Conto, A inglesinha Barcelos, 1894

A inglesinha Barcelos

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Publicado originalmente em A Estao, de 31/05/1894 a 30/06/1894.

Eram trintonas. Cndida era
casada, Joaninha solteira. Antes deste dia de maro de 1886, viram-se pela
primeira vez em 1874, em casa de uma professora de piano. Quase iguais de
feies, que eram midas, mes de estatura, ambas claras, ambas alegres, havia
entre elas a diferena dos olhos; os de Cndida eram pretos, os de Joaninha
azuis. Esta cor era o encanto da me de Joaninha, viva do Capito Barcelos,
que lhe chamava por isso a minha inglesa.  Como vai a sua inglesa?
perguntavam-lhe as pessoas que a queriam lisonjear. E a boa senhora ria-se
dalma, agradecia com palavras, com gestos, quase com beijos. Dentro de algum
tempo j a moa era conhecida no bairro pela inglesinha Barcelos. O bairro era
Catumbi. A viva possua ali uma casa, vivia dos aluguis de outra, do meio
soldo do marido e de umas dez aplices.

Era mais prspera a situao de
Candinha. Filha de um comerciante, conhecido por Chico Fernandes, abastado e
trabalhador, casou bem, com um advogado do Norte, que veio para o Rio de
Janeiro deputado, deixou a poltica, ou a poltica o deixou a ele, e abriu
banca de advocacia. Era moo, forte, estudioso: deu um nico desgosto ao sogro,
foi o de no ser Ministro do Estado. Este era o sonho de Chico Fernandes.
Parece que consentiu logo no casamento, justamente com a mira em vir a ser sogro
do governo, como ele mesmo dizia, brincando, no tempo em que o genro era
deputado. Mas o governo mudou de famlia, e o Chico Fernandes no se consolou.
A filha  o que o consolou dando-lhe um neto.

Mas, como ia dizendo, eram
trintonas, agora que se encontraram, em maro de 1886, em um armarinho da Rua
do Ouvidor. Perdoai a banalidade do encontro e do lugar; no vos hei de
inventar um palcio de Armida, nem a prpria Armida. H de ser um armarinho,
porque no foi em outra parte, nem na praia de Icara, nem no salo do Cassino,
nem no lugar mais pitoresco da Tijuca. Nem esta histria  de inveno
romntica;  real e prosaica. No se viam as duas desde quatro anos. Antes
disso j poucas vezes se encontravam, e de relance. A hora, porm, a boa
disposio de ambas, a conversao longa entre duas caixas de l, o desejo que
a amiga casada sentia de mostrar o filhinho de trs anos  amiga solteira, tudo
contribuiu para apertar um pouco os laos frouxos da amizade antiga, e a viva
prometeu que iria com a filha fazer uma visita a Candinha, no Flamengo.

No esqueamos um motivo mais,
secreto e quase imperceptvel, um vu tnue de tristeza que cobria o rosto de
Joaninha. Tristeza  muito; fadiga, talvez, certa fadiga de esprito. A fala da
moa, que era outrora to viva e precipitada, saa-lhe agora arrastada e
frouxa. O riso no era descomposto como dantes, nem o lugar o permitia.
Candinha lanou o olhar interrogativo ao vestido da amiga; era novo, bem-feito.
Os cabelos estavam penteados com cuidado. Os olhos no tinham perdido a cor nem
a graa.

 Adeus, inglesinha Barcelos 
disse Candinha ao despedir-se dela. Fica assentado: vo l um destes dias. Por
que no vo jantar? Vo jantar domingo. Vo; domingo jantamos cedo, vo cedo.

E na rua, consigo:

 Parece que tem alguma coisa,
est meio triste. Realmente solteira ainda; mas pode ser... quem sabe? Aquele
costume de namorar a torto e a direito... No  j o que era; mas ainda 
simptica. Quando me casei, estava com o dcimo namorado.

Disse ainda outras coisas esta
senhora: mas perderam-se nos abismos do esprito, em lugar de onde no posso ir
arranc-las. Contentemo-nos do que a fica; provavelmente  o mais
interessante. J no  pouco saber que a inglesinha Barcelos, quando a outra
casou, e casou aos vinte e cinco anos, ia no dcimo namorado. Enganava-se a
amiga: no sabia de dois, anteriores ao primeiro encontro na casa da
professora. Mas os dez conhecera-os bem; lembrava-se ainda do nome de alguns,
um Alfredo Ramos, um Vasconcelos, parece que um Tosta, Lulu Tosta ou coisa
assim.

Vasconcelos foi o primeiro da
dezena. Era estudante, morava na vizinhana. Comeou o namoro em dia de chuva,
passando ele pela calada fronteira, com as calas arregaadas. Joaninha olhava
para ele; Vasconcelos, petulante e vaidoso, cuidou que eram olhos de riso, e
riso de escrnio, e ia fazer alguma travessura de rapaz, quando reparou que
eram olhos de convite. Nada mais expressivo que o gesto de Joaninha brincando
com a ventarola. Travou-se o namoro; durou poucos meses, porque vieram as
frias, e o estudante voltou para a casa do pai, na roa.

Joaninha no sentiu a ausncia,
nem deu por ela seno alguns dias depois. J ento iniciara outro namoro com um
tal Alfredo Ramos. Este, que era namorador de profisso, no tinha outro
ofcio; mas se uma bonita figura supre os meios ordinrios da existncia, ele
podia t-los ordinrios e extraordinrios. Bem-feito, bem vestido, teso de
corpo, galhardo no passo, era de enfeitiar uma moa de dezoito anos. Joaninha
deixou-se ir. A princpio, os encontros eram adventcios; mais tarde, ele
comeou a passar pela casa a horas regulares, chovesse ou no. Joaninha, no
menos pontual, vivia para aqueles minutos, se esse verbo no  excessivo;
parece que  excessivo. Tanto no vivia, que desde que Alfredo Ramos entrou a
afrouxar ela afrouxou tambm, e um dia, por simples esquecimento, deixou de
esper-lo  janela.

Ele no tornou a passar, nem
nesse, nem nos dias seguintes. Ela pensou em outra coisa. Um ano depois, viu-o
fardado de capito da Guarda Nacional. Se pudesse atra-lo com os olhos,
t-lo-ia feito; mas o capito, no menos galhardo agora que dantes, cuidava s
em puxar a companhia, passo firme, espada nua.

O caso do Tosta foi mais longo,
mas teve igual desenlace. Comeou no teatro e acabou... No acabou; no se pode
dizer que acabasse. Viam-se menos, cada vez menos, de longe em longe;
esqueciam-se um do outro, mas tornavam a lembrar-se quando se encontravam, e
reatavam o namoro. Nos intervalos, a inglesinha Barcelos no esteve parada, e a
fim de no perder o tempo nem o costume, pegou alguns namoros adventcios. Um
dia, falando-se no Tosta, advertiu que no o via desde muito. Indagou, soube
que tinha ido casar em S. Paulo.

No sentiu a moa. Era ento a vez
de um Amrico, recentemente formado em medicina, que queria casar  pressa para
inspirar mais confiana s enfermas. Essa pressa os perdeu a ele e a ela.
Joaninha no gostava de hbitos cesarianos, chegar, ver e vencer. O namoro
havia de ir demorado, muito epistolar, feito de esperas, de olhos quebrados, de
ventarolas, de apertos de mo. Quase que, para esta moa, o melhor da festa era
esperar por ela. O jovem mdico, urgido pela idia de constituir famlia, virou
de bordo, e foi a outros mares. A nossa Dido carioca viu partir o fugitivo
Enas, mas no seguiu o exemplo da outra; a espada a que recorreu no foi para
se matar, mas para se consolar, e no foi espada, mas espadim. Viu um aspirante
de marinha que lhe levou a alegria aos olhos.

Chamava-se este novo namorado
Pimentel, era mocinho naturalmente, e tinha o aspecto gracioso e fino. Joaninha
ficou fora de si. Um aspirante! Derreteu-se toda, para falar como uma das suas
melhores amigas; mas o namoro durou pouco mais de dois meses. O rapaz saiu em
viagem de instruo, e esqueceu a mala, em que estava um retratinho dela. Hoje
 capito de fragata, casado, e, se lhe falarem na inglesinha Barcelos, 
provvel que no a conhea. Tinha namorado tantas!

Por muitos dias e semanas guardou
Joaninha a memria do aspirante. Tinha esperanas de que ele viria, ainda que
tarde, e a procuraria logo. Esperou cartas; escreveu algumas para lhe mandar,
quando soubesse que sobrescrito lhes devia pr. Conquanto fosse namorando
alguns rapazes de passagem, no esquecia o aspirante; este era o orago da igreja,
embora houvesse altares para outros santos. Os santos  que eram menos fixos;
recebiam duas rezas, quatro suspiros, uma vela acesa, e iam a outra freguesia.
No importa; Joaninha consolava-se de um com outro, e de todos com o aspirante.
Mas o aspirante voltara e no tornou a buscar a moa.

Um dia (dois anos passados), viu
ela um guarda-marinha na Rua do Ouvidor; era ele. Teve um estremeo de
alegria; logo depois empalideceu quando reparou que o belo guarda-marinha
disfaradamente desviava os olhos. Nesse dia parece que a inglesinha Barcelos
verteu uma lgrima, mas foi de raiva, e no na rua, mas em casa, pensando no
biltre. Biltre, foi o nome que lhe deu. A princpio chamava-lhe delcia da
minha alma.

A fama de namoradeira estava
fundada. J todo o mundo sabia que a inglesinha namorava a torto e a direito.
Quem se queria divertir, deitava-lhe os olhos, e achava parceiros certos. Dois
rapazes, por esprito de troa, ajustaram-se para namor-la ao mesmo tempo, e
confiarem um ao outro os progressos da aventura. Chamava-se um Barros, outro
Campos. Foram aceitos com alacridade. Diziam tudo um ao outro, os encontros, os
gestos, os olhares, por fim vieram as cartas. Eles as liam em casa,
comparando-as; e da primeira vez houve grande riso, porque a redao era a
mesma, e parecia tirada de algum formulrio. As outras j foram diversas; mas
no diminuiu o riso, pelos juramentos exclusivos que traziam todas, pelas
promessas de fidelidade, de amor eterno, de paixo invencvel. Barros cansou
depressa; Campos ainda aturou algum tempo, at que foi cuidar de outra coisa.

Assim foram passando os anos. No
se contam aqui os namoros de uma hora, de meia, de cinco minutos, de um
segundo, na loja ou igreja, na rua, ao dobrar uma esquina,  janela. Era a
multido annima e passageira, que no deixava lembrana, nem levava saudades,
em que no se distinguia uma cara de outra... eram todos. Joaninha chegara aos
vinte e sete anos nessa labutao estril. Viu casar a amiga Candinha, e ficou
 espera; outras casaram tambm.

Cuidando que fora inbil e frouxa,
tratou de apurar os meios e atirou-se a vrios trabalhos. No podia perder
tempo; andou a duas e trs amarras. Este processo no rendeu nada; iam chegando
os vinte e oito anos. Recolheu-se em si, como um animal que quer dar um bote, e
acertou de encontrar um Dr. Lapa, homem quadragenrio e magro, que usava luneta
muito grande, sem aro, e um boto de prola no peito da camisa.

 Que moa bonita! disse ele uma
vez, a outros com quem estava,  porta de uma loja.

Joaninha, em vez de corar,
voltou-se para ver o autor do cumprimento. A me, que tambm ouvira a palavra,
no se zangou com o gesto da filha. Ansiava por v-la casada. Talvez no sasse
tantas vezes com ela, seno por achar o bairro de Catumbi pouco buscado de noivos.
Quanto ao Dr. Lapa, vendo um arzinho particular na boca da moa, parecido com
riso, ficou lisonjeado e disparou, atravs do vidro do monculo, um olhar cheio
de admirao e fatuidade. E Joaninha teve arte de voltar a cara, adiante, para
falar  me, e ver se o moo estava olhando. Estava olhando.

Fez mais que olhar; acompanhou-a,
viu onde morava, passou pela porta nos dias seguintes, e, estando aceito,
cuidou de se fazer apresentar  me. No se deu por pretendente; conhecera o
pai de Joaninha, e com este motivo pretextou a entrada e a freqncia. Para
ela, que sabia o motivo secreto da apresentao, houve uma grande aleluia.
Enfim! A me, no se lembrando mais do dito, do olhar e da luneta, conheceu
todavia que os dois se viam com prazer, e adivinhou que havia alguma coisa.
Pedia a Deus que dessa vez fosse verdade. Rezava todas noites a Nossa Senhora
para que fizesse feliz a inglesinha. Alm da unio do casamento, havia a das
posses do candidato, que no eram excessivas, mas bastantes para fazer daquele
bilhete duas sortes grandes  casamento e dinheiro.

Joaninha ps em jogo o aparelho
dos grandes dias. Nunca foi mais belicosa do que ento. Olhos, lbios, dedos,
todos tinham gestos particulares e expressivos. Os suspiros saam tambm.
Conhecera a vantagem dos silncios e das atitudes metade elegantes, metade
dolorosas, e os vos rpidos dos olhos para o cu. Lapa trabalhava de luneta.
Quando ele a metia na arcada do olho esquerdo, encarquilhando a cara desse
lado, ficava mais desengraado que sem ela; mas Joaninha, que no procurava um
engraado, mas um marido, no notava a diferena ou agravo, e acudiu  luneta
com os seus olhos de vista clara e longa.

O pior  que ele no dizia nada;
eram s gestos. Nem palavras nem escritos. A verdade  que este Lapa no casara
h mais tempo, unicamente pela hesitao, irresoluo, dubiedade; encetara
alguns namoros, mas parara  porta da igreja, ou por medo, ou por avesso ao
acordo matrimonial. Daquela vez achou pessoa to audaz, que estava disposto ao
casamento, ou sups que estava. Quando ia, porm, a falar ou escrever, vinha o
receio de ficar obrigado, e diferia o ato. Prosseguia de luneta. Um dia chegou
a comear alguma coisa. Ela tocava ao piano um trecho terno de Donizetti.
A me ouvia com os olhos fechados; era o modo de sentir melhor a msica, dizia
ela; a filha acreditava que era o melhor modo de os deixar  vontade. Lapa fez
um esforo e disse baixinho:

 A senhora  divina ao piano.

Joaninha sorriu primeiro, depois
ficou sria, e quebrou os olhos para ele, que no continuou. Ento, para
anim-lo:

 Divinas so as santas, disse.

 Que  a senhora seno uma santa?

 Eu, uma santa?

 Uma santa, a mais bela das
santas.

Joaninha sorriu ainda e pagou o
cumprimento com um suspiro. Os dedos foram afrouxando, at no tocarem mais que
notas soltas e leves, como traduzindo o devaneio da dona, que trabalhava de
olhos.

 Uma bela santa! repetia
mudamente a luneta.

Uma bela santa! repetiram aos
ouvidos de Joaninha uns anjos invisveis, que a impediam de dormir e lhe
contavam coisas extraordinrias do cu, onde tudo eram Lapas e tudo lunetas,
servindo a uma s e nica entidade, o mais formoso dos Lapas, a mais cristalina
das lunetas.

Como os demais sonhos da moa,
este passou aps alguns dias de vo trabalho. Joaninha achou-se outra vez sem
esperanas. Vistes a longa srie deles, sem contar os de poucas horas, os de
minutos apenas, a multido sem nome nem figura. Onde iam os Ramos? Foram com os
Vasconcelos e os Tostas, os Pimentis e os Barros, os Campos e os Lapas.

Deu-se ento na alma da inglesinha
uma crise. Os romances trouxeram-lhe duas idias extraordinrias, atirar-se a
um lago ou meter-se a freira. Freira no podia ser, estando suprimido o
noviciado. Agarrou-se ao lago; mas os lagos, que eram grandes, homicidas e
secretos nos livros que lhe levavam as horas, no tinham gua na cidade. Os de
uma chcara que ela costumava visitar, no subiam de dois palmos dgua,
Joaninha no viu morte fsica nem moral; no achou meio de fugir a este mundo,
e contentou-se com ele. Da crise, porm, nasceu uma situao moral nova.
Joaninha conformou-se com o celibato, abriu mo de esperanas inteis,
compreendeu que estragara a vida por suas prprias mos.

 Acabou-se a inglesinha Barcelos,
disse consigo, resoluta.

E de fato, a transformao foi
completa. Joaninha recolheu-se a si mesma e no quis saber de namoros. Tal foi
a mudana que a prpria me deu por ela, ao cabo de alguns meses. Sups que
ningum j aparecia; mas em breve reparou que ela prpria no saa  porta do
castelo para ver se vinha algum. Ficou triste, o desejo de v-la casada no
chegaria a cumprir-se. No viu remdio prximo nem remoto; era viver e morrer,
e deix-la neste mundo, entregue aos lances da fortuna.

Ningum mais falou na inglesinha
Barcelos. A namoradeira passou de moda. Alguns rapazes ainda lhe deitavam os
olhos; a figura da moa no perdera a graa dos dezessete anos, mas nem passava
disso, nem ela os animava a mais. Joaninha fez-se devota. Comeou a ir  igreja
mais vezes que dantes;  missa ou s orar. A me no lhe negava nada.

 Talvez pense em pegar-se com
Deus, dizia ela consigo; h de ser alguma promessa.

Foi por esse tempo que lhe
apareceu um namorado, o nico que verdadeiramente a amou, e queria despos-la;
mas tal foi a sorte da moa, ou o seu desazo, que no chegou a falar-lhe nunca.
Era um guarda-livros, Arsnio Caldas, que a encontrou uma vez na Igreja de S.
Francisco de Paula, onde fora ouvir uma missa de stimo dia. Joaninha estava
apenas orando. Caldas viu-a ir de altar em altar, ajoelhando-se diante de cada
um, e achou-lhe um ar de tristeza que lhe entrou na alma. Os guarda-livros,
geralmente, no so romanescos, mas este Caldas era-o, tinha at composto,
entre dezesseis e vinte anos, quando era simples ajudante de escrita, alguns
versos tristes e lacrimosos, e um breve poema sobre a origem da lua. A lua era
uma concha, que perdera a prola, e todos os meses abria-se toda para receber a
prola; mas a prola no vinha, porque Deus, que a achara linda, tinha feito
dela uma lgrima. Que lgrima? A que ela verteu um dia, por no v-lo a ele.
Que ele e que ela? Ningum; uma dessas paixes vagas, que atravessam a
adolescncia, como ensaios de outras mais fixas e concretas. A concepo,
entretanto, dava idia da alma do rapaz, e a imaginao, se no extraordinria,
mal se podia crer que viasse entre o dirio e a razo.

Com efeito, este Caldas era
sentimental. No era bonito, nem feio, no tinha expresso. Sem relaes,
tmido, vivia com os livros durante o dia, e  noite ia ao teatro ou a algum
bilhar ou botequim. Via passar mulheres; no teatro, no deixava de as esperar
no saguo; depois ia tomar ch, dormia e sonhava com elas. s vezes, tentava
algum soneto, celebrando os braos de uma, os olhos de outra, chamando-lhes
nomes bonitos, deusas, rainhas, anjos, santas, mas ficava nisso.

Contava trinta e um anos, quando
sucedeu ver a inglesinha Barcelos na Igreja de S. Francisco. Talvez no fizesse
nada, se no fosse a circunstncia j dita de v-la rezar a todos os altares.
Imaginou logo, no devoo nem promessa, mas uma alma desesperada e solitria.
A situao moral, se tal era, parecia-se com a dele; no foi preciso mais para
que se inclinasse  moa, e a acompanhasse at Catumbi. A viso tornou com ele,
sentou-se  escrivaninha, aninhou-se entre o deve e o h de haver, como uma
rosa cada em moita de ervas bravias. No  minha esta comparao;  do prprio
Caldas, que nessa mesma noite tentou um soneto. A inspirao no acudiu ao
chamado, mas a imagem da moa de Catumbi dormiu com ele e acordou com ele.

Da em diante, o pobre Caldas
freqentou o bairro. Ia e vinha, passava muitas vezes, espreitava a hora em que
pudesse ver Joaninha, s tardes. Joaninha aparecia  janela; mas, alm de no
ser j to assdua como antes, era voluntariamente alheia  menor sombra de
homem. No fitava nenhum; no dava sequer um desses olhares que no custam nada
e no deixam nada. Fizera-se uma espcie de freira leiga.

 Creio que ela hoje me viu,
pensava consigo o guarda-livros, uma tarde, em que ele, como de uso, passara
por baixo das janelas, levantando muito a cabea.

A verdade  que ela tinha os olhos
na erva que crescia  beira da calada, e o Caldas, que ia passando,
naturalmente entrou no campo da viso da moa; mas to depressa ela o viu,
levantou os olhos e estendeu-os  chamin da casa fronteira. Caldas, porm,
edificou sobre essa probabilidade um mundo de esperanas. Casariam talvez
naquele mesmo ano. No, ainda no; faltavam-lhe meios. Um ano depois. At l
dar-lhe-iam interesse na casa. A casa era boa e prspera. Vieram clculos de
lucro. A contabilidade deu o brao  imaginao, e disseram muitas coisas
bonitas uma  outra; algarismos e suspiros trabalharam em comum, tais como se
fossem do mesmo ofcio.

Mas o olhar no se repetiu
naqueles dias prximos, e o desespero entrou na alma do guarda-livros.

A situao moral deste agravou-se.
Os versos entraram a cair entre as contas, e os dinheiros entrados nos livros
da casa mais pareciam sonetos que dinheiro. No  que o guarda-livros os
escriturasse em verso; mas alternava as inspiraes com os lanamentos, e o
patro, um dia, foi achar entre duas pginas de um livro um soneto imitado de
Bocage. O patro no conhecia esse poeta nem outro, mas conhecia versos e sabia
muito bem que no havia entre os seus devedores nenhum Lrio do cu, lrio
cado em terra.

Perdoou o caso, mas entrou a
observar o empregado. Este, por sua desgraa, ia de mal a pior. Um dia, quando
menos esperava, disse-lhe o patro que procurasse outra casa. No lhe deu
razes; o pobre-diabo, alis tmido, tinha certo orgulho que lhe no permitiu
ficar mais tempo e saiu logo.

No h mau poeta, nem
guarda-livros relaxado que no possa amar deveras; nem ruins versos tiraram
jamais a sinceridade de um sentimento ou o fizeram menos forte. A paixo deste
pobre moo desculpar os seus desazos comerciais e poticos. Ela o levou por
descaminhos inesperados; f-lo passar crises tristssimas. Tarde achou um mau
emprego. A necessidade f-lo menos assduo em Catumbi. Os emprstimos eram poucos e escassos; por muito que ele cortasse a comida (morava
com um amigo, por favor), no lhe davam sempre para os colarinhos imaculados,
nem as calas so eternas. Mas essas ausncias longas no tiveram o condo de
abafar ou atenuar um sentimento que, por outro lado, no era alimentado pela
moa; novo emprego melhorou um tanto a situao do namorado. Voltou a ir l
mais vezes. Era fim do vero, as tardes tendiam a diminuir, e pouco tempo lhe restaria
delas para dar um pulo a Catumbi. Com o inverno cessaram os passeios; Caldas
desforrava-se aos domingos.

No me pergunteis se tentou
escrever a Joaninha; tentou, mas as cartas ficavam-lhe na algibeira; eram
depois reduzidas a verso, para suprir as lacunas da inspirao. Recorreu aos
bilhetes misteriosos, nos jornais, com aluses  moa de Catumbi, marcando dia
e hora em que ela o veria passar. Joaninha parece que no lia jornais, ou no
dava com os bilhetes. Um dia, por acaso, sucedeu ach-la  janela. Sucedeu
tambm que ela sustentasse o olhar dele. Eram velhos costumes, jeitos de outro
tempo, que os olhos no haviam perdido; a verdade  que ela no o viu. A
iluso, porm, foi imensa, e o pobre Caldas achou naquele movimento
inconsciente da moa uma adeso, um convite, um perdo, quando menos, e do
perdo  cumplicidade bem podia no ir mais que um passo.

Assim correram dias e dias,
semanas e semanas. No fim do ano, Caldas achou a porta fechada. Cuidou que ela
se houvesse mudado e indagou pela vizinhana. Soube que no; uma pessoa de
amizade ou ainda parenta, levara a famlia para um stio no interior.

 Por muito tempo?

 Foram passar o vero.

Caldas esperou que o vero
acabasse. O vero no andou mais depressa que de costume; quando comeou o outono,
Caldas foi um dia ao bairro e achou a porta aberta. No viu a moa, e achou
esquisito que no regressava de l, como antes, comido de desespero. Pde ir ao
teatro, pde ir cear. Entrando em casa, recapitulou os longos meses de paixo
no correspondida, pensou nas fomes passadas para poder atar uma gravata nova,
chegou a recordar alguma coisa parecida com lgrimas. Foram porventura os seus
melhores versos. Vexou-se desses, como j se vexara dos outros. Quis voltar a
Catumbi, no domingo prximo, mas a histria no guardou a causa que impediu
esse projeto. S guardou que ele tornou a ir ao teatro e a cear.

Um ms depois, como passasse pela
Rua da Quitanda, viu paradas duas senhoras, diante de uma loja de fazendas. Era
a inglesinha Barcelos e a me. Caldas chegou a parar um pouco adiante; no
sentiu o alvoroo antigo, mas gostou de v-la. Joaninha e a me entraram na
loja; ele passou pela porta, olhou sem parar e foi adiante. Tinha de estar na
praa s duas horas e faltavam cinco minutos. Joaninha no suspeitou sequer que
ali passara o nico homem a quem no correspondeu, e o nico que
verdadeiramente a amou.
