levantar falsos
testemunhos.

 Falsos, diz o mandamento.

 No me dir em que sou eu vaidoso?

 Ah! a isso no respondo eu.

 Por que no quer?

 Porque... no sei.  uma coisa que se
sente, mas que se no pode descobrir. Respira-lhe a vaidade em tudo: no olhar,
na palavra, no gesto... mas no se atina com a verdadeira origem de tal doena.

  pena. Eu tinha grande prazer em ouvir
da sua boca o diagnstico da minha doena. Em compensao pode ouvir da minha o
diagnstico da sua... A sua doena ... Digo?

 Pode dizer.

  um despeitozinho.

 Deveras?

 Vamos ver isso, disse Azevedo rindo-se.

Tito continuou:

 Despeito pelo que eu disse h pouco.

 Puro engano! disse Emlia rindo-se.

  com toda a certeza. Mas  tudo
gratuito. Eu no tenho culpa de coisa alguma. A natureza  que me fez assim.

 S a natureza?

 E um tanto de estudo. Ora vou expor-lhe
as minhas razes. Veja se posso amar ou pretender: primeiro, no sou bonito...

 Oh!... disse Emlia.

 Agradeo o protesto, mas continuo na
mesma opinio: no sou bonito, no sou...

 Oh!... disse Adelaide.

 Segundo: no sou curioso, e o amor, se
o reduzirmos s suas verdadeiras propores, no passa de uma curiosidade;
terceiro: no sou paciente, e nas conquistas amorosas a pacincia  a principal
virtude; quarto, finalmente: no sou idiota, porque, se com todos estes
defeitos pretendesse amar, mostraria a maior falta de razo. Aqui est o que eu
sou por natural e por indstria.

 Emlia, parece que  sincero.

 Acreditas?

 Sincero como a verdade, disse Tito.

 Em ltimo caso, seja ou no seja
sincero, que tenho eu com isso?

 Eu creio que nada, disse Tito.

CAPTULO II

No dia seguinte quele em que se passaram
as cenas descritas no captulo anterior, entendeu o cu que devia regar com as
suas lgrimas o solo da formosa Petrpolis.

Tito, que destinava esse dia a ver toda a
cidade, foi obrigado a conservar-se em casa. Era um amigo que no incomodava,
porque quando era de mais sabia escapar-se discretamente, e quando o no era,
tornava-se o mais delicioso dos companheiros.

Tito sabia juntar muita jovialidade a
muita delicadeza; sabia fazer rir sem saltar fora das convenincias. Acrescia
que, voltando de uma longa e pitoresca viagem, trazia as algibeiras da memria
(deixem passar a frase) cheias de vivas reminiscncias. Tinha feito uma viagem
de poeta e no de peralvilho. Soube ver e sabia contar. Estas duas qualidades,
indispensveis ao viajante, por desgraa so as mais raras. A maioria das
pessoas que viajam nem sabem ver, nem sabem contar.

Tito tinha andado por todas as repblicas
do mar Pacfico, tinha vivido no Mxico e em alguns Estados americanos. Tinha depois
ido  Europa no paquete da linha de Nova Iorque. Viu Londres e Paris. Foi 
Espanha, onde viveu a vida de Almaviva, dando serenatas s janelas das Rosinas
de hoje. Trouxe de l alguns leques e mantilhas. Passou  Itlia e levantou o
esprito  altura das recordaes da arte clssica. Viu a sombra de Dante nas
ruas de Florena; viu as almas dos doges pairando saudosas sobre as guas
vivas do mar Adritico; a terra de Rafael, de Virglio e Miguel ngelo foi
para ele uma fonte viva de recordaes do passado e de impresses para o
futuro. Foi  Grcia, onde soube evocar o esprito das geraes extintas que
deram ao gnio da arte e da poesia um fulgor que atravessou as sombras dos
sculos.

Viajou ainda mais o nosso heri, e tudo
viu com olhos de quem sabe ver e tudo contava com alma de quem sabe contar.
Azevedo e Adelaide passavam horas esquecidas.

 Do amor, dizia ele, eu s sei que  uma
palavra de quatro letras, um tanto eufnica,  verdade, mas nncia de lutas e
desgraas. Os bons amores so cheios de felicidade, porque tm a virtude de no
alarem olhos para as estrelas do cu; contentam-se com ceias  meia-noite e
alguns passeios a cavalo ou por mar.

Esta era a linguagem constante de Tito.
Exprimia ela a verdade, ou era uma linguagem de conveno? Todos acreditavam
que a verdade estava na primeira hiptese, at porque essa era de acordo com o
esprito jovial e folgazo de Tito.

No primeiro dia da residncia de Tito em
Petrpolis, a chuva, como disse acima, impediu que os diversos personagens desta
histria se encontrassem. Cada qual ficou na sua casa. Mas o dia imediato foi
mais benigno; Tito aproveitou o bom tempo para ir ver a risonha cidade da
serra. Azevedo e Adelaide quiseram acompanh-lo; mandaram aparelhar trs
ginetes prprios para o ligeiro passeio.

Na volta foram visitar Emlia. Durou
poucos minutos a visita. A bela viva recebeu-os com graa e cortesia de
princesa. Era a primeira vez que Tito l ia; e fosse por isso, ou por outra
circunstncia, foi ele quem mereceu as principais atenes da dona da casa.

Diogo, que ento fazia a sua centsima
declarao de amor a Emlia, e a quem Emlia acabava de oferecer uma chvena de
ch, no viu com bons olhos a demasiada ateno que o viajante merecia da dama dos
seus pensamentos. Essa, e talvez outras circunstncias, faziam com que o velho
Adnis assistisse  conversao com a cara fechada.

 despedida Emlia ofereceu a casa a
Tito, com a declarao de que teria a mesma satisfao em receb-lo muitas
vezes. Tito aceitou cavalheiramente o oferecimento; feito o que, saram todos.

Cinco dias depois desta visita Emlia foi
 casa de Adelaide. Tito no estava presente; andava a passeio. Azevedo tinha
sado para um negcio, mas voltou da a alguns minutos. Quando, depois de uma
hora de conversa, Emlia j de p preparava-se para voltar  casa, entrou Tito.

 Ia sair quando entrou, disse Emlia.
Parece que nos contrariamos em tudo.

 No  por minha vontade, respondeu
Tito; pelo contrrio, meu desejo  no contrariar pessoa alguma, e portanto no
contrariar Vossa Excelncia.

 No parece.

 Por qu?

Emlia sorriu e disse com uma inflexo de
censura:

 Sabe que me daria prazer se utilizasse
do oferecimento de minha casa; ainda se no utilizou. Foi esquecimento?

 Foi.

  muito amvel...

 Sou muito franco. Eu sei que Vossa
Excelncia preferia uma delicada mentira; mas eu no conheo nada mais delicado
que a verdade.

Emlia sorriu.

Nesse momento entrou Diogo.

 Ia sair, D. Emlia? perguntou ele.

 Esperava o seu brao.

 Aqui o tem.

Emlia despediu-se de Azevedo e de
Adelaide. Quanto a Tito, no momento em que ele curvava-se respeitosamente,
Emlia disse-lhe com a maior placidez da alma:

 H algum to delicado como a verdade:
 o Sr. Diogo. Espero dizer o mesmo...

 De mim? interrompeu Tito. Amanh mesmo.

Emlia saiu pelo brao de Diogo.

No dia seguinte, com efeito, Tito foi 
casa de Emlia. Ela o esperava com certa impacincia. Como no soubesse a hora
em que ele devia apresentar-se l, a bela viva esperou-o a todos os momentos,
desde manh. S ao cair da tarde  que Tito dignou-se aparecer.

Emlia morava com uma tia velha. Era uma
boa senhora, amiga da sobrinha, e inteiramente escrava da sua vontade. Isto
quer dizer que no havia em Emlia o menor receio que a boa tia no assinasse
de antemo.

Na sala em que Tito foi recebido no
estava ningum. Ele teve portanto tempo de sobra para examin-la  vontade. Era
uma sala pequena, mas mobiliada e adornada com gosto. Mveis leves, elegantes e
ricos; quatro finssimas estatuetas, copiadas de Pradier, um piano de Erard,
tudo disposto e arranjado com vida.

Tito gastou o primeiro quarto de hora no
exame da sala e dos objetos que a enchiam. Esse exame devia influir muito no
estudo que ele quisesse fazer do esprito da moa. Dize-me como moras,
dir-te-ei quem s.

Mas o primeiro quarto de hora correu sem
que aparecesse viva alma, nem que se ouvisse rumor de natureza alguma. Tito
comeou a impacientar-se. J sabemos que esprito brusco era ele, apesar da
suprema delicadeza que todos lhe reconheciam. Parece, porm, que a sua rudeza,
quase sempre exercida contra Emlia, era antes estudada que natural. O que 
certo  que no fim de meia hora, aborrecido pela demora, Tito murmurou consigo:

 Quer tomar desforra!

E tomando o chapu que havia posto numa
cadeira ia dirigindo-se para a porta quando ouviu um farfalhar de sedas. Voltou
a cabea; Emlia entrava.

 Fugia?

  verdade.

 Perdoe a demora.

 No h que perdoar; no podia vir, era
natural que fosse por algum motivo srio. Quanto a mim no tenho igualmente de
que pedir perdo. Esperei, estava cansado, voltaria em outra ocasio. Tudo isto
 natural.

Emlia ofereceu uma cadeira a Tito e
sentou-se num sof.

 Realmente, disse ela acomodando o
balo, o Sr. Tito  um homem original.

  a minha glria. No imagina como eu
aborreo as cpias. Fazer o que muita gente faz, que mrito h nisso? No nasci
para esses trabalhos de imitao.

 J uma coisa fez como muita gente.

 Qual foi?

 Prometeu-me ontem esta visita e veio
cumprir a promessa.

 Ah! minha senhora, no lance isto 
conta das minhas virtudes. Podia no vir; vim; no foi vontade, foi... acaso.

 Em todo caso, agradeo-lhe.

  o meio de me fechar a sua porta.

 Por qu?

 Porque eu no me dou com esses
agradecimentos; nem creio mesmo que eles possam acrescentar nada  minha
admirao pela pessoa de Vossa Excelncia. Fui visitar muitas vezes as esttuas
dos museus da Europa, mas se elas se lembrassem de me agradecer um dia, dou-lhe
a minha palavra que no voltava l.

A estas palavras seguiu-se um silncio de
alguns segundos.

Emlia foi quem falou primeiro.

 H muito tempo que se d com o marido
de Adelaide?

 Desde criana, respondeu Tito.

 Ah! foi criana?

 Ainda hoje sou.

  exatamente o tempo das minhas
relaes com Adelaide. Nunca me arrependi.

 Nem eu.

 Houve um tempo, prosseguiu Emlia, em
que estivemos separadas; mas isso no trouxe mudana alguma s nossas relaes.
Foi no tempo do meu primeiro casamento.

 Ah! foi casada duas vezes?

 Em dois anos.

 E por que enviuvou da primeira?

 Porque meu marido morreu, disse Emlia
rindo-se.

 Mas eu pergunto outra coisa. Por que se
fez viva, mesmo depois da morte de seu primeiro marido? Creio que poderia
continuar casada.

 De que modo? perguntou Emlia com
espanto.

 Ficando mulher do finado. Se o amor
acaba na sepultura acho que no vale a pena de procur-lo neste mundo.

 Realmente o Sr. Tito  um esprito fora
do comum.

 Um tanto.

  preciso que o seja para desconhecer
que a nossa vida no importa essas exigncias da eterna fidelidade. E demais,
pode-se conservar a lembrana dos que morrem sem renunciar s condies da
nossa existncia. Agora  que eu lhe pergunto por que me olha com olhos to
singulares?...

 No sei se so singulares, mas so os
meus.

 Ento, acha que eu cometi uma bigamia?

 Eu no acho nada. Ora, deixe-me
dizer-lhe a ltima razo da minha incapacidade para os amores.

 Sou toda ouvidos.

 Eu no creio na fidelidade.

 Em absoluto?

 Em absoluto.

 Muito obrigada.

 Ah! eu sei que isto no  delicado; mas
em primeiro lugar, eu tenho a coragem das minhas opinies, e em segundo foi
Vossa Excelncia quem me provocou.  infelizmente verdade, eu no creio nos
amores leais e eternos. Quero faz-la minha confidente. Houve um dia em que eu
tentei amar; concentrei todas as foras vivas do meu corao; dispus-me a
reunir o meu orgulho e a minha iluso na cabea do objeto amado. Que lio
mestra! O objeto amado, depois de me alimentar as esperanas, casou-se com
outro que no era nem mais bonito, nem mais amante.

 Que prova isso? perguntou a viva.

 Prova que me aconteceu o que pode
acontecer e acontece diariamente aos outros.

 Ora...

 H de me perdoar, mas eu creio que 
uma coisa j metida na massa do sangue...

 No diga isso.  certo que podem
acontecer casos desses; mas sero todos assim? No admite uma exceo?
Aprofunde mais os coraes alheios se quiser encontrar a verdade... e h de
encontrar.

 Qual! disse Tito abaixando a cabea e
batendo com a bengala na ponta do p.

 Posso afirm-lo, disse Emlia.

 Duvido.

 Tenho pena de uma criatura assim,
continuou a viva. No conhecer o amor  no conhecer a vida! H nada igual 
unio de duas almas que se adoram? Desde que o amor entra no corao, tudo se
transforma, tudo muda, a noite parece dia, a dor assemelha-se ao prazer... Se
no conhece nada disto, pode morrer, porque  o mais infeliz dos homens.

 Tenho lido isso nos livros, mas ainda
no me convenci...

 J reparou na minha sala?

 J vi alguma coisa.

 Reparou naquela gravura?

Tito olhou para a gravura que a viva lhe
indicava.

 Se me no engano, disse ele, aquilo  o
Amor domando as feras.

 Veja e convena-se.

 Com a opinio do desenhista? perguntou
Tito. No  possvel. Tenho visto gravuras vivas. Tenho servido de alvo a
muitas setas; crivam-me todo, mas eu tenho a fortaleza de S. Sebastio;
afronto, no me curvo.

 Que orgulho!

 O que pode fazer dobrar uma altivez
destas? A beleza? Nem Clepatra. A castidade? Nem Susana. Resuma, se quiser,
todas as qualidades em uma s criatura, e eu no mudarei...  isto e nada mais.

Emlia levantou-se e dirigiu-se para o
piano.

 No aborrece a msica? perguntou ela
abrindo o piano.

 Adoro-a, respondeu o moo sem se mover;
agora quanto aos executantes s gosto dos bons. Os maus d-me mpetos de
enforc-los.

Emlia executou ao piano os preldios de
uma sinfonia. Tito ouvia-a com a mais profunda ateno. Realmente a bela viva
tocava divinamente.

 Ento, disse ela levantando-se, devo
ser enforcada?

 Deve ser coroada. Toca perfeitamente.

 Outro ponto em que no  original. Toda
a gente me diz isso.

 Ah! eu tambm no nego a luz do sol.

Neste momento entrou na sala a tia de
Emlia. Esta apresentou-lhe Tito. A conversa tomou ento um tom pessoal e
reservado; durou pouco, alis, porque Tito, travando repentinamente do chapu,
declarou que tinha que fazer.

 At quando?

 At sempre.

Despediu-se e saiu.

Emlia ainda o acompanhou com os olhos
por algum tempo, da janela da casa. Mas Tito, como se o caso no fosse com ele,
seguiu sem olhar para trs.

Mas, exatamente no momento em que Emlia
voltava para dentro, Tito encontrava o velho Diogo.

Diogo ia na direo da casa da viva.
Tinha um ar pensativo. To distrado ia que chegou quase a esbarrar com Tito.

 Onde vai to distrado? perguntou Tito.

 Ah!  o senhor? Vem da casa de D.
Emlia?

 Venho.

 Eu para l vou. Coitada! h de estar
muito impaciente com a minha demora.

 No est, no senhor, respondeu Tito
com o maior sangue-frio.

Diogo lanou-lhe um olhar de despeito.

A isso seguiu-se um silncio de alguns
minutos, durante o qual Diogo brincava com a corrente do relgio, e Tito
lanava ao ar novelos de fumaa de um primoroso havana. Um desses novelos foi
desenrolar-se na cara de Diogo. O velho tossiu e disse a Tito:

 Apre l, Sr. Tito!  demais!

 O qu, meu caro senhor? perguntou o rapaz.

 At a fumaa!

 Foi sem reparar. Mas eu no compreendo
as suas palavras...

 Eu me fao explicar, disse o velho
tomando um ar risonho. D-me o seu brao...

 Pois no!

E os dois seguiram conversando como dois
amigos velhos.

 Estou pronto a ouvir a sua explicao.

 L vai. Sabe o que eu quero?  que seja
franco. No ignora que eu suspiro aos ps da viva. Peo-lhe que no discuta o
fato, admita-o simplesmente. At aqui tudo ia caminhando bem, quando o senhor
chegou a Petrpolis.

 Mas...

 Oua-me silenciosamente. Chegou o
senhor a Petrpolis, e sem que eu lhe tivesse feito mal algum, entendeu de si
para si que me havia de tirar do lance. Desde ento comeou a corte...

 Meu caro Sr. Diogo, tudo isso  uma
fantasia. Eu no fao a corte a D. Emlia, nem pretendo fazer-lha. V-me acaso
freqentar a casa dela?

 Acaba de sair de l.

  a primeira vez que a visito.

 Quem sabe?

 Demais, ainda ontem no ouviu em casa
de Azevedo as expresses com que ela se despediu de mim? No so de mulher
que...

 Ah! isso no prova nada. As mulheres, e
sobretudo aquela, nem sempre dizem o que sentem...

 Ento acha que aquela sente alguma
coisa por mim?...

 Se no fosse isso, no lhe falaria.

 Ah! ora eis a uma novidade.

 Suspeito apenas. Ela s me fala do
senhor; indaga-me vinte vezes por dia de sua pessoa, dos seus hbitos, do seu
passado e das suas opinies... Eu, como h de acreditar, respondo a tudo que
no sei, mas vou criando um dio ao senhor, do qual no me poder jamais
criminar.

  culpa minha se ela gosta de mim? Ora,
v descansado, Sr. Diogo. Nem ela gosta de mim, nem eu gosto dela. Trabalhe
desassombradamente e seja feliz.

 Feliz! se eu pudesse ser! Mas no...
no creio; a felicidade no se fez para mim. Olhe, Sr. Tito, amo aquela mulher
como se pode amar a vida. Um olhar dela vale mais para mim que um ano de
glrias e de felicidade.  por ela que eu tenho deixado os meus negcios  toa.
No viu outro dia que uma carta me chegou s mos, cuja leitura me fez
entristecer? Perdi uma causa. Tudo por qu? por ela!

 Mas, ela no lhe d esperanas?

 Eu sei o que  aquela moa! Ora
trata-me de modo que eu vou ao stimo cu; ora  tal a sua indiferena que me
atira ao inferno. Hoje um sorriso, amanh um gesto de desdm. Ralha-me de no
visit-la; vou visit-la, ocupa-se tanto de mim como de Ganimedes; Ganimedes
 o nome de um cozinho felpudo que eu lhe dei. Importa-se tanto comigo como
com o cachorro...  de propsito.  um enigma aquela moa.

 Pois no serei eu quem o decifre, Sr.
Diogo. Desejo-lhe muita felicidade. Adeus.

E os dois separaram-se. Diogo seguiu para
a casa de Emlia, Tito para a casa de Azevedo.

Tito acabava de saber que a viva pensava
nele; todavia, isso no lhe dera o menor abalo. Por qu?  o que saberemos mais
adiante. O que  preciso dizer desde j,  que as mesmas suspeitas despertadas
no esprito de Diogo, tivera a mulher de Azevedo. A intimidade de Emlia dava lugar
a uma franca interrogao e a uma confisso franca. Adelaide, no dia seguinte
quele em que se passou a cena que referi acima, disse a Emlia o que pensava.

A resposta da viva foi uma risada.

 No te compreendo, disse a mulher de
Azevedo.

  simples, disse a viva. Julgas-me
capaz de apaixonar-me pelo amigo de teu marido? Enganas-te. No, eu no o amo.
Somente, como te disse no dia em que o vi aqui pela primeira vez, empenho-me em
t-lo a meus ps. Se bem me recordo foste tu mesma quem me deu conselho.
Aceitei-o. Hei de vingar o nosso sexo.  um pouco de vaidade minha, embora; mas
eu creio que aquilo que nenhuma fez, f-lo-ei eu.

 Ah! cruelzinha!  isso?

 Nem mais, nem menos.

 Achas possvel?

 Por que no?

 Reflete que a derrota ser dupla...

 Ser, mas no h de haver.

Esta conversa foi interrompida por
Azevedo. Um sinal de Emlia fez calar Adelaide. Ficou convencionado que nem
mesmo Azevedo saberia de coisa alguma. E, com efeito, Adelaide nada comunicou a
seu marido.

CAPTULO III

Tinham-se passado oito dias depois do que
acabo de narrar.

Tito, como o temos visto at aqui, estava
no terreno do primeiro dia. Passeava, lia, conversava e parecia inteiramente
alheio aos planos que se tramavam em roda dele. Durante esse tempo foi apenas
duas vezes  casa de Emlia, uma com a famlia de Azevedo, outra com Diogo.
Nestas visitas era sempre o mesmo, frio, indiferente, impassvel. No havia
olhar, por mais sedutor e significativo, que o abalasse; nem a idia de que
andava no pensamento da viva era capaz de anim-lo.

 Por que, ao menos, se no  capaz de
amar, no procura entreter um desses namoros de sala, que tanto lisonjeiam a
vaidade dos homens?

Esta pergunta era feita por Emlia a si
mesma, sob a impresso da estranheza que lhe causava a indiferena do rapaz.
Ela no compreendia que Tito pudesse conservar-se de gelo diante dos seus
encantos. Mas infelizmente era assim.

Cansada de trabalhar em vo, a viva
determinou dar um golpe mais decisivo. Encaminhou a conversa para as douras do
casamento e lamentou o estado de sua viuvez. O casal Azevedo era para ela o
tipo da perfeita felicidade conjugal. Apresentava-o aos olhos de Tito como um
incentivo para quem queria ser venturoso na terra. Nada, nem a tese, nem a
hiptese, nada moveu a frieza de Tito.

Emlia jogava um jogo perigoso. Era
preciso decidir entre os seus desejos de vingar o sexo e as convenincias da
sua posio; mas ela era de um carter imperioso; respeitava muito os
princpios de sua moral severa, mas no acatava do mesmo modo as convenincias
de que a sociedade cercava essa moral. A vaidade impunha no esprito dela, com
fora prodigiosa. Assim que a bela viva foi usando todos os meios que era
lcito empregar para fazer apaixonar Tito.

Mas, apaixonado ele, o que faria ela? A
pergunta  ociosa; desde que ela o tivesse aos ps, trataria de conserv-lo a
fazendo parelha ao velho Diogo. Era o melhor trofu que uma beleza altiva pode
ambicionar.

Uma manh, oito dias depois das cenas
referidas no captulo anterior, apareceu Diogo em casa de Azevedo. Tinham a
acabado de almoar; Azevedo subira para o gabinete, a fim de aviar alguma
correspondncia para a corte; Adelaide achava-se na sala do pavimento trreo.

Diogo entrou com uma cara contristada,
como nunca se lhe vira. Adelaide correu para ele.

 Que  isso? perguntou ela.

 Ah! minha senhora... sou o mais infeliz
dos homens!

 Por qu? Venha sentar-se...

Diogo sentou-se, ou antes deixou-se cair
na cadeira que Adelaide lhe ofereceu. Esta tomou lugar ao p dele, animou-o a
contar as suas mgoas.

 Ento que h?

 Duas desgraas, respondeu ele. A
primeira em forma de sentena. Perdi mais uma demanda.  uma desgraa isto, mas
no  nada...

 Pois h maior?...

 H. A segunda desgraa foi em forma de
carta.

 De carta? perguntou Adelaide.

 De carta. Veja isto.

Diogo tirou da carteira uma cartinha
cor-de-rosa, cheirando  essncia de magnlia.

Adelaide leu a carta para si.

Quando ela acabou, perguntou-lhe o velho:

 Que me diz a isto?

 No compreendo, respondeu Adelaide.

 Esta carta  dela.

 Sim, e depois?

  para ele.

 Ele quem?

 Ele! o diabo! o meu rival! o Tito!

 Ah!

 Dizer-lhe o que senti quando apanhei
esta carta,  impossvel. Nunca tremi na minha vida! Mas quando li isto, no
sei que vertigem se apoderou de mim. Ando tonto! A cada passo como que
desmaio... Ah!

 nimo! disse Adelaide.

  isto mesmo que eu vinha buscar... 
uma consolao, uma animao. Soube que estava aqui e estimei ach-la s... Ah!
quanto sinto que o estimvel seu marido esteja vivo... porque a melhor
consolao era aceitar Vossa Excelncia um corao to mal compreendido.

 Felizmente ele est vivo.

Diogo soltou um suspiro e disse:

 Felizmente!

E depois de um silncio continuou:

 Tive duas idias: uma foi o desprezo;
mas desprez-los  p-los em maior liberdade e ralar-me de dor e de vergonha; a
segunda foi o duelo...  melhor... eu mato... ou...

 Deixe-se disso.

  indispensvel que um de ns seja
riscado do nmero dos vivos.

 Pode ser engano...

 Mas no  engano,  certeza.

 Certeza de qu?

Diogo abriu o bilhete e disse:

 Ora, oua:

Se ainda no me compreendeu  bem curto
de penetrao. Tire a mscara e eu me explicarei. Esta noite tomo ch sozinha.
O importuno Diogo no me incomodar com as suas tolices. D-me a felicidade de
v-lo e admir-lo.

EMLIA

 Mas que  isto?

 Que  isto? Ah! se fosse mais do que
isto j eu estava morto! Pude pilhar a carta, e a tal entrevista no se deu...

 Quando foi escrita a carta?

 Ontem.

 Tranqilize-se.  capaz de guardar um
segredo? O que lhe vou dizer  grave. Mas s a sua aflio me faz falar. Posso
afirmar-lhe que esta carta  uma pura caoada. Trata-se de vingar o nosso sexo
ultrajado; trata-se de fazer com que Tito se apaixone... nada mais.

Diogo estremeceu de alegria.

 Sim? perguntou ele.

  pura verdade. Mas veja l, isto 
segredo. Se lho descobri foi por v-lo aflito. No nos comprometa.

 Isso  srio? insistiu Diogo.

 Como quer que lho diga?

 Ah! que peso me tirou! Pode estar certa
de que o segredo caiu num poo. Oh! muito me hei de rir... muito me hei de
rir... Que boa inspirao tive em vir falar-lhe! Diga-me, posso dizer a D.
Emlia que sei tudo?

 No!

  ento melhor que no me d por
achado...

 Sim.

 Muito bem!

Dizendo estas palavras o velho Diogo
esfregava as mos e piscava os olhos. Estava radiante. Qu! ver o suposto rival
sendo vtima dos laos da viva! Que glria! que felicidade!

Nisto estava quando  porta do interior
apareceu Tito. Acabava de levantar-se da cama.

 Bom dia, D. Adelaide, disse ele dirigindo-se
para a mulher de Azevedo.

Depois sentando-se e voltando a cara para
Diogo:

 Bom dia, disse. Est hoje alegre...
Tirou a sorte grande?

 A sorte grande? perguntou Diogo.
Tirei... tirei...

 Dormiu bem? perguntou Adelaide a Tito.

 Como um justo que sou. Tive sonhos
cor-de-rosa: sonhei com o Sr. Diogo.

 Ah! sonhou comigo? murmurou entre
dentes o velho namorado. Coitado! tenho pena dele!

 Mas onde est Azevedo? perguntou Tito a
Adelaide.

 Anda de passeio.

 J?

 Pois ento. Onze horas.

 Onze horas!  verdade, acordei muito
tarde. Tinha duas visitas para fazer: uma a D. Emlia...

 Ah! disse Diogo.

 De que se espanta, meu caro?

 De nada! de nada!

 Bom; vou mandar pr o seu almoo, disse
Adelaide.

Os dois ficaram ss. Tito acendeu um
cigarro de palha; Diogo afetava grande distrao, mas olhava sorrateiramente
para o moo. Este, apenas soltou duas fumaas, voltou-se para o velho e disse:

 Como vo os seus amores?

 Que amores?

 Os seus, a Emlia... J lhe fez
compreender toda a imensidade da paixo que o devora?

 Qual... Preciso de algumas lies... Se
mas quisesse dar?

 Eu? Est sonhando!

 Ah! eu sei que o senhor  forte... 
modesto, mas  forte... e at fortssimo! Ora, eu sou realmente um aprendiz...
Tive h pouco a idia de desafi-lo.

 A mim?

  verdade, mas foi uma loucura de que
me arrependi...

 Alm de que no  uso em nosso pas...

 Em toda a parte  uso vingar a honra.

 Bravo, D. Quixote!

 Ora, eu acreditava-me ofendido na
honra.

 Por mim?

 Mas emendei a mo; reparei que era
antes eu quem ofendia pretendendo lutar com um mestre, eu simples aprendiz?...

 Mestre de qu?

 Dos amores! Oh! eu sei que  mestre...

 Deixe-se disso... eu no sou nada... o
Sr. Diogo, sim; o senhor vale um urso, vale mesmo dois. Como havia de eu...
Ora!... Aposto que teve cimes?

 Exatamente.

 Mas era preciso no me conhecer; no
sabe das minhas idias?

 Homem, s vezes  pior.

 Pior, como?

 As mulheres no deixam uma afronta sem
castigo... As suas idias so afrontosas... Qual ser o castigo? Paro aqui...
paro aqui...

 Onde vai?

 Vou sair. Adeus. No se lembre mais da
minha desastrada idia do duelo...

 Que est acabado... Ah! o senhor
escapou de boa!

 De qu?

 De morrer. Eu enfiava-lhe a espada por
esse abdmen... com um gosto... com um gosto s comparvel ao que tenho de
abra-lo vivo e so!

Diogo riu-se com um riso amarelo.

 Obrigado, obrigado. At logo!

 Venha c, onde vai? No se despede de
D. Adelaide?

 Eu j volto, disse Diogo travando do
chapu e saindo precipitadamente.

Tito ainda o acompanhou com os olhos.

'Este sujeito', disse o moo
consigo quando se viu s, 'no tem nada de original. Aquela opinio a
respeito das mulheres no  dele... Melhor... j se conspira;  o que me
convm. Hs de vir! hs de vir!

Um criado alemo veio anunciar a Tito que
o almoo estava preparado. Tito ia entrando quando assomou  porta a figura de
Azevedo.

 Ora, graas a Deus! O meu amigo no se
levanta com o sol. Ests com olhos de quem acaba de dormir.

  verdade, e vou almoar.

Dirigiram-se os dois para dentro, onde a
mesa estava posta  espera de Tito.

 Almoas outra vez? perguntou Tito.

 No.

 Pois ento vais ver como se come.

Tito sentou-se  mesa; Azevedo estirou-se
num sof.

 Onde foste? perguntou Tito.

 Fui passear... Compreendi que  preciso
ver e admirar o que  indiferente, para apreciar e ver aquilo que faz a
felicidade ntima do corao.

 Ah! sim? Bem vs que at a felicidade
por igual fatiga! Afinal sempre a razo do meu lado.

 Talvez. Apesar de tudo, quer-me parecer
que j intentas entrar na famlia dos casados.

 Eu?

 Tu, sim.

 Por qu?

 Mas, dize,  ou no verdade?

 Qual, verdade!

 O que sei,  que uma destas tardes em
que adormeceste lendo, no sei que livro, ouvi-te pronunciar em sonhos, com a
maior ternura, o nome de Emlia.

 Deveras? perguntou Tito mastigando.

  exato. Conclu que se sonhavas com
ela  que a tinhas no pensamento, e se a tinhas no pensamento  que a amavas.

 Concluste mal.

 Mal?

 Concluste como um marido de cinco
meses. Que prova um sonho? No prova nada! Pareces velha supersticiosa...

 Mas enfim, alguma coisa h por fora...
Sers capaz de me dizeres o que ?

 Homem, podia dizer-te alguma coisa se
no fosses casado...

 Que tem que eu seja casado?

 Tem tudo. Seria indiscreto sem querer e
at sem saber.  noite, entre um beijo e um bocejo, o marido e a mulher abrem
um para o outro a bolsa das confidncias. Sem pensares, podes deitar tudo a
perder.

 No digas isso. Vamos l. H novidade?

 No h nada.

 Confirmas as minhas suspeitas. Gostas
da Emlia.

 dio no lhe tenho,  verdade.

 Gostas. E ela merece.  uma boa
senhora, de no vulgar beleza, possuindo as melhores qualidades. Talvez
preferisses que no fosse viva?...

 Sim;  natural que se embale dez vezes
por dia na lembrana dos dois maridos que j exportou para o outro mundo... 
espera de exportar o terceiro...

 No  dessas...

 Afianas?

 Quase que posso afianar.

 Ah! meu amigo, disse Tito levantando-se
da mesa e indo acender um charuto, toma o conselho de um tolo: nunca afiances
nada, principalmente em tais assuntos. Entre a prudncia discreta e a cega
confiana no  lcito duvidar, a escolha est decidida nos prprios termos da
primeira. O que podes tu afianar a respeito de Emlia? No a conheces melhor
do que eu.

H quinze dias que nos conhecemos, e eu
j lhe leio no interior; estou longe de atribuir-lhe maus sentimentos, mas
tenho a certeza de que no possui as rarssimas qualidades que so necessrias
 exceo. Que sabes tu?

 Realmente, eu no sei nada.

'No sabes nada!' disse Tito
consigo.

 Falo pelas minhas impresses.
Parecia-me que um casamento entre vocs ambos no vinha fora de propsito.

 Se me falas outra vez em casamento,
saio.

 Pois s a palavra?

 A palavra, a idia, tudo.

 Entretanto, admiras e aplaudes o meu
casamento...

 Ah! eu aplaudo nos outros muitas coisas
de que no sou capaz de usar. Depende da vocao...

Adelaide apareceu  porta da sala de
jantar. A conversa cessou entre os dois rapazes.

 Trago-lhe uma notcia.

 Que notcia? perguntaram-lhe os dois.

 Recebi um bilhete de Emlia... Pede-nos
que vamos l amanh, porque...

 Por qu? perguntou Azevedo.

 Talvez dentro de oito dias se retire
para a cidade.

 Ah! disse Tito com a maior indiferena
deste mundo.

 Apronta as tuas malas, disse Azevedo a
Tito.

 Por qu?

 No segues os passos da deusa?

 No zombes, cruel amigo! Quando no...

 Anda l...

Adelaide sorriu ouvindo estas palavras.

Da a meia hora Tito subiu para o
gabinete em que Azevedo tinha os livros. Ia, dizia, ler as Confisses de
Santo Agostinho.

 Que repentina viagem  esta? perguntou
Azevedo  sua mulher.

 Tens muito empenho em saber?

 Tenho.

 Pois bem. Olha que  segredo. Eu no
sei positivamente, mas creio que  uma estratgia.

 Estratgia? No entendo.

 Eu te digo. Trata-se de prender o Tito.

 Prender?

 Ests hoje to bronco! Prender pelos
laos do amor...

 Ah!

 Emlia julgou que deve faz-lo.  s
para brincar. No dia em que ele se declarar vencido fica ela vingada do que ele
disse contra o sexo.

 No est mau... E tu entras nesta
estratgia...

 Como conselheira.

 Trama-se ento contra um amigo, um alter
ego.

 T, t, t. Cala a boca. No vs fazer
abortar o plano.

Azevedo riu-se a bandeiras despregadas.
No fundo achava engraada a punio premeditada ao pobre Tito.

A visita que Tito disse ter de fazer  viva
naquele dia, no se realizou.

Diogo, que apenas sara da casa de
Azevedo, ciente das intenes da viva, fora para casa desta esperar o rapaz,
embalde l esteve durante o dia, embalde jantou, embalde aborreceu a tarde
inteira tanto a Emlia como  tia; Tito no apareceu.

Mas,  noite,  hora em que Diogo, j
vexado de tanta demora na casa da moa, tratava de sair, anunciou-se a chegada
de Tito.

Emlia estremeceu; mas esse movimento
escapou a Diogo.

Tito entrou na sala onde se achavam
Emlia, a tia, e Diogo.

 No contava com a sua visita, disse a
viva.

 Eu sou assim; apareo quando no me
esperam. Sou como a morte e a sorte grande.

 Agora  a sorte grande, disse Emlia.

 Que nmero  o seu bilhete, minha
senhora?

 Nmero doze, isto , doze horas que
tenho tido o prazer de ter hoje aqui o Sr. Diogo...

 Doze horas! exclamou Tito voltando-se
para o velho.

 Sem que ainda o nosso bom amigo nos
contasse uma histria...

 Doze horas! repetiu Tito.

 Que admira, meu caro senhor? perguntou
Diogo.

 Acho um pouco estirado...

 As horas contam-se quando so
aborrecidas... Peo para me retirar...

E dizendo isto, Diogo travou do chapu
para sair lanando um olhar de despeito e cime para a viva.

 Que  isso? perguntou esta. Onde vai?

 Dou asas s horas, respondeu Diogo ao
ouvido de Emlia; vo correr depressa agora.

 Perdo-lhe e peo que se sente.

Diogo sentou-se.

A tia de Emlia pediu licena para
retirar-se alguns minutos.

Ficaram os trs.

 Mas ento, disse Tito, nem ao menos uma
histria contou?

 Nenhuma.

Emlia lanou um olhar a Diogo como para
tranqiliz-lo. Este, mais calmo ento, lembrou-se do que Adelaide lhe havia
dito, e voltou s boas.

 Afinal de contas, disse ele consigo, o
caoado  ele. Eu sou apenas o meio de prend-lo... Contribuamos para que se
lhe tire a proa.

 Nenhuma histria, continuou Emlia.

 Pois olhe, eu sei muitas, disse Diogo
com inteno.

 Conte uma de tantas que sabe, disse
Tito.

 Nada! Por que no conta o senhor?

 Se faz empenho...

 Muito... muito, disse Diogo piscando os
olhos. Conte l, por exemplo, a histria do taboqueado, a histria das
imposturas do amor, a histria dos viajantes encouraados; v, v.

 No, vou contar a histria de um homem
e de um macaco.

 Oh! disse a viva.

  muito interessante, disse Tito. Ora,
ouam...

 Perdo, interrompeu Emlia, ser depois
do ch.

 Pois sim.

Da a pouco servia-se o ch aos trs.
Findo ele, Tito tomou a palavra e comeou a histria:

HISTRIA DE UM HOMEM E DE UM MACACO

No longe da vila ***, no interior do
Brasil, morava h uns vinte anos um homem de trinta e cinco anos, cuja vida
misteriosa era o objeto das conversas das vilas prximas e o objeto do terror
que experimentavam os viajantes que passavam na estrada a dois passos da casa.

A prpria casa era j de causar
apreenses ao esprito menos timorato. Vista de longe nem parecia casa, to
baixinha era. Mas quem se aproximasse conheceria aquela construo singular.
Metade do edifcio estava ao nvel do cho e metade abaixo da terra. Era
entretanto uma casa solidamente construda. No tinha porta nem janelas. Tinha
um vo quadrado que servia ao mesmo tempo de janela e de porta. Era por ali que
o misterioso morador entrava e saa.

Pouca gente o via sair, no s porque ele
raras vezes o fazia, como porque o fazia em horas imprprias. Era nas horas da
lua cheia que o solitrio deixava a residncia para ir passear nos arredores.
Levava sempre consigo um grande macaco, que acudia pelo nome de Calgula.

O macaco e o homem, o homem e o macaco
eram dois amigos inseparveis, dentro e fora de casa, na lua nova.

Mil verses corriam a respeito deste
misterioso solitrio.

A mais geral  que era um feiticeiro.
Havia uma que o dava por doido; outra por simplesmente atacado de misantropia.

Esta ltima verso tinha por si duas
circunstncias: a primeira era no constar nada de positivo que fizesse
reconhecer no homem hbitos de feiticeiro ou alienado; a segunda era a amizade
que ele parecia votar ao macaco e o horror com que fugia ao olhar dos homens.
Quando a gente se aborrece dos homens toma sempre a afeio dos animais, que
tm a vantagem de no discorrer, nem intrigar.

O misterioso...  preciso dar-lhe um
nome: chamemo-lo Daniel. Daniel preferia o macaco, e no falava a mais homem
algum. Algumas vezes os viajantes que passavam pela estrada ouviam partir de
dentro da casa gritos do macaco e do homem; era o homem que afagava o macaco.

Como se alimentavam aquelas duas
criaturas? Houve quem visse um dia de manh abrir-se a porta, sair o macaco e
voltar pouco depois com um embrulho na boca. O tropeiro que presenciava esta
cena quis descobrir onde ia o macaco buscar aquele embrulho que levava sem
dvida os alimentos dos dois solitrios. Na manh seguinte introduziu-se no
mato; o macaco chegou  hora do costume, e dirigiu-se para um tronco de rvore;
havia sobre esse tronco um grande galho, que o bicho atirou ao cho. Depois,
introduzindo as mos no interior do velho tronco, tirou um embrulho igual ao da
vspera e partiu.

O tropeiro persignou-se, e to apreensivo
ficou com a cena que acabava de presenciar que no a contou a ningum.

Durava esta existncia trs anos.

Durante esse tempo o homem no
envelhecera. Era o mesmo que no primeiro dia. Longas barbas ruivas e cabelos
grandes cados para trs. Usava um grande casaco de baeta, tanto no inverno,
como no vero. Calava botas e no usava chapu.

Era impossvel aos passageiros e aos
moradores das vizinhanas penetrar na casa do solitrio. No o ser decerto
para ns, minha bela senhora, e meu caro amigo.

A casa divide-se em duas salas e um
quarto. Uma sala  para jantar; a outra ... a de visitas. O quarto  ocupado
pelos dois moradores, Daniel e Calgula.

As duas salas so de iguais dimenses; o
quarto  uma metade da sala. A moblia da primeira sala compe-se de dois sujos
bancos encostados  parede, uma mesa baixa no centro. O cho  assoalhado.
Pendem das paredes dois retratos: um de moa, outro de velho. A moa  uma
figura anglica e deliciosa. O velho inspirava respeito e admirao. Das outras
duas paredes pendem, de um lado uma faca de cabo de marfim, e do outro uma mo
de defunto, amarela e seca.

A sala de jantar tem apenas uma mesa e
dois bancos.

A moblia do quarto resume-se num grabato
em que dorme Daniel. Calgula estende-se no cho, junto  cabeceira do
dono.

Tal  a moblia da casa.

A casa, que de fora parece no ter
capacidade suficiente para conter um homem em p,  contudo suficiente, visto
estar, como disse, entranhada no cho.

Que vida tero passado a dentro o macaco
e o homem, no espao de trs anos? No saberei diz-lo.

Quando Calgula traz de manh o
embrulho, Daniel divide a comida em duas pores, uma para o almoo, outra para
o jantar. Depois homem e macaco sentam-se em face um do outro na sala de jantar
e comem irmmente as duas refeies.

Quando chega a lua cheia saem os dois
solitrios, como j disse, todas as noites, at a poca em que a lua passa a
ser minguante. Saem s dez horas, pouco mais ou menos, e voltam pouco mais ou
menos s duas horas da madrugada. Quando entram, Daniel tira a mo do finado
que pende da parede e d com ela duas bofetadas em si prprio. Feito isto, vai
deitar-se; Calgula acompanha-o.

Uma noite, era no ms de junho, poca de
lua cheia, Daniel preparou-se para sair. Calgula deu um pulo e saltou 
estrada. Daniel fechou a porta, e l se foi com o macaco estrada acima.

A lua, inteiramente cheia, projetava os
seus reflexos plidos e melanclicos na vasta floresta que cobria as colinas
prximas, e clareava toda a vasta campina que rodeava a casa.

S se ouvia ao longe o murmrio de uma
cachoeira, e ao perto o piar de algumas corujas, e o chilrar de uma infinidade
de grilos espalhados na plancie.

Daniel caminhava pausadamente levando um
pau debaixo do brao, e acompanhado do macaco, que saltava do cho aos ombros
de Daniel e dos ombros de Daniel para o cho.

Mesmo sem a forma lgubre que tinha
aquele lugar por causa da residncia do solitrio, qualquer pessoa que
encontrasse quela hora Daniel e o macaco corria risco de morrer de medo.
Daniel, extremamente magro e alto, tinha em si um ar lgubre. Os cabelos da
barba e da cabea, crescidos em abundncia, faziam a sua cabea ainda maior do
que era. Sem chapu era uma cabea verdadeiramente satnica.

Calgula, que nos outros
dias era um macaco ordinrio, tomava, naquelas horas de passeio noturno, um ar
to lgubre e to misterioso como o de Daniel.

Havia j uma hora que os dois solitrios
tinham sado de casa. A casa ficara j um pouco longe. Nada mais natural do que
chegar a polcia nessa ocasio, tomar a entrada da casa e reconhecer o
mistrio. Mas a polcia, apesar dos meios que tinha  sua disposio, no se
animava a investigar no mistrio que o povo reputava diablico. Tambm a
polcia  humana, e nada do que  humano lhe  desconhecido.

Havia uma hora, disse eu, que os dois
passeadores tinham sado de casa. Comeavam ento a subir uma pequena colina...

Tito foi interrompido por um bocejo do
velho Diogo.

 Quer dormir? perguntou o rapaz.

  o que vou fazer.

 Mas a histria?

 A histria  muito divertida. At aqui
s temos visto duas coisas, um homem e um macaco; perdo... temos mais dois, um
macaco e um homem.  muito divertida! Mas, para variar, o homem vai sair e fica
o macaco.

Dizendo estas palavras com uma raiva
cmica, Diogo travou do chapu e saiu.

Tito soltou uma gargalhada.

 Mas vamos ao fim da histria...

 Que fim, minha senhora? Eu j estava em
talas por no saber como continuar... Era um meio de servi-la. Vejo que  um
velho aborrecido...

 No , est enganado.

 Ah! no?

 Divirto-me com ele. O que no impede
que a presena do senhor me d infinito prazer...

 Vossa Excelncia disse agora uma
falsidade.

 Qual foi?

 Disse que lhe era agradvel a minha
conversa. Ora, isso  falso como tudo quanto  falso...

 Quer um elogio?

 No, falo franco. Eu nem sei como Vossa
Excelncia me atura; desabrido, maante, chocarreiro, sem f em coisa alguma,
sou um conversador muito pouco digno de ser desejado.  preciso ter uma grande
soma de bondade para ter expresses to benvolas... to amigas...

 Deixe esse ar de mofa, e...

 Mofa, minha senhora?

 Ontem eu e minha tia tomamos ch
sozinhas! sozinhas!...

 Ah!

 Contava que o senhor viesse
aborrecer-se uma hora conosco...

 Qual aborrecer... Eu lhe digo: o
culpado foi o Ernesto.

 Ah! foi ele?

  verdade; deu comigo a em casa de uns
amigos, ramos quatro ao todo, rolou a conversa sobre o voltarete e acabamos
por formar mesa. Ah! mas foi uma noite completa! Aconteceu-me o que me acontece
sempre: ganhei!

 Est bom.

 Pois, olhe, ainda assim eu no jogava
com pexotes; eram mestres de primeira fora: um principalmente; at s onze
horas a fortuna pareceu desfavorecer-me, mas dessa hora em diante desandou a
roda para eles e eu comecei a assombrar... pode ficar certa de que os
assombrei. Ah!  que eu tenho diploma... mas que  isso, est chorando?

Emlia tinha com efeito o leno nos
olhos. Chorava?  certo que quando tirou o leno dos olhos, tinha-os midos.
Voltou-se contra a luz e disse ao moo:

 Qual... pode continuar.

 No h mais nada; foi s isto, disse
Tito.

 Estimo que a noite lhe corresse
feliz...

 Alguma coisa...

 Mas a uma carta responde-se; por que
no respondeu  minha? disse a viva.

  sua qual?

 A carta que lhe escrevi pedindo que
viesse tomar ch conosco?

 No me lembro.

 No se lembra?

 Ou, se recebi essa carta, foi em
ocasio que a no pude ler, e ento esqueci, esqueci-a em algum lugar...

  possvel: mas  a ltima vez...

 No me convida mais para tomar ch?

 No. Pode arriscar-se a perder
distraes melhores.

 Isso no digo: a senhora trata bem a
gente, e em sua casa passam-se bem as horas... Isto  com franqueza. Mas ento
tomou ch sozinha? E o Diogo?

 Descartei-me dele. Acha que ele seja
divertido?

 Parece que sim...  um homem delicado;
um tanto dado s paixes,  verdade, mas sendo esse um defeito comum, acho que
nele no  muito digno de censura.

 O Diogo est vingado.

 De que, minha senhora?

Emlia olhou fixamente para Tito e disse:

 De nada!

E levantando-se dirigiu-se para o piano.

 Vou tocar, disse ela; no o aborrece?

 De modo nenhum.

Emlia comeou a tocar; mas era uma msica
to triste que infundia certa melancolia no esprito do moo. Este, depois de
algum tempo, interrompeu com estas palavras:

 Que msica triste!

 Traduzo a minha alma, disse a viva.

 Anda triste?

 Que lhe importam as minhas tristezas?

 Tem razo, no me importam nada. Em
todo o caso no  comigo?

Emlia levantou-se e foi para ele.

 Acha que lhe hei de perdoar a desfeita
que me fez? disse ela.

 Que desfeita, minha senhora?

 A desfeita de no vir ao meu convite?

 Mas eu j lhe expliquei...

 Pacincia! O que sinto  que tambm
nesse voltarete estivesse o marido de Adelaide.

 Ele retirou-se s dez horas, e entrou
um parceiro novo, que no era de todo mau.

 Pobre Adelaide!

 Mas se eu lhe digo que ele se retirou
s dez horas...

 No devia ter ido. Devia pertencer
sempre  sua mulher. Sei que estou falando a um descrido; no pode calcular a
felicidade e os deveres do lar domstico. Viverem duas criaturas uma para
outra, confundidas, unificadas; pensar, aspirar, sonhar a mesma coisa; limitar
o horizonte nos olhos de cada uma, sem outra ambio, sem inveja de mais nada.
Sabe o que  isto?

 Sei...  o casamento por fora.

 Conheo algum que lhe provava aquilo
tudo...

 Deveras? Quem  essa fnix?

 Se lho disser, h de mofar; no digo.

 Qual mofar! Diga l, eu sou curioso.

 No acredita que haja algum que possa
am-lo?

 Pode ser...

 No acredita que algum, por despeito, por
outra coisa que seja, tire da originalidade do seu esprito os influxos de um
amor verdadeiro, mui diverso do amor ordinrio dos sales; um amor capaz de
sacrifcio, capaz de tudo? No acredita!

 Se me afirma, acredito; mas...

 Existe a pessoa e o amor.

 So ento duas fnix.

 No zombe. Existem... Procure...

 Ah! isso h de ser mais difcil: no
tenho tempo. E suponha que achasse, de que me servia? Para mim  perfeitamente
intil. Isso  bom para outros; para o Diogo, por exemplo...

 Para o Diogo?

A bela viva pareceu ter um assomo de
clera. Depois de um silncio disse:

 Adeus! Desculpe, estou incomodada.

 Ento, at amanh!

Dizendo o que, Tito apertou a mo de
Emlia e saiu to alegre e descuidoso como se sasse de um jantar de anos.

Emlia, apenas ficou s, caiu numa
cadeira e cobriu o rosto.

Estava nessa posio havia cinco minutos,
quando assomou  porta a figura do velho Diogo.

O rumor que o velho fez entrando
despertou a viva.

 Ainda aqui!

  verdade, minha senhora, disse Diogo
aproximando-se,  verdade. Ainda aqui, por minha infelicidade...

 No entendo...

 No sa para casa. Um demnio oculto me
impeliu para cometer um ato infame. Cometi-o, mas tirei dele um proveito; estou
salvo. Sei que me no ama.

 Ouviu?

 Tudo. E percebi.

 Que percebeu, meu caro senhor?

 Percebi que a senhora ama o Tito.

 Ah!

 Retiro-me, portanto, mas no quero
faz-lo sem que ao menos fique sabendo de que saio com cincia de que no sou amado;
e que saio antes de me mandarem embora.

Emlia ouviu as palavras de Diogo com a
maior tranqilidade. Enquanto ele falava teve tempo de refletir no que devia
dizer.

Diogo estava j a fazer o seu ltimo cumprimento,
quando a viva lhe dirigiu a palavra.

 Oua-me, Sr. Diogo. Ouviu bem, mas
percebeu mal. J que pretende ter sabido...

 J sei; vem dizer que h um plano
assentado de zombar com aquele moo...

 Como sabe?

 Disse-mo D. Adelaide.

  verdade.

 No creio.

 Por qu?

 Havia lgrimas nas suas palavras.
Ouvi-as com a dor nalma. Se soubesse como eu sofria!

A bela viva no pde deixar de sorrir ao
gesto cmico de Diogo. Depois, como ele parecesse mergulhado em meditao
sombria, disse:

 Engana-se, tanto que volto para a
cidade.

 Deveras?

 Pois acredita que um homem como aquele
possa inspirar qualquer sentimento srio? Nem por sombras!

Estas palavras foram ditas no tom com que
Emlia costumava persuadir aquele eterno namorado. Isso e mais um sorriso, foi
quanto bastou para acalmar o nimo de Diogo. Da a alguns minutos estava ele
radiante.

 Olhe, e para desengan-lo de uma vez
vou escrever um bilhete ao Tito...

 Eu mesmo o levarei, disse Diogo louco
de contente.

 Pois sim!

 Adeus, at amanh. Tenha sonhos
cor-de-rosa, e desculpe os meus maus modos. At amanh.

O velho beijou graciosamente a mo de
Emlia e saiu.

CAPTULO IV

No dia seguinte, ao meio-dia, Diogo
apresentou-se ao Tito, e depois de falar sobre diferentes coisas, tirou do
bolso uma cartinha, que fingira ter esquecido at ento, e a qual mostrava no
dar grande apreo.

'Que bomba!' disse ele consigo,
na ocasio em que Tito rasgou a sobrecarta.

Eis o que dizia a carta:

Dei-lhe o meu corao. No quis
aceit-lo, desprezou-o mesmo. A sua bota magoou-o demais para que ele possa
palpitar ainda. Est morto. No o censuro; no se deve falar de luz aos cegos;
a culpada fui eu. Supus que pudesse dar-lhe uma felicidade, recebendo outra.
Enganei-me.

Tem a glria de retirar-se com todas as
honras de guerra. Eu  que fico vencida. Pacincia! Pode zombar de mim; no lhe
contesto o direito que tem para isso.

Entretanto, devo dizer-lhe que eu bem o
conhecia; nunca lho disse, mas conhecia-o; desde o dia em que o vi pela
primeira vez em casa de Adelaide, reconheci na sua pessoa o mesmo homem que um
dia veio atirar-se aos meus ps... Era zombaria ento, como hoje. Eu j devia
conhec-lo. Caro pago o meu engano. Adeus, adeus para sempre.

Lendo esta carta, Tito olhava repetidas
vezes para Diogo. Como  que o velho se prestara quilo? Era autntica ou
apcrifa a tal carta? Sobre no trazer assinatura, tinha a letra disfarada.
Seria uma arma de que o velho usara para descartar-se do rapaz? Mas, se fosse
assim, era preciso que ele soubesse do que se passara na vspera.

Tito releu a carta muitas vezes; e,
despedindo-se do velho, disse-lhe que a resposta iria depois.

Diogo retirou-se esfregando as mos de
contente.

 que a carta cuja leitura os leitores
fizeram ao mesmo tempo que o nosso heri, no era a que Emlia lera a Diogo. Na
minuta apresentada ao velho a viva declarava simplesmente que se retirava para
a Corte, e acrescentava que entre as recordaes que levava de Petrpolis
figurava Tito, pela figura que ela havia representado diante dele. Mas essa
minuta, por uma destreza puramente feminina, no foi a que Emlia mandou a
Tito, como viram os leitores.

 carta de Emlia respondeu Tito nos
seguintes termos:

Minha senhora,

Li e reli a sua carta; e no lhe
ocultarei o sentimento de pesar que ela me inspirou. Realmente, minha senhora,
 esse o estado do seu corao? Est assim to perdido por mim?

Diz Vossa Excelncia que eu com a minha
bota machuquei o seu corao. Penaliza-me o fato, sem que eu entretanto o
confirme. No me lembra at hoje que tivesse feito estrago algum desta
natureza. Mas, enfim, Vossa Excelncia o diz, e eu devo cr-lo.

Lendo esta carta Vossa Excelncia dir
consigo que eu sou o mais audaz cavalheiro que ainda pisou a terra de Santa
Cruz. Ser um engano de observao. Isto em mim no  audcia,  franqueza.
Lastimo que as coisas chegassem a este ponto, mas no posso dizer-lhe nada mais
que a verdade.

Devo confessar que no sei se a carta a
que respondo  de Vossa Excelncia. A sua letra, de que eu j vi uma amostra no
lbum de D. Adelaide, no se parece com a da carta; est evidentemente
disfarada;  de qualquer mo. Demais, no traz assinatura.

Digo isto porque a primeira dvida que
nasceu em meu esprito proveio do portador escolhido. Pois qu? Vossa
Excelncia no achou outro seno o prprio Diogo? Confesso que de tudo o que tenho
visto em minha vida,  isto o que mais me faz rir.

Mas eu no devo rir, minha senhora. Vossa
Excelncia abriu-me o seu corao de um modo que inspira antes compaixo. Esta
compaixo no lhe  desairosa, porque no vem por sentido irnico.  pura e sincera.
Sinto no poder dar-lhe essa felicidade que me pede; mas  assim.

No devo estender-me, contudo custa-me
arrancar a pena de cima do papel.  que poucos tero a posio que eu ocupo
agora, a posio de requestado. Mas devo acabar e acabo aqui, mandando-lhe os
meus psames e rogando a Deus para que encontre um corao menos frio que o
meu.

A letra vai disfarada como a sua, e,
como na sua carta, deixo a assinatura em branco.

Esta carta foi entregue  viva na mesma
tarde.  noite, Azevedo e Adelaide foram visit-la. No puderam dissuadi-la da
idia da viagem para a corte. Emlia usou mesmo de uma certa reserva para com
Adelaide, que no pde descobrir os motivos de semelhante procedimento, e
retirou-se um tanto triste.

No dia seguinte, com efeito, Emlia e a
tia aprontaram-se e saram para voltar para a corte.

Diogo ficou em Petrpolis ainda, cuidando
em aprontar as malas... No queria, dizia ele, que o pblico, vendo-o partir em
companhia das duas senhoras, supusesse coisas desairosas  viva.

Todos estes passos admiravam Adelaide,
que, como disse, via na insistncia de Emlia e nos seus modos reservados um
segredo que no compreendia. Quereria ela por aquele meio de viagem atrair
Tito? Nesse caso era clculo errado; visto que o rapaz, naquele dia como nos
outros, acordou tarde e almoou alegremente.

 Sabe, disse Adelaide, que a esta hora
deve ter partido para a cidade nossa amiga Emlia?

 J tinha ouvido dizer.

 Por que ser?

 Ah! isso  que eu no sei. Altos
segredos do esprito de mulher! Por que sopra hoje a brisa deste lado e no
daquele? Interessa-me tanto saber uma coisa como outra.

No fim do almoo Tito, como quase sempre,
retirou-se para ler durante duas horas.

Adelaide ia dar algumas ordens quando viu
com pasmo entrar-lhe em casa a viva, acompanhada de um criado.

 Ah! no partiste! disse Adelaide
correndo a abra-la.

 No me vs aqui?

O criado saiu a um sinal de Emlia.

 Mas que h? perguntou a mulher de
Azevedo, vendo os modos estranhos da viva.

 Que h? disse esta. H o que no
prevamos... s quase minha irm... posso falar francamente. Ningum nos ouve?

 Ernesto est fora e o Tito l em cima.
Mas que ar  esse?

 Adelaide! disse Emlia com os olhos
rasos de lgrimas, eu o amo!

 Que me dizes?

 Isto mesmo. Amo-o doidamente,
perdidamente, completamente. Procurei at agora vencer esta paixo, mas no
pude; e quando, por vos preconceitos, tratava de ocultar-lhe o estado do meu
corao, no pude, as palavras saram-me dos lbios insensivelmente...

 Mas como se deu isto?

 Eu sei! Parece que foi castigo; quis
fazer fogo e queimei-me nas mesmas chamas. Ah! no  de hoje que me sinto
assim. Desde que os seus desdns em nada cederam, comecei a sentir no sei o
qu; ao princpio despeito, depois um desejo de triunfar, depois uma ambio de
ceder tudo, contanto que tudo ganhasse; afinal no fui senhora de mim. Era eu
quem me sentia doidamente apaixonada e lho manifestava, por gestos, por
palavras, por tudo; e mais crescia nele a indiferena, mais crescia o amor em
mim.

 Mas ests falando srio?

 Olha antes para mim.

 Quem pensara?...

 A mim prpria parece impossvel; porm
 mais que verdade...

 E ele?...

 Ele disse-me quatro palavras
indiferentes, nem sei o que foi, e retirou-se.

 Resistir?

 No sei.

 Se eu adivinhara isto no te insinuaria
naquela malfadada idia.

 No me compreendeste. Cuidas que eu deploro
o que acontece? Oh! no! sinto-me feliz, sinto-me orgulhosa...  um destes
amores que brotam por si para encher a alma de satisfao: devo antes
abenoar-te...

  uma verdadeira paixo... Mas
acreditas impossvel a converso dele?

 No sei; mas seja ou no impossvel,
no  a converso que eu peo; basta-me que seja menos indiferente e mais
compassivo.

 Mas que pretendes fazer? perguntou
Adelaide sentindo que as lgrimas tambm lhe rebentavam dos olhos.

Houve alguns instantes de silncio.

 Mas o que tu no sabes, continuou
Emlia,  que ele no  para mim um simples estranho. J o conhecia antes de
casada. Foi ele quem me pediu em casamento antes de Rafael...

 Ah!

 Sabias?

 Ele j me havia contado a histria, mas
no nomeara a santa. Eras tu?

 Era eu. Ambos nos conhecamos, sem
dizermos nada um ao outro...

 Por qu?

A resposta a esta pergunta foi dada pelo
prprio Tito, que assomara  porta do interior. Tendo visto entrar a viva de
uma das janelas, Tito desceu abaixo a ouvir a conversa dela com Adelaide. A
estranheza que lhe causava a volta inesperada de Emlia podia desculpar a
indiscrio do rapaz.

 Por qu? repetiu ele.  o que lhes vou
dizer.

 Mas antes de tudo, disse Adelaide, no
sei se sabe que uma indiferena, to completa, como a sua, pode ser fatal a
quem lhe  menos indiferente?

 Refere-se  sua amiga? perguntou Tito.
Eu corto tudo com uma palavra.

E voltando-se para Emlia, disse,
estendendo-lhe a mo:

 Aceita a minha mo de esposo?

Um grito de alegria suprema ia saindo do
peito de Emlia; mas no sei se um resto de orgulho, ou qualquer outro
sentimento, converteu essa manifestao em uma simples palavra, que alis foi
pronunciada com lgrimas na voz:

 Sim! disse ela.

Tito beijou amorosamente a mo da viva.
Depois acrescentou:

 Mas  preciso medir toda a minha
generosidade; eu devia dizer: aceito a sua mo. Devia ou no devia? Sou um
tanto original e gosto de fazer inverso em tudo.

 Pois sim; mas de um ou de outro modo
sou feliz. Contudo um remorso me surge na conscincia. Dou-lhe uma felicidade
to completa como a que recebo?

 Remorso? Se  sujeita aos remorsos deve
ter um, mas por motivo diverso. A senhora est passando neste momento pelas
foras caudinas. Fi-la sofrer, no? Ouvindo o que vou dizer concordar que eu
j antes sofria, e muito mais.

 Temos romance? perguntou Adelaide a
Tito.

 Realidade, minha senhora, respondeu
Tito, e realidade em prosa. Um dia, h j alguns anos, tive eu a felicidade de
ver uma senhora, e amei-a. O amor foi tanto mais indomvel quanto que me nasceu
de sbito. Era ento mais ardente que hoje, no conhecia muito os usos do
mundo. Resolvi declarar-lhe a minha paixo e pedi-la em casamento. Tive em
resposta este bilhete...

 J sei, disse Emlia. Essa senhora fui
eu. Estou humilhada; perdo!

 Meu amor lhe perdoa; nunca deixei de
am-la. Eu estava certo de encontr-la um dia e procedi de modo a fazer-me o
desejado.

 Escreva isto e diro que  um romance,
disse alegremente Adelaide.

 A vida no  outra coisa... acrescentou
Tito,

Da a meia hora entrava Azevedo. Admirado
da presena de Emlia quando a supunha a rodar no trem de ferro, e mais
admirado ainda das maneiras cordiais por que se tratavam Tito e Emlia, o
marido de Adelaide inquiriu a causa disso.

 A causa  simples, respondeu Adelaide;
Emlia voltou porque vai casar-se com Tito.

Azevedo no se deu por satisfeito;
explicaram-lhe tudo.

 Percebo, disse ele; Tito, no tendo alcanado
nada caminhando em linha reta, procurou ver se alcanava caminhando por linha
curva. s vezes  o caminho mais curto.

 Como agora, acrescentou Tito.

Emlia jantou em casa de Adelaide. 
tarde apareceu ali o velho Diogo, que ia despedir-se porque devia partir para a
corte no dia seguinte de manh. Grande foi a sua admirao quando viu a viva.

 Voltou?

  verdade, respondeu Emlia rindo.

 Pois eu ia partir, mas j no parto.
Ah! recebi uma carta da Europa: foi o capito da galera Macednia quem a
trouxe! Chegou o urso!

 Pois v fazer-lhe companhia, respondeu
Tito.

Diogo fez uma careta. Depois, como
desejasse saber o motivo da sbita volta da viva, esta explicou-lhe que se ia
casar com Tito.

Diogo no acreditou.

  ainda um lao, no? disse ele
piscando os olhos.

E no s no acreditou ento, como no
acreditou da em diante, apesar de tudo. Da a alguns dias partiram todos para
a corte. Diogo ainda se no convencia de nada. Mas, quando entrando um dia em
casa de Emlia viu a festa do noivado, o pobre velho no pde negar a realidade
e sofreu um forte abalo. Todavia, teve ainda corao para assistir s festas do
noivado. Azevedo e a mulher serviram de testemunhas.

 preciso confessar, escrevia dois meses
depois o feliz noivo ao esposo de Adelaide; -  preciso confessar que eu entrei
num jogo arriscado. Podia perder; felizmente ganhei.

FREI SIMO

NDICE

CAPTULO PRIMEIRO

CAPTULO II

CAPTULO III

CAPTULO IV

CAPTULO V

CAPTULO PRIMEIRO

Frei Simo era um frade da ordem dos
Beneditinos. Tinha, quando morreu, cinqenta anos em aparncia, mas na
realidade trinta e oito. A causa desta velhice prematura derivava da que o
levou ao claustro na idade de trinta anos, e, tanto quanto se pode saber por
uns fragmentos de memrias que ele deixou, a causa era justa.

Era frei Simo de carter taciturno e
desconfiado. Passava dias inteiros na sua cela, donde apenas saa na hora do
refeitrio e dos ofcios divinos. No contava amizade alguma no convento,
porque no era possvel entreter com ele os preliminares que fundam e
consolidam as afeies.

Em um convento, onde a comunho das almas
deve ser mais pronta e mais profunda, frei Simo parecia fugir  regra geral.
Um dos novios ps-lhe alcunha de urso, que lhe ficou, mas s entre os
novios, bem entendido. Os frades professos, esses, apesar do desgosto que o
gnio solitrio de frei Simo lhes inspirava, sentiam por ele certo respeito e
venerao.

Um dia anuncia-se que frei Simo adoecera
gravemente. Chamaram-se os socorros e prestaram ao enfermo todos os cuidados
necessrios. A molstia era mortal; depois de cinco dias frei Simo expirou.

Durante estes cinco dias de molstia, a
cela de frei Simo esteve cheia de frades. Frei Simo no disse uma palavra
durante esses cinco dias; s no ltimo, quando se aproximava o minuto fatal,
sentou-se no leito, fez chamar para mais perto o abade, e disse-lhe ao ouvido
com voz sufocada e em tom estranho:

 Morro odiando a humanidade!

O abade recuou at a parede ao ouvir
estas palavras, e no tom em que foram ditas. Quanto a frei Simo, caiu sobre o
travesseiro e passou  eternidade.

Depois de feitas ao irmo finado as
honras que se lhe deviam, a comunidade perguntou ao seu chefe que palavras
ouvira to sinistras que o assustaram. O abade referiu-as, persignando-se. Mas
os frades no viram nessas palavras seno um segredo do passado, sem dvida
importante, mas no tal que pudesse lanar o terror no esprito do abade. Este
explicou-lhes a idia que tivera quando ouviu as palavras de frei Simo, no tom
em que foram ditas, e acompanhadas do olhar com que o fulminou: acreditara que
frei Simo estivesse doido; mais ainda, que tivesse entrado j doido para a
ordem. Os hbitos da solido e taciturnidade a que se votara o frade pareciam
sintomas de uma alienao mental de carter brando e pacfico; mas durante oito
anos parecia impossvel aos frades que frei Simo no tivesse um dia revelado
de modo positivo a sua loucura; objetaram isso ao abade; mas este persistia na
sua crena.

Entretanto procedeu-se ao inventrio dos
objetos que pertenciam ao finado, e entre eles achou-se um rolo de papis
convenientemente enlaados, com este rtulo:

Memrias que h de escrever frei Simo de
Santa gueda, frade beneditino.

Este rolo de papis foi um grande achado
para a comunidade curiosa. Iam finalmente penetrar alguma coisa no vu
misterioso que envolvia o passado de frei Simo, e talvez confirmar as
suspeitas do abade. O rolo foi aberto e lido para todos.

Eram, pela maior parte, fragmentos
incompletos, apontamentos truncados e notas insuficientes; mas de tudo junto
pde-se colher que realmente frei Simo estivera louco durante certo tempo.

O autor desta narrativa despreza aquela
parte das Memrias que no tiver absolutamente importncia; mas procura
aproveitar a que for menos intil ou menos obscura.

CAPTULO II

As notas de frei Simo nada dizem do
lugar do seu nascimento nem do nome de seus pais. O que se pde saber dos seus
princpios  que, tendo concludo os estudos preparatrios, no pde seguir a
carreira das letras, como desejava, e foi obrigado a entrar como guarda-livros
na casa comercial de seu pai.

Morava ento em casa de seu pai uma prima
de Simo, rf de pai e me, que haviam por morte deixado ao pai de Simo o
cuidado de a educarem e manterem. Parece que os cabedais deste deram para isto.
Quanto ao pai da prima rf, tendo sido rico, perdera tudo ao jogo e nos azares
do comrcio, ficando reduzido  ltima misria.

A rf chamava-se Helena; era bela, meiga
e extremamente boa. Simo, que se educara com ela, e juntamente vivia debaixo
do mesmo teto, no pde resistir s elevadas qualidades e  beleza de sua
prima. Amaram-se. Em seus sonhos de futuro contavam ambos o casamento, coisa
que parece mais natural do mundo para coraes amantes.

No tardou muito que os pais de Simo
descobrissem o amor dos dois. Ora  preciso dizer, apesar de no haver
declarao formal disto nos apontamentos do frade,  preciso dizer que os
referidos pais eram de um egosmo descomunal. Davam de boa vontade o po da
subsistncia a Helena; mas l casar o filho com a pobre rf  que no podiam
consentir. Tinham posto a mira em uma herdeira rica, e dispunham de si para si
que o rapaz se casaria com ela.

Uma tarde, como estivesse o rapaz a
adiantar a escriturao do livro mestre, entrou no escritrio o pai com ar
grave e risonho ao mesmo tempo, e disse ao filho que largasse o trabalho e o ouvisse.
O rapaz obedeceu. O pai falou assim:

 Vais partir para a provncia de ***.
Preciso mandar umas cartas ao meu correspondente Amaral, e como sejam elas de
grande importncia, no quero confi-las ao nosso desleixado correio. Queres ir
no vapor ou preferes o nosso brigue?

Esta pergunta era feita com grande tino.

Obrigado a responder-lhe, o velho
comerciante no dera lugar que seu filho apresentasse objees.

O rapaz enfiou, abaixou os olhos e
respondeu:

 Vou onde meu pai quiser.

O pai agradeceu mentalmente a submisso
do filho, que lhe poupava o dinheiro da passagem no vapor, e foi muito contente
dar parte  mulher de que o rapaz no fizera objeo alguma.

Nessa noite os dois amantes tiveram
ocasio de encontrar-se ss na sala de jantar.

Simo contou a Helena o que se passara.
Choraram ambos algumas lgrimas furtivas, e ficaram na esperana de que a
viagem fosse de um ms, quando muito.

 mesa do ch, o pai de Simo conversou
sobre a viagem do rapaz, que devia ser de poucos dias. Isto reanimou as
esperanas dos dois amantes. O resto da noite passou-se em conselhos da parte
do velho ao filho sobre a maneira de portar-se na casa do correspondente. s
dez horas, como de costume, todos se recolheram aos aposentos.

Os dias passaram-se depressa. Finalmente
raiou aquele em que devia partir o brigue. Helena saiu de seu quarto com os
olhos vermelhos de chorar. Interrogada bruscamente pela tia, disse que era uma
inflamao adquirida pelo muito que lera na noite anterior. A tia prescreveu-lhe
absteno da leitura e banhos de gua de malvas.

Quanto ao tio, tendo chamado Simo,
entregou-lhe uma carta para o correspondente, e abraou-o. A mala e um criado
estavam prontos. A despedida foi triste. Os dois pais sempre choraram alguma
coisa, a rapariga muito.

Quanto a Simo, levava os olhos secos e
ardentes. Era refratrio s lgrimas, por isso mesmo padecia mais.

O brigue partiu. Simo, enquanto pde ver
terra, no se retirou de cima; quando finalmente se fecharam de todo as paredes
do crcere que anda, na frase pitoresca de Ribeyrolles, Simo desceu ao seu
camarote, triste e com o corao apertado. Havia como um pressentimento que lhe
dizia interiormente ser impossvel tornar a ver sua prima. Parecia que ia para
um degredo.

Chegando ao lugar do seu destino,
procurou Simo o correspondente de seu pai e entregou-lhe a carta. O Sr. Amaral
leu a carta, fitou o rapaz e, depois de algum silncio, disse-lhe, volvendo a
carta:

 Bem, agora  preciso esperar que eu
cumpra esta ordem de seu pai. Entretanto venha morar para a minha casa.

 Quando poderei voltar? perguntou Simo.

 Em poucos dias, salvo se as coisas se
complicarem.

Este salvo, posto na boca de
Amaral como incidente, era a orao principal. A carta do pai de Simo versava
assim:

Meu caro Amaral,

Motivos ponderosos me obrigam a mandar
meu filho desta cidade. Retenha-o por l como puder. O pretexto da viagem  ter
eu necessidade de ultimar alguns negcios com voc, o que dir ao pequeno,
fazendo-lhe sempre crer que a demora  pouca ou nenhuma. Voc, que teve na sua
adolescncia a triste idia de engendrar romances, v inventando circunstncias
e ocorrncias imprevistas, de modo que o rapaz no me torne c antes de segunda
ordem. Sou, como sempre, etc.

CAPTULO III

Passaram-se dias e dias, e nada de chegar
o momento de voltar  casa paterna. O ex-romancista era na verdade frtil, e
no se cansava de inventar pretextos que deixavam convencido o rapaz.

Entretanto, como o esprito dos amantes
no  menos engenhoso que o dos romancistas, Simo e Helena acharam meio de se
escreverem, e deste modo podiam consolar-se da ausncia, com presena das
letras e do papel. Bem diz Helosa que a arte de escrever foi inventada por
alguma amante separada do seu amante. Nestas cartas juravam-se os dois sua
eterna fidelidade.

No fim de dois meses de espera baldada e
de ativa correspondncia, a tia de Helena surpreendeu uma carta de Simo. Era a
vigsima, creio eu. Houve grande temporal em casa. O tio, que estava no
escritrio, saiu precipitadamente e tomou conhecimento do negcio. O resultado
foi proscrever de casa tinta, penas e papel, e instituir vigilncia rigorosa
sobre a infeliz rapariga.

Comearam pois a escassear as cartas ao
pobre deportado. Inquiriu a causa disto em cartas choradas e compridas; mas
como o rigor fiscal da casa de seu pai adquiria propores descomunais,
acontecia que todas as cartas de Simo iam parar s mos do velho, que, depois
de apreciar o estilo amoroso de seu filho, fazia queimar as ardentes epstolas.

Passaram-se dias e meses. Carta de
Helena, nenhuma. O correspondente ia esgotando a veia inventadora, e j no
sabia como reter finalmente o rapaz.

Chega uma carta a Simo. Era letra do
pai. S diferenava das outras que recebia do velho em ser esta mais longa,
muito mais longa. O rapaz abriu a carta, e leu trmulo e plido. Contava nesta
carta o honrado comerciante que a Helena, a boa rapariga que ele destinava a
ser sua filha casando-se com Simo, a boa Helena tinha morrido. O velho copiara
algum dos ltimos necrolgios que vira nos jornais, e ajuntara algumas
consolaes de casa. A ltima consolao foi dizer-lhe que embarcasse e fosse
ter com ele.

O perodo final da carta dizia:

Assim como assim, no se realizam os meus
negcios; no te pude casar com Helena, visto que Deus a levou. Mas volta,
filho, vem; poders consolar-te casando com outra, a filha do conselheiro ***.
Est moa feita e  um bom partido. No te desalentes; lembra-te de mim.

O pai de Simo no conhecia bem o amor do
filho, nem era grande guia para avali-lo, ainda que o conhecesse. Dores tais
no se consolam com uma carta nem com um casamento. Era melhor mand-lo chamar,
e depois preparar- lhe a notcia; mas dada assim friamente em uma carta, era
expor o rapaz a uma morte certa.

Ficou Simo vivo em corpo e morto
moralmente, to morto que por sua prpria idia foi dali procurar uma
sepultura. Era melhor dar aqui alguns dos papis escritos por Simo
relativamente ao que sofreu depois da carta; mas h muitas falhas, e eu no
quero corrigir a exposio ingnua e sincera do frade.

A sepultura que Simo escolheu foi um
convento. Respondeu ao pai que agradecia a filha do conselheiro, mas que daquele
dia em diante pertencia ao servio de Deus.

O pai ficou maravilhado. Nunca suspeitou
que o filho pudesse vir a ter semelhante resoluo. Escreveu s pressas para
ver se o desviava da idia; mas no pde conseguir.

Quanto ao correspondente, para quem tudo
se embrulhava cada vez mais, deixou o rapaz seguir para o claustro, disposto a
no figurar em um negcio do qual nada realmente sabia.

CAPTULO IV

Frei Simo de Santa gueda foi obrigado a
ir  provncia natal em misso religiosa, tempos depois dos fatos que acabo de
narrar.

Preparou-se e embarcou.

A misso no era na capital, mas no
interior. Entrando na capital, pareceu-lhe dever ir visitar seus pais. Estavam
mudados fsica e moralmente. Era com certeza a dor e o remorso de terem
precipitado seu filho  resoluo que tomou. Tinham vendido a casa comercial e
viviam de suas rendas.

Receberam o filho com alvoroo e
verdadeiro amor. Depois das lgrimas e das consolaes, vieram ao fim da viagem
de Simo.

 A que vens tu, meu filho?

 Venho cumprir uma misso do sacerdcio
que abracei. Venho pregar, para que o rebanho do Senhor no se arrede nunca do
bom caminho.

 Aqui na capital?

 No, no interior. Comeo pela vila de
***.

Os dois velhos estremeceram; mas Simo
nada viu. No dia seguinte partiu Simo, no sem algumas instncias de seus pais
para que ficasse. Notaram eles que seu filho nem de leve tocara em Helena.
Tambm eles no quiseram mago-lo falando em tal assunto.

Da a dias, na vila de que falara frei
Simo, era um alvoroo para ouvir as prdicas do missionrio.

A velha igreja do lugar estava atopetada
de povo.

 hora anunciada, frei Simo subiu ao
plpito e comeou o discurso religioso. Metade do povo saiu aborrecido no meio
do sermo. A razo era simples. Avezado  pintura viva dos caldeires de Pedro
Botelho e outros pedacinhos de ouro da maioria dos pregadores, o povo no podia
ouvir com prazer a linguagem simples, branda, persuasiva, a que serviam de
modelo as conferncias do fundador da nossa religio.

O pregador estava a terminar, quando
entrou apressadamente na igreja um par, marido e mulher: ele, honrado lavrador,
meio remediado com o stio que possua e a boa vontade de trabalhar; ela,
senhora estimada por suas virtudes, mas de uma melancolia invencvel.

Depois de tomarem gua benta, colocam-se
ambos em lugar donde pudessem ver facilmente o pregador.

Ouviu-se ento um grito, e todos correram
para a recm-chegada, que acabava de desmaiar. Frei Simo teve de parar o seu
discurso, enquanto se punha termo ao incidente. Mas, por uma aberta que a turba
deixava, pde ele ver o rosto da desmaiada.

Era Helena.

No manuscrito do frade h uma srie de
reticncias dispostas em oito linhas. Ele prprio no sabe o que se passou. Mas
o que se passou foi que, mal conhecera Helena, continuou o frade o discurso.
Era ento outra coisa: era um discurso sem nexo, sem assunto, um verdadeiro
delrio. A consternao foi geral.

CAPTULO V

O delrio de frei Simo durou alguns
dias. Graas aos cuidados, pde melhorar, e pareceu a todos que estava bom,
menos ao mdico, que queria continuar a cura. Mas o frade disse positivamente
que se retirava ao convento, e no houve foras humanas que o detivessem.

O leitor compreende naturalmente que o
casamento de Helena fora obrigado pelos tios.

A pobre senhora no resistiu  comoo.
Dois meses depois morreu, deixando inconsolvel o marido, que a amava com
veras.

Frei Simo, recolhido ao convento,
tornou-se mais solitrio e taciturno. Restava-lhe ainda um pouco da alienao.

J conhecemos o acontecimento de sua
morte e a impresso que ela causara ao abade.

A cela de frei Simo de Santa gueda
esteve muito tempo religiosamente fechada. S se abriu, algum tempo depois,
para dar entrada a um velho secular, que por esmola alcanou do abade acabar os
seus dias na convivncia dos mdicos da alma. Era o pai de Simo. A me tinha
morrido.

Foi crena, nos ltimos anos de vida
deste velho, que ele no estava menos doido que frei Simo de Santa gueda.

FIM
