CRTICA, Idias sobre o Teatro, 1859

Idias sobre o Teatro

Textos-Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis,

Rio
  de Janeiro: Nova Aguilar, vol. II, 1994.

Crtica Teatral, Machado de Assis.

Rio de Janeiro: Edies W.M.
  Jackson, 1938.

Publicado
  originalmente em O Espelho,I,
  25 de set.; II, 02 de out.; 25 de dez. de 1859;

 A
  Marmota, Rio de Janeiro, 16 de maro de 1860.

I

A arte dramtica no  ainda entre ns um culto; as
  vocaes definem-se e educam-se como um resultado acidental. As perspectivas do
  belo no so ainda o m da cena; o fundo de uma
  posio importante ou de um emprego suave,  que para l impele as tendncias
  balbuciantes. As excees neste caso so to raras, to isoladas que no
  constituem um protesto contra a verdade absoluta da assero.

No sendo, pois, a arte um culto, a idia desapareceu do
  teatro e ele reduziu-se ao simples foro de uma secretaria de Estado. Desceu
  para l o oficial com todos os seus atavios: a pndula marcou a hora do trabalho, e o talento prendeu-se no montono
  emprego de copiar as formas comuns, cedias e fatigantes de um aviso sobre a
  regularidade da limpeza pbica.

Ora, a espontaneidade pra onde o oficial comea; os
  talentos, em vez de se expandirem no largo das concepes infinitas,
  limitaram-se  estrada indicada pelo resultado real e representativo das suas
  fadigas de trinta dias. Prometeu atou-se ao Cucaso.

Daqui uma poro de pginas perdidas. As vocaes viciosas
  e simpticas sufocaram debaixo da atmosfera de gelo, que parece pesar, como um
  sudrio de morto sobre a tenda da arte. Daqui o pouco ouro que havia. l vai quase que despercebido no meio da terra que preenche
  a mbula sagrada.

Sero desconhecidas as causas dessa prostituio imoral?
  No  difcil assinalar a primeira, e talvez a nica que maiores efeitos tem
  produzido. Entre ns no h iniciativa.

No h iniciativa, isto , no h mo poderosa que abra
  uma direo aos espritos; h terreno, no h semente; h rebanho, no h
  pastor; h planetas, mas no h outro sistema.

A arte para ns foi sempre rf; adornou-se nos esforos,
  impossveis quase, de alguns caracteres de ferro, mas, caminho certo, estrela
  ou alvo, nunca os teve.

Assim, basta a boa vontade de um exame ligeiro sobre a
  nossa situao artstica para reconhecer que estamos na infncia da moral; e
  que ainda tateamos para darmos com a porta da adolescncia que parece escondida
  nas trevas do futuro.

A iniciativa em arte dramtica no se limita ao estreito
  crculo do tablado -- vai alm da rampa, vai ao povo. As platias esto aqui perfeitamente
  educadas? A resposta  negativa.

Uma platia avanada, com um
  tablado balbuciante e errado,  um anacronismo, uma impossibilidade. H uma interna
    relao entre uma e outro. Sfocles hoje faria rir ou enjoaria as massas, e as
    platias gregas pateariam de boa vontade uma cena de
    Dumas ou Barrire.

A iniciativa, pois, deve ter uma mira nica: a educao.
  Demonstrar aos iniciados as verdades e as concepes da arte; e conduzir os
  espritos flutuantes e contrados da platia  esfera dessas concepes e
  dessas verdades. Desta harmonia recproca de direes acontece que a platia e
  o talento nunca se acham arredados no caminho da civilizao.

Aqui h um completo deslocamento: a arte divorciou-se do
  pblico. H entre a rampa e a platia um vcuo imenso de que nem um nem outra
  se apercebe.

A platia ainda dominada pela impresso de uma atmosfera,
  dissipada hoje no verdadeiro mundo da arte, -- no pode sentir claramente as
  condies vitais de uma nova esfera que parece encerrar o esprito moderno. Ora,
   arte tocava a explorao dos novos mares que se lhe apresentam no horizonte,
  assim como o abrir gradual, mas urgente, dos olhos do pblico. Uma iniciativa
  firme e fecunda e o elixir necessrio  situao; um dedo que, grupando platia
  e tablado, folheie a ambos a grande bblia da arte moderna com toda as relaes sociais,  do que precisamos na atualidade.

Hoje no h mais pretenses, creio eu, de metodizar uma
  luta de escola, e estabelecer a concorrncia de dois princpios.  claro ou 
  simples que a arte no pode aberrar das condies atuais da sociedade para
  perder-se no mundo labirntico das abstraes. O teatro  para o povo o que o
  Coro era para o antigo teatro grego; uma iniciativa de moral e civilizao.
  Ora, no se pode moralizar fatos de pura abstrao em
  proveito das sociedades; a arte no deve desvairar-se no doido infinito das
  concepes ideais, mas identificar-se com o fundo das massas; copiar,
  acompanhar o povo em seus diversos movimentos, nos vrios modos da sua
  atividade.

Copiar a civilizao existente e adicionar-lhe uma
  partcula,  uma das foras mais produtivas com que
  conta a sociedade em sua marcha de progresso ascendente.

Assim os desvios de uma sociedade de transio l vo
  passando e  arte moderna toca corrigi-la de todo. Querer levantar luta entre
  um princpio falso, decado, e uma idia verdadeira que se levanta,  encerrar
  nas grades de uma gaiola as verdades puras que se evidenciavam no crebro de
  Salomo de Caus.

Estas apreenses so tomadas de alto e constituem as
  bordas da cratera que  preciso entrar. Desamos ate as aplicaes locais.

A arena da arte dramtica entre ns  to limitada, que 
  difcil fazer aplicaes sem parecer assinalar fatos, ou ferir
  individualidades. De resto,  de sobre
  individualidades e fatos que irradiam os vcios e as virtudes, e sobre eles
  assenta sempre a anlise. Todas as suscetibilidades, pois, so inconseqentes,
  -- a menos que o erro ou a maledicncia modelem estas ligeiras apreciaes.

A reforma da arte dramtica estendeu-se at ns e pareceu
  dominar definitivamente uma frao da sociedade.

Mas isso  o resultado de um esforo isolado operando por
  um grupo de homens. No tem ao larga sobre a sociedade. Esse esforo tem-se
  mantido e produzido os mais belos efeitos; inoculou em algumas artrias o
  sangue das novas idias, mas no o pde ainda fazer relativamente a todo o
  corpo social.

No h aqui iniciativa direta e relacionada com todos os
  outros grupos e filhos da arte.

A sua ao sobre o povo limita-se a um crculo to pequeno
  que dificilmente faria resvalar os novos dogmas em todas as direes sociais.

Fora dessa manifestao singular e isolada, -- h algumas
  vocaes que de bom grado acompanhariam o movimento artstico de sorte a
  tomarem uma direo mais de acordo com as opinies do sculo. Mas so ainda
  vocaes isoladas, manifestaes impotentes. Tudo  abafado e se perde na
  grande massa.

Assinaladas e postas de parte certas crenas ainda cheias
  de f, esse amor ainda santificado, o que resta? Os mercadores entraram no
  templo e l foram pendurar as suas alfaias de fancaria.
  So os jesutas da arte; os jesutas expuseram o Cristo por tabuleta e
  curvaram-se sobre o balco para absorver as fortunas. Os novos invasores
  fizeram o mesmo, a arte  a inscrio com que parecem absorver fortunas e
  seiva.

A arte dramtica tornou-se definitivamente uma carreira
  pblica.

Dirigiram mal as tendncias e o povo. Diante das vocaes
  colocaram os horizontes de um futuro inglrio, e fizeram crer s turbas que o
  teatro foi feito para passatempo. Aquelas e este tomaram caminho errado; e
  divorciaram-se na estrada da civilizao.

Deste mundo sem iniciativa nasceram o anacronismo, as anomalias, as contradies grotescas, as mascaradas, o
  marasmo. A musa do tablado doidejou com os vestidos de arlequim, -- no meio das
  apupadas de uma multido bria.

 um fiat de reforma que precisa este caos.

H mister de mo hbil que ponha em ao, com proveito para a arte e para o pas, as subvenes improdutivas,
  empregadas na aquisio de individualidades parasitas.

Esta necessidade palpitante no entra na vista dos nossos
  governos. Limitam-se ao apoio material das subvenes e deixam entregue o
  teatro  a mos ou profanas ou malficas.

O desleixo, as lutas internas, so os resultados
  lamentveis desses desvios da arte. Levantar um paradeiro a essa corrente
  despenhada de desvarios,  a obra dos governos e das iniciativas
  verdadeiramente dedicadas.

II

Se o teatro como tablado degenerou entre ns, como
  literatura  uma fantasia do esprito.

No se argumente com meia dzia de tentativas, que
  constituem apenas uma exceo; o poeta dramtico no  ainda aqui um sacerdote,
  mas um crente de momento que tirou simplesmente o chapu ao passar pela porta
  do templo. Orou e foi caminho.

O teatro tornou-se uma escola de aclimatao intelectual
  para que se transplantaram as concepes de estranhas atmosferas, de cus
  remotos. A misso nacional, renegou-a ele em seu
  caminhar na civilizao; no tem cunho local; reflete as sociedades estranhas,
  vai ao impulso de revolues alheias  sociedade que representa, presbita da
  arte que no enxerga o que se move debaixo das mos.

Ser aridez de inteligncia? no o creio.  fecunda de talentos a sociedade atual. Ser falta de nimo? talvez; mas ser essencialmente falta de emulao. Essa  a
  causa legtima da ausncia do poeta dramtico; essa no outra.

Falta de emulao? Donde vem ela? Das platias?

Das platias. Mas  preciso entender: das platias, porque
  elas no tm, como disse, uma seduo real e
  conseqente.

J assinalei a ausncia de iniciativa e a desordem que
  esteriliza e mata tanto elemento aproveitvel que a arte em caos encerra. A
  essa falta de um raio condutor se prende ainda a deficincia
    de poeta dramticos.

Uma educao viciosa constitui o paladar das platias.
  Fizeram ar em face das multides uma procisso de manjares
    esquisitos de um sabor estranho, no festim da arte, os naturalizaram sem
  cuidar dos elementos que fermentavam em torno de nossa sociedade, e que s
  esperavam uma mo poderosa para tomarem uma forma e uma direo.

As turbas no so o mrmore que
  cede somente ao trescalar laborioso do escopro, so a argamassa que se amolda 
  presso dos dedos. Era fcil dar-lhes uma fisionomia; deram-lha. Os olhos foram
  rasgados para verem segundo as convenincias singulares de uma autocracia
  absoluta.

Conseguiram faz-lo.

Habituaram a platia nos boulevards elas esqueceram as distncias
  e gravitam em um crculo vicioso. Esqueceram-se de si
  mesmas; e os czares da arte lisonjeiam-lhes a iluso com esse manjar exclusivo
  que deitam  mesa pblica.

Podiam dar a mo aos talentos que se grupam
  nos derradeiros degraus a espera de um chamado.

Nada!

As tentativas nascem pelo esforo sobre-humano de alguma
  inteligncia onipotente, -- mas passam depois de assinalar um sacrifcio, mais
  nada!

E, de feito, no  mau este proceder.  uma mina o
  estrangeiro, h sempre que tomar  mo; e as inteligncias no so mquinas
  dispostas s vontades e convenincias especulativas.

Daqui o nascimento de uma entidade: o tradutor dramtico,
  espcie de criado de servir que passa, de uma sala a
  outra, os pratos de uma cozinha estranha.

Ainda mais essa!

Dessa deficincia de poetas dramticos, que de coisas
  resultam! que deslocamentos!

Vejamos.

Pelo lado da arte o teatro deixa de ser uma reproduo da
  vida social na esfera de sua localidade. A crtica resolver debalde o
  escalpelo nesse ventre sem entranhas prprias, pode ir procurar o estudo do
  povo em outra face; no teatro no encontrar o cunho nacional mas uma galeria bastarda, um grupo furta-cor, uma associao de
  nacionalidades.

A civilizao perde assim a unidade. A arte, destinada a
  caminhar na vanguarda do povo como uma preceptora, -- vai copiar as sociedades ultrafronteiras.

Tarefa estril!

No pra aqui. Consideremos o teatro como um canal de
  iniciao. O jornal e a tribuna so os outros dois meios de proclamao e
  educao pblica. Quando se procura iniciar uma verdade busca-se um desses
  respiradouros e lana-se o pomo s multides ignorantes. No pas em que o
  jornal, a tribuna e o teatro tiverem um desenvolvimento conveniente -- as caligens cairo aos olhos das massas; morrer o privilgio,
  obra de noite e da sombra; e as castas superiores da sociedade ou rasgaro os
  seus pergaminhos ou cairo abraadas com eles, como em sudrios.

 assim, sempre assim; a palavra escrita na imprensa, a palavra falada na tribuna, ou a palavra dramatizada no
  teatro, produziu sempre uma transformao.  o grande fiat de todos os tempos.

H porm uma diferena: na
  imprensa e na tribuna a verdade que se quer proclamar  discutida, analisada, e
  torcida nos clculos da lgica; no teatro h um processo mais simples e mais
  ampliado; a verdade parece nua, sem demonstrao, sem anlise.

Diante da imprensa e da tribuna as idias abalroam-se,
  ferem-se, e lutam para acordar-se; em face do teatro o homem v, sente, palpa;
  est diante de uma sociedade viva, que se move, que se levanta, que fala, e de cujo composto se deduz a verdade, que as massas colhem por meio
  de iniciao. De um lado a narrao falada ou cifrada, de outro a narrao
  estampada, a sociedade reproduzida no espelho fotogrfico de forma dramtica.

 quase capital a diferena.

No s o teatro  um meio de propaganda, como tambm  o
  meio mais eficaz, mais firme, mais insinuante.

 justamente o que no temos.

As massas que necessitam de verdades, no as encontraro no
  teatro destinado  reproduo material e improdutiva de concepes deslocadas
  da nossa civilizao, -- e que trazem em si o cunho de sociedades afastadas.

 uma grande perda; o sangue da civilizao, que se
  inocula tambm nas veias do povo pelo teatro, no desce a animar o corpo
  social: ele se levantar dificilmente embora a gerao presente enxergue o
  contrrio com seus olhos de esperana.

Insisto pois na assero: o
  teatro no existe entre ns: as excees so esforos isolados que no atuam,
  como disse j, sobre a sociedade em geral. No h um teatro nem poeta
  dramtico...

Dura verdade, com efeito! Como! pois imitamos as frivolidades estrangeiras, e no aceitamos os seus dogmas de arte?
   um problema talvez; as sociedades infantes parecem balbuciar as verdades, que
  deviam proclamar para o prprio engrandecimento. Ns temos medo da luz, por
  isso que a empanamos de fumo e vapor.

Sem literatura dramtica, e com um tablado, regular aqui,
   verdade, mas deslocado e defeituoso ali e alm, -- no podemos aspirar a um
  grande passo na civilizao.  arte cumpre assinalar como um relevo na histria
  as aspiraes ticas do povo -- e aperfeio-las e conduzi-las, para um
  resultado de grandioso futuro.

O que e necessrio para esse fim?

Iniciativa e mais iniciativa.

III

O Conservatrio Dramtico

A literatura dramtica tem, como todo o povo constitudo,
  um corpo policial, que lhe serve de censura e pena:  o conservatrio.

Dois so, ou devem ser, os fins
  desta instituio: o moral e o intelectual. Preenche o
  primeiro na correo das feies menos decentes das concepes dramticas;
  atinge ao segundo analisando e decidindo sobre o mrito literrio -- dessas
  mesmas concepes.

Com estes alvos um conservatrio dramtico  mais que til,
   necessrio. A crtica oficial, tribunal sem apelao, garantido pelo governo,
  sustentado pela opinio pblica,  a mais fecunda das crticas, quando pautada
  pela razo, e despida das estratgias surdas.

Todas as tentativas, pois, todas as idias para nulificar
  uma instituio como esta,  nulificar o teatro, e tirar-lhe a feio
  civilizadora que por ventura lhe assiste.

Corresponder  definio que aqui damos desse tribunal de
  censura, a instituio que temos a chamada --
  Conservatrio Dramtico? Se no corresponde, onde est a causa desse divrcio
  entre a idia e o corpo?

Dando  primeira pergunta uma negativa, vejamos onde
  existe essa causa.  evidente que na base, na constituio interna, na lei de
  organizao. As atribuies do Conservatrio limitam-se a apontar os pontos descarnados do corpo que a decncia manda cobrir: nunca as
  ofensas feitas s leis do pas, e  religio... do Estado; mais nada.

Assim procede o primeiro fim a
  que se prope uma corporao dessa ordem; mas o segundo? nem uma concesso, nem um direito.

Organizado desta maneira era intil reunir os homens da
  literatura nesse tribunal; um grupo de vestais bastava.

No sei que razo se pode alegar em defesa da organizao
  atual do nosso Conservatrio, no sei. Viciado na primitiva, no tem ainda hoje
  uma frmula e um fim mais razovel com as aspiraes do teatro e com o senso
  comum.

Preenchendo o primeiro dos dois alvos a que deve atender, o Conservatrio, em vez de se constituir um corpo
  deliberativo, torna-se uma simples mquina, instrumento comum, no sem ao,
  que traa os seus juzos sobre as linhas implacveis de um estatuto que lhe
  serve de norma.

Julgar de uma composio pelo que toca s ofensas feitas 
  moral, s leis e  religio, no  discutir-lhe o mrito puramente literrio,
  no pensamento criador, na construo cnica, no desenho dos caracteres, na
  disposio das figuras, no jogo da lngua.

Na segunda hiptese h mister de conhecimentos mais
  amplos, e conhecimentos tais que possam legitimar uma magistratura intelectual.
  Na primeira, como disse, basta apenas meia dzia de vestais e duas ou trs daquelas fidalgas devotas do rei de Mafra. Estava preenchido o
  fim.

Julgar do valor literrio de uma composio,  exercer uma
  funo civilizadora, ao mesmo tempo que praticar um
  direito do esprito;  tomar um carter menos vassalo, e de mais iniciativa e
  deliberao.

Contudo por vezes as inteligncias do nosso Conservatrio
  como que sacodem esse freio que lhe serve de lei, e entram no exerccio desse
  direito que se lhe nega; no deliberam,  verdade, mas protestam. A esttua l
  vai tomar vida nas mos de Prometeu, mas a inferioridade do mrmore fica
  assinalada com a autpsia do escopro.

Mas ganha a literatura, ganha a arte com essas anlises da
  sombra? Ganha, quando muito, o arquivo. A anlise das
    concepes, o estudo das prosdias, vo morrer, ou pelo menos dormir no
  p das estantes.

No  esta a misso de um Conservatrio dramtico. Antes
  negar a inteligncia que limit-la ao estudo enfadonho das indecncias, e marcar-lhe
  as inspiraes pelos artigos de uma lei viciosa.

E -- note-se bem! --  esta uma questo de grande alcance.
  Qual  a influncia de um Conservatrio organizado desta forma? E que respeito
  pode inspirar assim ao teatro?

Trocam-se os papis. A instituio perde o direito de juiz
  e desce na razo da ascendncia do teatro.

Faam ampliar as atribuies desse corpo; procurem dar-lhe
  outro carter mais srio, outros direitos mais iniciadores; faam dessa
  sacristia de igreja um Tribunal de censura.

Completem, porm, toda essa mudana de forma. Qual  o
  resultado do annimo? Se o Conservatrio  um jri deliberativo, deve ser
  inteligente; e por que no h de a inteligncia minguar os seus juzos? Em
  matria de arte eu no conheo suscetibilidades nem interesses. Emancipem o
  esprito, ho de respeitar-lhe as decises

  [1]

  .

Ser fcil uma emancipao do esprito neste caso? -- .
  Basta que os governos compreendam um dia esta verdade de que o teatro no  uma
  simples instituio de recreio, mas um corpo de iniciativa nacional e humana.

Ora, os governos que tm descido o olhar e a mo a tanta
  coisa ftil, no repararam ainda nesta nesga de fora social, apeada de sua
  ao, arredada de seu caminho por caprichos mal-entendidos, que a fortuna
  colocou por fatalidade  sombra da lei.

Criaram um Conservatrio Dramtico por instinto de
  imitao, criaram uma coisa a que tiveram a delicadeza ou mau gosto de chamar teatro normal, e dormiram descansados, como se tivessem
  levantado uma pirmide no Egito.

Ora, todos ns sabemos o que  esse Conservatrio e este
  teatro normal; todos ns temos assistido s agonias de um e aos desvarios do
  outro; todos temos visto como essas duas instituies destinadas caminharem de
  acordo na rota da arte, divorciaram-se de alvo e de estrada. O Conservatrio
  comprometeu a dignidade do seu papel, ou antes o
  obrigaram a isso, e o teatro, acordando um dia com instinto de Csar, tentou
  conquistar todo o mundo da arte, e entreviu tambm que lhe cumpria comear a
  empresa por um tribunal de censura.

Com esta guerra civil no mundo dramtico, limitadas as
  decises de censura, est claro, e claro a olhos nus que a arte sofria e com
  ela a massa popular, as platias. A censura estava obrigada a suicidar-se de um
  direito e subscrever as frioleiras mais insensatas
  que o teatro entendesse qualificar de composio dramtica.

Este estado de coisas que eu percebo, inteligncia mnima
  como sou, ser percebido tambm pelos governos? No  fcil de aceitar a
  hiptese negativa, porquanto evidentemente no os posso considerar abaixo de
  mim na tica do esprito. Concordo pois, que os
  governos no tm sido estranhos nesta anarquia da arte, e ento uma negligncia
  assim, depe muito contra a conscincia do poder.

No h fugir daqui. Onde est esse projeto sobre a
  literatura dramtica apresentado h tempos na cmara temporria? Era matria de
  contrabando, e as aspiraes polticas estavam ocupadas em negcios que visavam
  outros alvos mais slidos ou pelo menos mais reais. Esse projeto, dando um
  carter mais srio ao teatro, abria as suas portas s inteligncias dramticas
  por meio de um incentivo honroso. Trazia em si um princpio de vida: l foi
  para o barbante do esquecimento!

 simples, e no carece de larga observao: os governos
  em matria de arte e literatura olham muito de alto; no tomam o trabalho de
  descer  anlise para dar a mo ao que o merece.

Entretanto o que se pede no  uma vigilncia exclusiva;
  ningum pretende do poder emprego absoluto dos seus sentidos e faculdades.
  Nesta questo sobretudo  fcil o remdio; basta uma reforma pronta, inteiria,
  radical, e o Conservatrio Dramtico entrar na esfera dos deveres e direitos
  que fazem completar o pensamento de sua criao.

Com o direito de reprovar e proibir por incapacidade
  intelectual, com a viseira levantada ao esprito da abolio do annimo, o
  Conservatrio, como disse acima, deixa de ser uma sacristia de igreja para ser
  um tribunal de censura.

E sabem o que seria ento esse tribunal? uma muralha de
  inteligncia s irrupes intempestivas que o capricho quisesse fazer no mundo
  da arte, s bacanais indecentes e parvas que ofendessem a dignidade do tablado,
  porque infelizmente  fato lquido, h l tambm uma dignidade.

O Conservatrio seria isso e estaria nas linhas do seu
  dever e de seu direito.

Mas no meio destes reparos, resta ainda um fato importante
  -- a literatura dramtica.

Com uma reforma no Conservatrio, parece-me claro que
  ganhava tambm a arte escrita. No temos (ningum ser to ingnuo que confesse
  esse absurdo) no temos literatura dramtica, na extenso da frase; algumas
  estrelas no fazem uma constelao: so lembranas deixadas no tablado por
  distrao, palavras soltas, aromas queimados, despidos de todo o carter
  sacerdotal.

No podia o Conservatrio tomar um encargo no sentido de
  fazer desenvolver o elemento dramtico na literatura? As vantagens so
  evidentes -- alm de emancipar o teatro, no expunha as platias aos barbarismos
  das tradues de fancaria que compem uma larga parte
  dos nossos repertrios.

Mas, entendam bem! inculco esse encargo ao Conservatrio,
  mas a um Conservatrio que eu imagino, que alm de possuir os direitos
  conferidos por uma reforma, deve possuir esses direitos de capacidade
  conferidos pela inteligncia e pelos conhecimentos.

No  ofender com isto as inteligncias legtimas do atual
  Conservatrio. Eu no nego o sol; o que nego, ou pelo menos o que condeno em
  conscincia so as sombras que no do luz e que mareiam a luz.

Um Conservatrio ilustrado em absoluto  uma garantia para
  o teatro, para a platia e para a literatura.

Para faz-lo assim basta que o
  poder faa descer essa reforma to desejada.
