Conto, Onda, 1867

Onda

Texto-fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis/

Publicado originalmente em Jornal
das Famlias, 1867.

(*)

Na pia chamara-se Aurora; Onda era
o nome que lhe deram nos sales.

Por qu? A culpa era dela e de
Shakespeare; dela, que o mereceu; de Shakespeare, que o aplicou  instabilidade
dos coraes femininos.

Tinha um corao capaz de abrigar
seiscentos cavaleiros em dia de temporal, e at sem temporal. Batessem-lhe 
porta, que a hospitaleira castel abria sem maior indagao. Dava ao peregrino
gua para os ps, po alvo e vinho puro para o estmago, leito macio e aquecido
para o corpo. Mas, depois disto, fechava-se muito bem fechada em sua alcova, e,
rezando a Deus pela paz dos viajantes alojados, dormia tranqila em seu leito
solitrio.

De tais facilidades em dar asilo a
uns, mesmo quando outros ainda estavam sob o teto hospitaleiro,  que lhe
nasceu a denominao que serve de ttulo a estas pginas.

Prfida como a onda, disse um dia
um dos enganados, vendo-a passar em um carro e indo parar  porta do
Wallerstein.

O nome pegou.

Ora, vejamos, em minha
imparcialidade de historiador, se esta denominao lhe quadrava.

Coitadinha! no precisava muito
tempo para ler-lhe nos olhos, adivinhar-lhe os gestos, traduzir-lhe nos
sorrisos, a vivacidade, a dissimulao, a afabilidade que constituem o tipo da
moa namoradeira.

Via-se que ela conhecia a fundo
esta arte de atrair e prender os coraes e as vontades com um simples volver
de olhos, um simples meneio de leque.

Dera-lhe Deus uma beleza que era a
sua base de operaes. No  que a beleza seja absolutamente necessria. Sei de
algum que reconheceu uma mulher cujas feies examinadas, uma por uma, no
tinham trao algum de beleza; mas que sabia mover uns olhos que Deus lhe deu e
de que ela, seja dito em honra da verdade, fazia um mau uso. To mau, que este
algum em questo, depois de se apaixonar por eles, achou-se um dia sem corao
e sem futuro...

Se era assim com aquela, o que no
seria com esta, que, alm de um par de olhos vivssimos, formosssimos,
eloqentssimos, possua as verdadeiras formas de beleza feminina?

Onda sabia que tinha os olhos
bonitos: volvia-os a cada momento; sabia que possua mos de princesa: concertava
os cabelos de minuto a minuto; sabia que possua uns dentes e uma boca divinos:
sorria a propsito de cada coisa; sabia que os seus ps eram dos mais
perfeitos: procurava no sujar o vestido quando descia do carro.

De modo que, amigos ou estranhos,
pobres ou ricos, poetas ou prosas, velhos ou moos, todas as criaturas que
pertenciam ao sexo do autor e do leitor destas linhas, ficavam fascinados,
presos, apaixonados.

Ela cuidava extremamente de pr em
relevo a sua beleza mediante os inventos da arte. Era assinante dos melhores
jornais de modas e freguesa das melhores casas de novidades elegantes.
Distinga-se porm: a minha herona era casquilha para ser namoradeira, o que 
alguma coisa diferente da casquilha por casquilhice. Se me  lcito aplicar uma
frmula sria, direi que h entre as duas espcies a diferena que vai do
princpio de arte pela arte ao princpio de arte pela moral.

Onda sabia que o esprito do homem
deixa-se prender facilmente pelos atrativos artificiais juntos aos atrativos naturais,
e no deixava de aumentar pela cifra da elegncia a unidade da beleza com que a
natureza a dotara.

Acrescente-se a isto, que Onda
possua um gosto apuradssimo. Mesmo na escolha dos mais simples trajares
revelava-se nela a discrio, o acerto, a boa mo, para usar de uma expresso
popular.

Ora, no se resiste facilmente a
quem rene tantos predicados; e se a simples presena bastava para prender, o
que no era quando aquela boca se abria, como uma taa de mel do Himeto, e
destilava, no digo palavras, gotas de pura ambrosia do cu?

Assim que, naquelas guerras de
amor, a presena era o primeiro ataque, a palavra a batalha campal. Ningum
saa delas so e salvo; saa-se ferido, e, o que  mais, sem esperanas de
chegar a coronel. O tempo dava alguma confiana aos que se enamoravam dela em
virtude de uma reflexo que lhes parecia justa; e era que nem toda a vida Onda
faria de sua beleza uma simples rede para passatempo. Esta esperana
fortificava as coragens e inspirava as constncias. O prprio tempo os ia
desenganando at a hora em que se deu o episdio que vou narrar em poucas
palavras.

No momento em que Onda, completando vinte e cinco anos, pareceu chegar  idade razovel de passar do
capricho ao amor srio e digno, apareceu na intimidade da famlia desta
misteriosa donzela um rapaz, que meses antes chegara de uma longa viagem 
Europa  custa de um tio desembargador.

Antes de pisar o reino da nova
Diana j Ernesto ( o nome do heri) sabia com quem ia lidar. Meia dzia de
logrados tiveram cuidado de instru-lo da alcunha e das qualidades da moa.

Ernesto, depois de ouvir as
narraes e as imprecaes de todos, puxou uma fumaa, e brandindo um
chicotinho de junco, olhou para os seis e disse-lhes:

 No quero argi-los de fraqueza
ou inpcia; mas faamos uma aposta: o que perdem se eu conseguir domar essa
gentil pantera?

 Ora! exclamaram em coro os seis
ministros decados.

 Isso no  responder.

Um dos interlocutores respondeu:

 Mas  impossvel dom-la! disse
um que era poeta.

 Impossvel? exclamou Ernesto.
Meus amigos, se Penlope no tivesse pressentimento de que, mais tarde ou mais
cedo, Ulisses lhe apareceria em casa, no fiaria tanto, e em vez de sustentar a
tantos pretendentes, sustentaria apenas um, o que era mais acertado, no duplo
ponto de vista da economia e do corao. Onda, como lhe chamam, espera sem
dvida Ulisses que sou eu, e os vai iludindo at que eu aparea para entrar na
posse do direito que a natureza me conferiu. Esta  a verdade...

Cada qual dos seis pretendentes
desenganados tinha conscincia de ter feito os ltimos esforos, conscincia em
que entrava um tanto de fatuidade; mas tinham isso, e foi por isso que, quando
Ernesto acabou de falar, responderam todos com a mais estrondosa gargalhada.

A fatuidade falara em primeiro
lugar no esprito de Ernesto; a gargalhada ofendeu-lhe o amor-prprio;
insistiu, j srio, ou antes com aquele riso especial que em nossa lngua se
exprime to bem pelo riso amarelo; depois de dez minutos de renhida discusso,
assentou-se que, no caso de vitria, Ernesto teria direito s seguintes
prendas:

Um jantar no Hotel de Europa.

Um cavalo.

Um ms de vero em Petrpolis.

Uma assinatura do Teatro Lrico.

Um milheiro de charutos de Havana.

Saldar todos os credores.

Um manuscrito de Voltaire.

Esta ltima aposta era do poeta
que se gabava de possuir muitos manuscritos de homens clebres, e que,
declarando o que perderia, teve cuidado de fazer observar que perderia mais que
todos.

No caso em que Ernesto fosse derrotado pagaria aos outros, coletivamente, um lauto banquete.

Nisto despediram-se.

Ernesto estava compenetrado da
situao. Perder era correr-se de vergonha, sobretudo depois do tom em que
falara e da confiana que mostrava ter em si. Outras razes aduzia ainda: ganhar era, no s envergonhar a tantos, como ainda entrar de cabea alta na posse de
uma mulher formosa e de uma fortuna regular.

J por esta reflexo fica o leitor
instrudo de que Ernesto no era homem de dar uma polegada de si ao ideal. Uns
atravs dos olhos da mulher queriam ver a alma; Ernesto enxergou simplesmente
uma bolsa recheada. Este modo de traficar a prpria pessoa no  nenhuma
descoberta, nem eu me dou por Arquimedes. Aponto simplesmente mais este trao
do nosso heri.

Ora, o nosso heri, pesadas as
coisas, ficou determinado a entrar em combate.

'Qu'allait-il
faire dans cette galre?' * perguntaria Geronte.

O caso  que foi.

A primeira coisa que Ernesto
resolveu no seu esprito foi no ceder um palmo ao encanto de Onda. Era o
melhor meio para operar melhor. Estando a frio podia calcular, e calcular era,
pelo menos, criar as mesmas vantagens da inimiga.

No nos demoremos, leitor, com as
primeiras cenas deste namoro, que nos no adiantam nada. Saltemos uns vinte
dias e cheguemos a uma tarde de junho em que Onda, em companhia de duas amigas, espera a visita de Ernesto.

Depois de certa espera anuncia-se
a chegada do heri. Onda recebe-o com o melhor dos seus sorrisos.

Ernesto, contente de si,
cumprimentou o mais graciosamente que podia a bela e as amigas, e depois, com
uma graa que procurava ser natural, assentou-se na cadeira que Onda lhe
indicara com um gesto.

At este dia Ernesto tinha
procedido muito elementarmente: fazia um louvor  beleza de Onda entre dois
suspiros que magoavam  fora de parecerem magoados. Era, na opinio de
Ernesto, o primeiro meio, o mais natural, o mais prprio. O que  certo  que,
depois de alguns dias, Onda lhe parecera decidida a aceit-lo. Mas no seria
fingimento? dizia consigo Ernesto; e concluindo pela afirmativa, procurou
empregar todas as suas armas, de maneira que no s pudesse aferir a
sinceridade dos sentimentos da moa, mas ainda inspirar-lhe sentimentos
verdadeiramente sinceros e profundos.

Ora, eis aqui como ele estreou a
conversa:

 J sei que est com saudades de
mim?

 Ande l, respondeu Onda, ainda
bem que  o primeiro a fazer o captulo da prpria acusao.

 Sou criminoso.

 Talvez, no... Mas sabe por que
tive saudades?

 Porque no venho aqui h cinco
dias.

 Bem. E por que no veio?

Dizendo isto Onda cravou em
Ernesto um desses olhares que, procurando animar uma resposta, deixam o
esprito em perplexidade e confuso.

Ernesto esteve dois minutos sem
responder, mas tambm sem desviar os seus olhos dos olhos da moa.

 que aquele olhar era de fogo
grego que Onda guardara para a ocasio oportuna. Depois de uma ausncia de
cinco dias, parecendo que a presa se escapava, cumpria prend-la de modo que
no lhe desse mais ocasio de to longos esquecimentos.

Esse olhar era tudo. Derrubaram-se
os projetos de Ernesto: vinha com a inteno de experimentar o cime da moa,
trazia j redigida a mentira que servia de arma, mas tudo se lhe esqueceu, tudo
se inutilizou.

Sem desviar os olhos de Onda,
Ernesto balbuciou estas palavras:

 Estive doente...

 Doente? Com efeito, est plido.

Ernesto lanou rapidamente os
olhos para um espelho e reparou que estava realmente plido.

Mas esta palidez no resultava de
molstia alguma, ou antes resultava de uma molstia que s agora se manifestava
em toda a sua ao.

Onda estava segura de seu triunfo.
Via o efeito que produzia no esprito de Ernesto e comprazia-se nessa vitria
que to voluntariamente adiara. O essencial era convencer a Ernesto que ela o
amava. Ora, o tom das suas palavras, a magia do seu olhar, faziam entrar no
esprito do moo esta convico.

Depois de duas horas de conversa,
em que o tempo pareceu correr mais rapidamente do que costumava, para Ernesto
entende-se, Onda estendeu graciosamente a mo esquerda para Ernesto e
perguntou-lhe:

 Vai ao Teatro Lrico?

 Oh! com certeza!

Ernesto no se pde furtar a um
desejo de tomar alguma coisa do tesouro que se lhe oferecia. Levou a mo de
Onda aos lbios e imprimiu-lhe um beijo apaixonado.

 Deste beijo, pensava Ernesto,
pode nascer a minha ventura. Talvez at hoje ningum ousasse a isto.

E na verdade, Onda pareceu
estremecer sentindo os lbios do moo na pele alva e fina da sua mo de
princesa.

Quanto s duas amigas, essas voltaram
o rosto e no puderam esconder um sorriso, ao ver a figura de Ernesto e a graa
cortes com que ele se curvou e beijou a mo de Onda.

Ernesto saiu com os sentidos
exaltados, o corao palpitante, as idias confusas; estava definitivamente
namorado, e, o que  mais, pensava ele, tinha agarrado a bela fugitiva.

 noite foi ao Teatro Lrico.
Charton, que ento fazia as delcias do pblico fluminense, cantava nesse dia
uma das suas melhores criaes. O teatro estava cheio; todos aplaudiam a
artista com sincero entusiasmo; nessa noite no cantava a competidora de
Charton, a Emmy Lagrua; e, como  sabido, os freqentadores do teatro tinham-se
dividido em dois partidos extremados, fogosos, mais fogosos e extremados que os
partidos episcopais no conclio de Nica. *

S Ernesto no se filiava a nenhum
partido; o nico objeto de partido para ele fulgia em um camarote da 2 ordem.
Onda estava esplndida nessa noite. De sua cadeira Ernesto assestava quase
constantemente o seu binculo contra o camarote. Onda, que acompanhava todos os
gestos e movimentos de Ernesto, fitava o olhar nos vidros do binculo do moo e
deixava errar nos lbios um sorriso fascinador.

Ernesto sabia que o sorriso era
para ele, e subia proporcionalmente ao stimo cu.

Mas seria Ernesto o nico corteso
da beleza de Onda que se achava no teatro? Outros havia que, de diversos pontos
da sala, como outros tantos observadores astronmicos, estudavam a marcha e a
beleza daquele planeta. No fim do primeiro ato convenceram-se todos de que
havia na sala um preferido.

 Quem ser? foi a primeira
pergunta que cada qual fez a si.

E a resposta mental que para eles
mesmos deram a esta pergunta foi:

  natural que ele v ao
camarote.

E todos, caminhando por vias
diversas e separadamente, chegaram quase ao mesmo tempo a um mesmo ponto: o
camarote de Onda.

Eram trs. Ernesto completava o
nmero de quatro. Foi o ltimo que entrou, radiante e feliz.

Quando entrou viu os trs
competidores, que ele j conhecia, conversando alegremente com a esquiva dama.

Por que alegremente?

Onda, ao primeiro que apareceu e
que a censurara com meias palavras, respondeu:

 Pelo indiferente, ri-se; pelo
escolhido... sente-se.

O pretendente sentiu bater-lhe o
corao violentamente.

A tia de Onda, que se achava no
camarote, no ouviu a conversa, nem que ouvisse lhe prestaria ateno.

Casquilhice.

Ao segundo despeitado Onda
respondeu com um olhar significativo, como aquele que abatera Ernesto; ao
terceiro poupou os olhos para poder falar a mo graciosa cujos msculos
pareciam outros tantos fios eltricos.

De modo que, supondo-se cada qual
mais feliz que o outro, enchia-se de certa vaidade e olhava com sincera
compaixo para os outros.

E mais que todos Ernesto, que
entrou no camarote com aquela confiana de quem sabe que causa uma grande
satisfao, to grande como seria grande o aborrecimento que os outros
causariam.

E nenhum, depois de meia hora de
conversao, mudava de parecer. Onda sabia conservar no esprito de cada um a
convico da sua preferncia: uma palavra ambgua, um meneio de leque, um
olhar, um gesto, tudo lhe eram armas para combater a dvida e afirmar a f no
corao dos seus adoradores.

O resto da noite passou-se do
mesmo modo, repetindo-se as visitas e confirmando cada um no esprito do outro
a opinio de que era nscio e importuno.

No fim do espetculo foi Ernesto
que teve a honra de acompanhar Onda ao carro. Ia de cabea alta, lanando um
olhar de desdm para todos, e dirigindo-se freqentemente a Onda, que lhe
respondia com suma graa e volubilidade.

Junto aos ltimos degraus da
escada da porta lateral que d para a Rua dos Ciganos estavam os seis amigos da
aposta, risonhos e interrogativos.

Ernesto viu-os, cumprimentou-os
levemente e dirigiu-se para a porta. Um dos outros competidores trazia a velha
tia de Onda e apressou-se a descartar-se dela fazendo-a entrar na carruagem.
Depois, Ernesto conduziu a moa, f-la entrar e ia dizer duas palavras de
despedida quando sentiu que lhe ficara na mo o leno de cambraia da formosa
Onda.

Antes que o menor sinal de
admirao a comprometesse, Onda estendeu a mo a Ernesto e disse-lhe com voz
doce e insinuante:

 At amanh!

 At amanh!

A tia tambm repetiu, entre dois
bocejos, as duas palavras:

 At amanh!

Mas Ernesto j ali no estava.
Beijar o leno, met-lo na algibeira do palet e correr para os amigos que o
esperavam  porta do teatro, foi uma e a mesma coisa.

 Bravo! bravo! repetiram em coro
os amigos.

Ernesto no sabia que dizer. Olhava
para todos com um sorriso quase alvar, tal era o estado em que o deixara a
inesperada ventura da ddiva do leno.

  minha! pensava ele.

 Ento ganhaste a aposta?
perguntaram os outros.

 No sei: esperem. Quero
declarar-lhes a vitria completa no dia em que puder apelar para o
reconhecimento da igreja.

 Ah! ah! ento casas-te?

 Por que no? Oh! meus amigos,
mais tarde ou mais cedo hei de acabar por a. Sinto em mim a bossa conjugal.
Ningum foge  sina. Ora, se h de ser com outra, por que no h de ser com
esta? No lhes disse eu que era o Ulisses desta Penlope? Vero se acertei. O
que  certo  que, como o pai de Telmaco, tive meus naufrgios, e no fim de
tantas atribulaes aguardo a felicidade domstica. Trato agora de flechar os
pretendentes. Meus caros, a confiana e a coragem so tudo. Chnier tem razo :

................ Ami,
reprends courage,

Toujours le ciel glac ne
souffle point l'orage.

Le ciel, d'un jour 
l'autre, est humide ou serein. *

Esta conversa j tinha lugar na
rua. Uma parte da noite, em casa de um dos amigos, onde foram todos tomar ch,
Ernesto continuou no mesmo falar de segurana, e nos outros, apesar da prpria
experincia, foi desaparecendo a dvida para dar lugar a um convencimento que
no era isento de despeito.

No dia seguinte Ernesto foi  casa
de Onda e voltou de l mais do que encantado. A noite  boa conselheira; antes
de conciliar o sono, Ernesto refletira que a presena do leno em sua mo
poderia ser fortuita, e com este pensamento diminuram-se-lhe umas boas braas
do castelo que ele j construra em seu esprito. Mas to feliz era que se
enganou na sua presuno. Quando, para sondar a verdade das coisas, disse a
Onda que esta deixara cair por descuido o leno, ela olhou-o fixamente e
disse-lhe:

 Leno  apartamento. Vamos
experimentar se nos havemos de separar.

Era positivo.

Ernesto ficou fora de si.

Nessa noite chegando  casa
resolveu escrever  moa mostrando-lhe o estado da sua alma.

Deu ordem para que o no
incomodassem; mandou fazer caf, acendeu um charuto, leu e releu Proprcio e
Millevoye, e depois de duas horas de incubao intelectual redigiu o seguinte
manifesto do corao:

Minha prezada Senhora.  Uma
palavra sua vai ser para mim a condenao ou a salvao. Meu corao chegou ao
estado de s admitir estas solues extremas.

Bem sei quo grande  a minha
ousadia. Bem sei que pretender o seu amor  aspirar s estrelas do cu,  luz
divina da glria eterna; sou talvez indigno de receber das suas mos a coroa do
meu supremo martrio. E se, no meio desta ventura, posso discernir estas
coisas,  preciso que o amor que lhe consagro tome propores tais que me no
seja possvel conservar no fundo da minha mediocridade.

Amo-a; no cuide, porm, que este
amor, semelhante ao amor comum dos homens, fosse apenas o resultado de uma
fantasia e a concluso de um clculo. Vo. Este amor  caso de vida e de morte;
 um desses afetos em que a alma se empenha toda e do qual no pode sair s e
salva.

Desde que a vi, senti que o meu
corao tinha encontrado o seu ideal; onde h a beleza mais admirvel, mais
rara, mais completa? A antigidade tinha repartido os diversos modos da beleza
nas deusas que inventou. Mas nesta que o meu corao faz glria de amar
rene-se tudo: a majestade de Juno, o recato de Hebe, a beleza de Ciprina, o
aspecto virginal das trs Graas.

A um corao de poeta, posto que
de gnio no o seja eu, tal reunio de encantos no podia passar despercebida;
v-la, foi tornar-se cativo, e cativo desse cativeiro mgico que tem o dom de
fazer beijar os ferros e amar a condio.  que cativar-me assim, 
libertar-me,  deixar os laos da matria,  remontar-me  pura regio dos
gozos desconhecidos.

Em tal estado, a afirmativa ou a
negativa  uma sentena de vida ou de morte. Nas suas mos est fazer de mim um
venturoso ou um desgraado.

Talvez fora melhor que isto que
aqui lhe digo no papel fosse expresso de viva voz; mas eu no sei se teria
coragem de falar. Longe de seus olhos sinto-me menos acanhado, mais livre, mais
prprio para exprimir o estado do meu corao.

Aguardo a sua sentena. - Ernesto.

Apesar
de certa incongruncia e da aparente afetao desta carta, Ernesto releu-a
contente, admirando o belo estilo que at ali no descobrira em si.

Fechou a carta e arranjou meio de
faz-la chegar secretamente s mos de Onda.

A moa respondeu verbalmente que,
no dia seguinte, no sarau que se dava em casa de um tio dela, se entenderia com
Ernesto.

Ernesto recebeu com alguma
amargura esta resposta. Todavia sempre esperanado preparou-se para o sarau, e
l foi ter.

Antes de ir passou pelos olhos,
durante o dia, a cpia da carta com que ficara, e a cada perodo que lia
parecia-lhe que Onda no era capaz de resistir.

No quis ir cedo. Pareceu-lhe
melhor fazer-se esperar e fazer nascer da impacincia uma resposta mais pronta.
S s onze horas compareceu ao sarau.

Danava-se uma polca.

Onda e um cavalheiro (exatamente
um dos pretendentes do Teatro Lrico) faziam as delcias dos apreciadores da
polca.

Ernesto, com o corao aos pulos,
esperou, encostado a um portal, que a dana acabasse.

E posto que dali a dez minutos a
polca se tivesse acabado, tal era a impacincia de Ernesto, que lhe pareceu um
sculo.  que no era s a impacincia, era j o cime de v-la nos braos de
outro.

Terminada a polca, Onda, contra as
previses de Ernesto, foi percorrer alguns sales pelo brao do cavalheiro.

Que significava aquilo? Ernesto
ficou algum tempo perplexo. Finalmente refletiu que, tendo chegado poucos
minutos antes, no podia a moa saber logo da sua presena.

Devia ir falar-lhe.

Dava alguns passos quando um dos
amigos da aposta acercou-se dele e pediu-lhe novas do namoro.

Ernesto, procurando sorrir, disse
que mais tarde poderia dizer alguma coisa.

 Os outros esto aqui, disse o
amigo.

 Todos? perguntou Ernesto.

 Todos.

 Bem, at logo.

E dizendo isto, Ernesto foi-se em
procura da mulher que o prendia.

Atravessando uma sala viu
dirigir-se para ele o par que procurava. Deteve-se. E para aparentar
indiferena e acaso foi a um espelho e a fingiu consertar os cabelos, com a
mo, ao de leve.

Ficava assim de costas para os
dois e podia ver no reflexo do espelho se ela reparava nele ou no.

Ora, o que ele viu foi a moa
trocar com o cavalheiro um olhar de ternura, e este arrancar-lhe das mos, que
apenas opuseram fraca e doce resistncia, uma pequena flor que ela tirara do
ramalhete.

Ernesto enfiou.

Aps a comoo da cena que acabava
de presenciar, outra comoo o tomou: foi a vista do rosto plido com que
ficou.

Os dois passaram.

Ernesto deixou-se cair em um sof.

Quase a ganhar a batalha, no
momento da vitria decisiva, encontrava-se repentinamente no mesmo ponto em que
comeara as lutas.

Quando passou a primeira comoo
veio-lhe  lembrana a carta que escrevera e cuja resposta ia buscar. Mas devia
pedi-la depois do que presenciara? E no era a sua posio uma posio
ridcula?

Pensando em tudo isto, Ernesto
levantou-se e passeou  toa por todas as salas e corredores.

Danava-se, cantava-se, tocava-se;
ele nada via, nada ouvia; via o ridculo e o desdm. Supunha ter metido uma
lana em frica e descobria agora que era to medocre como os outros.

Nestas reflexes amargas andava,
quando, ao passar por uma das salas, ouviu a voz de Onda.

A voz partia do vo de uma janela.

Ernesto escondeu-se no vo da
janela contgua e procurou cobrir-se entre as cortinas para no ser visto se
algum passasse.

Depois prestou o ouvido 
conversao e procurou distinguir as vozes. No havia voz de homem. Alm de
Onda, havia uma voz de mulher. Falavam o nome dele. Redobrou de ateno.

 Como s feliz! dizia a voz
desconhecida.

 Feliz?

 Ou antes ardilosa!

 Por que ardilosa? Tenho eu culpa
que sejam todos os homens de uma mediocridade de esprito incomparvel?
Divirto-me, nada mais.

 Oh! mas esse, o Ernesto, no 
to medocre assim...

 Mais que os outros. Tem o que os
outros no tinham ou no pareciam ter: a vaidade de agradar por seus encantos.

 Pois este?...

  o que te digo. Acreditars tu
que foi s depois de muitos dias que me resolvi a prend-lo como todos? Ao
princpio afetava uma indiferena sem igual: parecia alheio a mim, e entretanto
eu sabia que ardia por figurar entre os meus adoradores. Hoje  o pior de
todos. Se visses a carta que me escreveu!

 Ah! escreveu-te...

 Oh! um regimento de tolices, sem
ps nem cabea, umas coisas j muito velhas e batidas, declarando-me que da
minha deciso dependia a felicidade ou a condenao dele. Quer fazer supor que
morre se eu responder que no o aceito em meu corao. Que tal?

 Pensei que este meio j se no
usava.

 Usa-se, usa-se...

 Mas dize-me c; no gostas de
algum?

 Por ora, no.

 Mas deveras ningum te inspirou
ainda amor?

 No. Que queres? Fui educada com
o recato maior deste mundo; entrando na convivncia das outras, e nas
distraes nos bailes, no pude logo ao principio tomar afeio alguma. Foi
tempo esse que gastei em duas coisas: em ler e observar. Ora, da leitura
adquiri idias talvez um pouco absurdas, mas enfim adquiri, e fora das quais
no compreendo o amor. Gosto de amar e ser amada por inspirao, e com
verdadeira paixo. At aqui nada tenho visto alm de uns amores vulgares que
no contentam o corao.

 E sabes se algum dia encontrars?

 Talvez... quem sabe?

 Ah! maliciosa! A anda coisa!

 Qual!

 Quem sabe se este ltimo, este
de hoje, o da flor?...

Nisto passava um grupo. As vozes
calaram-se e Ernesto foi obrigado a coser-se mais com a janela e a cobrir-se
com a cortina.

O rapaz suava ouvindo aquelas
coisas a seu respeito. Sentia o efeito que se sente ao acordar de um sonho em
que se parece estar no cimo de uma montanha, quando realmente se est a trs ou
quatro palmos do cho.

No era bem o amor dele que se
ressentia; era mais o amor-prprio ferido naquelas palavras com que era
tratado.

Depois de uma batalha to renhida
e cuidada, reparava ele que no passara de um joguete aos manejos de uma dama
ardilosa e namoradeira.

Quando pde de novo ouvir a
conversa que, alis, lhe chegava entrecortada e incompleta, j as duas moas
tratavam de outro ponto da questo.

 Mas o que pretendes fazer?
perguntou a desconhecida.

  conforme o modo por que ele me
falar. Talvez o receba com uma secura tal que ele nunca mais se lembre de mim.

 No tens pena de perd-lo?

 Ora, rei morto, rei posto.

 Dize antes: reis mortos, reis
postos!

Riram ambas, ambas se beijaram, e
dando o brao uma  outra saram dali como dois anjinhos que acabavam de pedir
a Deus por uma alma condenada.

Ernesto, apenas sentiu que elas j
estavam longe, saiu do seu esconderijo.

Que iria fazer? Esteve alguns
instantes sem tomar determinao alguma. Ainda no tinha falado a Onda; o
melhor meio que lhe pareceu era dirigir-se  moa, cumpriment-la e no tocar
no assunto da carta. Depois, se ela viesse de si ao assunto, falar conforme o
tom das suas palavras e procurar fugir ao ridculo e  afronta.

Tendo tomado esta resoluo,
Ernesto caminhou para o salo em busca de Onda. Tocava-se o sinal de uma
quadrilha. Ernesto dirigiu-se para Onda com um sangue frio afetado e fez-lhe, o
mais gracioso e indiferente que pde, um cumprimento. Depois convidou-a a
danar.

 E se eu tiver par? perguntou a
moa, um pouco admirada da discordncia que notava entre a carta e aqueles
modos.

 Pacincia; esperarei.

  to resignado assim?

 Por que no?

Mas os olhos de Onda, com que
Ernesto no contava, iam fazendo j o efeito do costume, de modo que a
indiferena com que ele viera determinado comeou a dar lugar a uma ternura
misturada com humildade. Onda respondeu:

 Pois quero dar-lhe uma prova de
amizade. Vou roer a corda ao par.

 Oh! isso!

 Por que no? Est dito: vamos
danar.

E, levantando-se, aceitou o brao
de Ernesto, que nada pde responder a estas palavras, to estranho lhe pareceu
aquele procedimento.

Formou-se a quadrilha e ambos
danaram, tendo exatamente por vis--vis a companheira de Onda e um dos rapazes
da aposta com Ernesto.

 intil dizer que nenhum
cavalheiro alegou a falta de Onda, visto que ela no tinha realmente par aceito
para a quadrilha.

Durante a dana os ressentimentos
de Ernesto foram desaparecendo cada vez mais. No fim estava quase como na hora
em que escreveu a carta.

Terminada a quadrilha foram os
dois para o pequeno terrao da casa.

A noite era das mais belas. Esta
circunstncia serviu de tema para as primeiras palavras de Ernesto, a quem
ocorreram no momento as palavras de uma situao de romance que ele lera alguns
dias antes.

Enquanto a conversa no passou
dessas banalidades, Onda mostrou-se amvel a mais no ser. Mas Ernesto, iludido
por essas aparncias, tendo esquecido perfeitamente a conversa da janela, ousou
falar bruscamente na carta e pedir uma resposta.

Da primeira vez Onda no
respondeu.

Ernesto insistiu na exigncia.

Onda convidou-o a lev-la ao
salo,

 Mas a carta?

 A carta? disse ela. Que carta?

 A que eu lhe mandei.

 Ah! ainda no li. Tive tanta coisa
em que cuidar ontem.

Ernesto enfiou deveras.

 No leu?

 No li.

Ernesto no se pde ter, e referiu
a conversa que ouvira entre Onda e sua amiga. Depois de ouvir a narrao que
Ernesto matizou de pontos de admirao, Onda contentou-se em responder:

 Foi sonho!

Ernesto no disse palavra ouvindo
isto.

Houve entre ambos um momento de
silncio.

Onda encetou conversa sobre coisas
diversas. Ernesto mal respondia por monosslabos.

Enfim, Onda pediu a Ernesto que a
conduzisse ao salo. Ernesto deu-lhe o brao e disse-lhe que tambm no se
demoraria no baile.

 Mas ir em minha casa amanh,
sim?

 Para qu? Para ouvir a
leitura...

E cortou subitamente o que ia
dizer.

Mas Onda adivinhou.

 Ora, disse ela. No falemos mais
nisso. V, que eu gosto de sua companhia.

Ernesto levou Onda ao salo e saiu
sem despedir-se de ningum.

Estava humilhado.

No dia seguinte, os seis amigos de
Ernesto receberam o seguinte bilhete:

Perdi a aposta.
Esto convidados a jantar hoje no Hotel de Europa s cinco horas. Enterro o
amor. - Ernesto.

s cinco horas os sete amigos
estavam  roda de uma mesa em uma das salas particulares do Hotel de Europa.

 Com que, perdeste? disse um.

 No te dizamos ns!
acrescentava outro.

 Aprendeste  tua custa, acudia o
terceiro.

 No sers tolo em outra ocasio,
observou filosoficamente o quarto.

 So as lides que formam
cavalheiros: isto  de um poeta, citava o poeta da reunio.

 O que te vale  que no pareces
ter perdido muita coisa do corao neste negcio, dizia o ltimo.

  verdade, respondia Ernesto,
dizes muito bem. Perdi, mas salvei o corao. Meu amor-prprio no deixou de
ressentir-se com isto; mas juro que fiz o que era humanamente possvel.  que
realmente a rapariga  insensvel. Pois, olha, posso afirmar que eu conheo o
nome aos bois...

Toda a conversa foi por este teor.

E era de ver a alegria sincera com
que Ernesto abriu a carteira, no fim do jantar, para saldar a vistosa conta que
o caixeiro lhe apresentara.

Devo dizer que o jantar que serviu
de funeral ao amor de Ernesto foi dos mais escolhidos.

Duas palavras, em forma de
eplogo, para fechar este ligeiro episdio.

Onda prosseguiu nos seus amores
fceis, dando a todos os mesmos desenganos que custaram a Ernesto... um jantar.

Mas enfim, se os namoros passavam,
tambm passava o tempo, e um dia, estando ao espelho, Onda viu que a primeira
ruga se lhe desenhava no rosto. Tinha ela ento trinta e trs anos. A ruga era
prematura, mas, fosse ou no, existia, e esta descoberta deu srio cuidado 
moa.

Esperar o amor que sonhara pelos
romances era arriscar-se, visto que  primeira ruga sucederiam outra e outras.

Era preciso achar marido.

Lanou as vistas a lista dos seus
adoradores, j muito diminuda, no porque lhe faltasse a beleza, mas porque
lhe sobrava travessura para os arredar.

Entre esses adoradores havia um
que pela terceira vez depositava o corao aos ps da bela namoradeira. Da
primeira vez era um simples tenente de cavalaria; da segunda era capito; agora
era j major.

Onda resolveu que lhe cumpria
assentar praa ao lado do major.

Da a um ms anunciava-se o seu
casamento. O major abenoou a sua insistncia e recebeu em matrimnio a esquiva
donzela.

Da para c Onda tem-se mostrado
fiel s armas.

Quando Ernesto e os outros
souberam disto fizeram muitos epigramas, alguns desconsolados e sensabores.

Mas a rapariga casou-se.

Ernesto no fim de dois anos
vingou-se de tudo procurando mulher e encontrando uma das mais modestas deste
mundo. Os dois casais so felizes; o leitor no menos por ter chegado ao fim
deste episdio sem derramar uma lgrima, e eu tanto como o leitor, por ter
pingado o ponto final a este escrito, cujo assunto principal  um desvio do
esprito das mulheres.
